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"Não
admito"
A luta
de uma aposentada para conter
a cegueira do filho adolescente
Karina Pastore
Oscar Cabral
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| Maria
Odete, com Pedro Henrique: ela atraiu a atenção de cientistas estrangeiros
para a doença genética que aflige a sua família |
A bancária aposentada Maria Odete Moschen, de 54 anos, não
esquece cada detalhe daquele final de 7 de junho de 2001. Eram 6 horas
da tarde, quando ela recebeu o boletim escolar de Pedro Henrique, seu
único filho. Aluno da 8ª série de um colégio
particular de Vitória, no Espírito Santo, o menino, com
exceção de educação física, havia sido
reprovado em todas as matérias. Irritada, Maria Odete preparou-se
para um sermão daqueles. Nem bem ela começou a falar, o
filho explicou: "Mãe, eu não estou enxergando nada!" Foi
um choque. Atônita, Maria Odete lembrou-se de uma cena da sua infância.
Os tios e primos reunidos no velório da avó todos
eles olhando para o infinito, todos eles cegos. Também veio à
sua mente a história do seu tio-avô. Aos 35 anos, ele se
matou ao saber que nunca mais voltaria a enxergar. Apavorada, começou
a rezar para que o filho não fosse mais uma vítima da "maldição
da família". Mas ele era. Aos 14 anos, o rapaz foi diagnosticado
com neuropatia óptica hereditária de Leber, a NOHL, mal
genético que leva à cegueira. "O momento mais trágico
é quando se ouve o médico dizer que nada pode ser feito",
lembra Maria Odete. Da dor e da angústia, ela tirou forças.
Conseguiu atrair a atenção de pesquisadores americanos,
italianos e brasileiros. Descobriu-se que sua família é
a maior do mundo em número de portadores da NOHL, com 29 cegos.
Há duas semanas, os cientistas estrangeiros voltaram ao Espírito
Santo. Traziam na bagagem um colírio para conter o avanço
da doença. Ainda experimental, o remédio foi criado a partir
de estudos feitos com os parentes de Maria Odete.
Depois de
Pedro Henrique ter sido diagnosticado com a doença, Maria Odete
correu para a internet. Sem entender nada de inglês, teve de recorrer
a amigos. Queria saber mais sobre a doença. Queria que alguém
lhe acenasse com uma esperança. Em três dias, ela despachou
mais de 250 mensagens para centros de pesquisa espalhados ao redor do
mundo. Apenas um desses e-mails obteve resposta. O enviado para a Fundação
Internacional para Doenças do Nervo Óptico, organização
não-governamental com sede em Nova York. O médico responsável
pela fundação, o oftalmologista Alfredo Sadun, professor
da Universidade do Sul da Califórnia, interessou-se pelo drama
de Maria Odete e imediatamente acionou a Universidade de Bolonha, na Itália,
centro de referência para o estudo de genética ocular, e
a Universidade Federal de São Paulo. Nunca, desde que o mal foi
descrito pela primeira vez, no fim do século XIX, a ciência
havia tido a oportunidade de esmiuçar a doença considerada
como um dos grandes mistérios da oftalmologia. "Agora poderemos
acompanhar vários doentes de uma mesma família, o que nos
ajudará a elucidar uma série de dúvidas e buscar
drogas contra o distúrbio", diz o oftalmologista Rubens Belfort
Jr., professor do Instituto da Visão, da Universidade Federal de
São Paulo.
Doença
transmitida pelos genes maternos, a NHOL ataca sobretudo os homens, entre
a primeira e a segunda década de vida. A perda de visão
é rápida de duas a oito semanas, no máximo.
Uma semana depois de Pedro Henrique ficar cego do olho esquerdo, ele começou
a perder a visão do olho direito restrita hoje a 10%. No
desespero de tentar conter a cegueira do filho, Maria Odete retraçou
as raízes da "maldição da família". Durante
a montagem dessa triste árvore genealógica, ela voltou a
1895, ano em que sua bisavó materna, Maria Franchi, emigrou da
cidade italiana de Verona. "Eu chorava a cada dado novo que inseria nessa
árvore genealógica. Para meninas e meninos bonitos e saudáveis
que conheci em minha infância, eu agora era obrigada a colocar a
legenda CEGO", lembra ela. "E, como se isso não bastasse, lá
vinham seus filhos e netos, também cegos. Angustiava-me muito mais
a informação da cegueira do que a da morte."
Terminada
a árvore genealógica, Maria Odete correu para reunir a maior
quantidade possível de parentes, antes da chegada dos cientistas
a Vitória. Com a ajuda das tias-avós e primas mais velhas,
encontrou os 296 descendentes de Maria Franchi que viviam no Brasil. Quando
os cientistas chegaram, em outubro do ano passado, estavam todos lá,
dispostos a ceder amostras de sangue para a análise do DNA. Feitos
os exames, descobriu-se que 77 deles carregam a mutação
genética responsável pela doença. Nos laboratórios
da Universidade de Bolonha, o geneticista Valerio Carelli cruzou o material
genético da família de Maria Odete com os genes de 103 vítimas
italianas da doença. A surpresa: uma delas, um rapaz cego, de 30
e poucos anos, morador de Roma, é parente distante da bancária
aposentada. No início do ano, Maria Odete lançou o livro
A Trajetória de um Sangue, em que conta o seu drama.
Alguns avanços
da medicina decorrem da obstinação de pais em busca da cura
para males que afligem seus filhos. A luta do casal Augusto e Michaela
Odone, dos Estados Unidos, inspirou o filme O Óleo de Lorenzo,
de 1992, com Susan Sarandon e Nick Nolte. Aos 5 anos, Lorenzo foi
diagnosticado com uma doença rara que, progressivamente, destruiria
seu sistema nervoso. Os médicos lhe deram apenas dois anos de vida.
Inconformados, os pais descobriram que a mistura de dois ácidos
poderia conter a doença. O coquetel tirou o menino do estado vegetativo.
Hoje, aos 24 anos, ele continua preso a uma cama, mas já é
capaz de se comunicar pela linguagem dos sinais. No início do mês,
um dos médicos que chegaram a acusar os Odone de curandeirismo
teve de reconhecer que o óleo funciona, sim. Agora, o mundo científico
assiste à luta da bancária aposentada de Vitória.
"Não admito a possibilidade de morrer sem encontrar a cura para
a doença que vitimou meu filho", diz Maria Odete.
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