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Edição 1 774 - 23 de outubro de 2002
Eleições 2002

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Nem todos que
lulam são PT

O eleitorado cativo do PT é de cerca
de 23 milhões. O de Lula pode ser
bem mais que o dobro

João Gabriel de Lima


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Cobertura completa no site Eleições 2002

Luís Inácio Lula da Silva sempre foi maior que o PT. Ele teve 39,4 milhões de votos no primeiro turno das eleições presidenciais, cerca de 46% dos votos válidos ou 41% dos votos totais. Aproximadamente 16 milhões de brasileiros que não se dizem petistas nas pesquisas votaram em Lula no primeiro turno. Se for confirmado o número de votos que os levantamentos dos institutos lhe davam na semana passada, Lula chegará à eleição de domingo com cerca de 57 milhões de votos válidos. Ou seja, nesta eleição, Lula mais do que dobrou o contingente eleitoral do PT. Ao longo do ano de 2002, segundo dados do instituto Datafolha, o número de eleitores que declararam ter o PT como partido preferido girou em torno de 20%, o que daria cerca de 23 milhões de pessoas. É interessante observar que, na Câmara Federal, o PT terá uma representação bem próxima dessa proporção – o partido elegeu 91 deputados federais, o que equivale a 18% dos assentos da casa.

De acordo com dados do Ibope obtidos a uma semana do segundo turno das eleições, os brasileiros que votaram em Lula se distribuem de maneira praticamente uniforme por todas as faixas de renda e escolaridade. Espalham-se igualmente também pelas regiões do país. As únicas discrepâncias notáveis são de sexo e faixa etária. O lulista é predominantemente homem e jovem. Na pesquisa do Ibope realizada no dia 1º de outubro, Lula aparecia com 51% do voto masculino e 36% do feminino. Em termos de faixa etária, o candidato decrescia gradativamente de 48% entre os jovens de 16 a 24 anos até chegar a 38% entre os adultos de mais de 50 anos. As dificuldades do PT para atrair o voto das mulheres vêm de longa data. Essa rejeição é atribuída ao fato de muitas mulheres associarem o PT à baderna e à desordem. Durante um encontro com petistas realizado em Guarulhos, município da Grande São Paulo, o deputado José Dirceu, presidente do partido, fez sua avaliação do quadro: "As mulheres acham que seriam as primeiras prejudicadas por um governo onde houvesse alta de preços, violência e greves, já que são elas que comparam os preços da feira".

Além de entender as mulheres, a direção do PT quer também conhecer melhor seus militantes. O Partido dos Trabalhadores está promovendo, atualmente, um recadastramento de seus filiados. Até o dia 15 de outubro, eles estavam em torno de 300.000 em todo o Brasil – exatamente 296.233. Estes são os petistas de carteirinha, que têm direito a voto nas prévias do partido e eventualmente ocupam cargos em prefeituras e governos do PT. O partido nunca se havia preocupado até agora em saber o nível de escolaridade, ocupação ou mesmo o perfil social de seus militantes.

A votação de Lula no primeiro turno das eleições deste ano cresceu extraordinariamente em relação aos pleitos anteriores. O petista teve cerca de 17 milhões de votos em 1994, passou para 21 milhões em 1998 e praticamente dobrou essa cifra, chegando aos mais de 39 milhões atuais. Os especialistas explicam o fenômeno pela aceitação de Lula por parte de quem o achava simpático mas despreparado e pela guinada do candidato rumo ao centro. Numa pesquisa aprofundada sobre o comportamento dos eleitores brasileiros, realizada na Universidade de São Paulo sob coordenação do cientista político José Augusto Guilhon Albuquerque, surgiu uma explicação mais detalhada do fenômeno. A questão seria menos ideológica e mais pragmática. Nas eleições de 1989, 1994 e 1998, descobriu Guilhon, Lula perdeu feio entre os eleitores preocupados apenas com o desempenho do candidato no governo, com sua capacidade administrativa. "Na campanha eleitoral deste ano, Lula apresentou projetos e apareceu na propaganda televisiva comandando um time de intelectuais, e isso mudou a expectativa das pessoas quanto à questão do desempenho", acredita Guilhon. Lula teria, finalmente, conseguido fazer com que vários brasileiros céticos quanto ao seu desempenho no cargo passassem a acreditar na sua competência e na da equipe que o cerca. Se ele vencer domingo, esse convencimento terá sido talvez o ponto mais decisivo de toda a campanha petista.

 
 
   
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