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Edição 1 774 - 23 de outubro de 2002
Eleições 2002

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Transição
na crise

Eurípedes Alcântara


Antonio Milena

Lula a uma semana da decisão: larga vantagem nas pesquisas e declarações polêmicas


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Cobertura completa no site Eleições 2002

Pelo que as pesquisas indicam, os eleitores irão conduzir Luís Inácio Lula da Silva ao posto de presidente da República do Brasil. A escolha, se vier mesmo a se efetivar, terá marcado seu lugar na história política brasileira. A quarta maior democracia do mundo terá escolhido para dirigir seu destino um ex-torneiro mecânico de 57 anos cuja carreira política foi impulsionada pela crítica impiedosa às elites e pela vigilância contra a corrupção. Mais recentemente, Lula redirecionou as forças políticas que o apóiam para o quadrante ideológico da centro-esquerda, manobra que venceu a tradicional resistência do eleitorado ao Partido dos Trabalhadores e lhe rendeu os votos necessários para ser hoje o aspirante com mais chance de subir a rampa do Palácio do Planalto. Tudo correndo conforme esse roteiro, com base por enquanto nas probabilidades estatísticas, seria a primeira vez na história republicana que um homem do povo, com pouca instrução formal, chega à Presidência. As eleições de domingo têm, porém, outro componente histórico inédito, mas de natureza perversa. A faixa presidencial estará trocando de dono em meio a uma crise financeira sem precedentes na história recente do Brasil. Cada passo da transição estará sendo vigiado pela implacável disciplina do mercado.

Com o distanciamento típico de quem fala de crise em país dos outros, Kenneth Dam, subsecretário do Tesouro dos Estados Unidos, disse na semana passada que o governo americano tem pronto um plano de emergência para o "caso de o Brasil declarar uma moratória". O diagnóstico, feito numa hora delicada por uma autoridade do calibre de Dam, beira a irresponsabilidade, mas reflete a temperatura da crise em meio à qual se processará a troca de guarda em Brasília. A instabilidade que se observa no Brasil foi provocada pela combinação de muitos fatores de risco. Entre eles, figura o temor de um governo Lula. Esse não foi o mais forte dos fatores. Teve, no entanto, poder suficiente para transformar risco em incerteza e potencializou a crise. Diversos analistas têm usado como metáfora do atual momento brasileiro a situação descrita no livro do americano Sebastian Junger que deu origem ao filme Mar em Fúria, exibido nos cinemas dois anos atrás. Junger relata o drama de um barco de pesca pego em alto-mar durante uma tempestade "produzida pela conjunção tão rara de fatores adversos que só pode ocorrer uma vez em cada século". A tempestade que agora assola as finanças brasileiras combina fragilidades internas e externas. São problemas que ocorrem isoladamente nas melhores economias, mas cuja combinação é rara. Internamente, o Estado brasileiro produz déficits anuais bilionários para pagar a aposentadoria dos funcionários públicos e gasta sempre mais do que arrecada. Como resultado, a dívida interna beira os 65% de toda a riqueza nacional e continua crescendo na mesma proporção em que aumenta o preço que o mercado cobra para rolá-la. Do lado de fora, arma-se o vendaval de uma invasão americana no Iraque, com a prevista explosão do preço do petróleo. A perspectiva de guerra só piora a aversão ao risco, sentimento cada vez mais universal que cortou as linhas de crédito externo para o Brasil e, por enquanto, fez secar a torneira de dólares que impulsionou a economia brasileira nos anos 90. A economia americana e a mundial andam se arrastando num ritmo recessivo sem o menor apetite para investir na própria casa, quanto mais nos países emergentes. Tudo isso – e mais a desconfiança da pauta radical histórica do PT – ajudou a armar a tempestade financeira sobre o Brasil.

Na semana passada, Lula, falando de improviso, deu algumas declarações desastrosas. "É uma ironia que a equipe econômica tenha subordinado a oitava economia do mundo à especulação e à ganância de meia dúzia de banqueiros", disse o candidato petista na quinta-feira, oferecendo sua explicação de por que as taxas de juro brasileiras são tão altas. Lula cometeu uma injustiça com a equipe econômica do atual governo e deu explicação emocional para uma questão complexa como os juros. O ministro Pedro Malan reagiu aos comentários do candidato do PT com irritação. "Esse discurso não contribui em nada para acalmar as expectativas quanto ao que pode vir a acontecer no país", disse Malan. "A referência a meia dúzia de especuladores lembra o insensato plebiscito sobre a dívida externa que tanto dano causou e ainda causa ao país", completou o ministro da Fazenda. Felizmente, o PT, por escrito, foi muito melhor que seu candidato falando. Num documento conjunto com a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o PT firmou um compromisso com a "revitalização do mercado de capitais". O senador eleito por São Paulo, Aloizio Mercadante, e Antônio Palocci, um dos articuladores de Lula junto aos empresários, apareceram sorridentes em fotos ao lado do presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, e de Raymundo Magliano, presidente da Bovespa. A cerimônia seria um ato banal, sem maior repercussão, se seus protagonistas do lado político fossem de outra legenda, como PSDB ou PFL. Um documento assinado pelo PT que trata as bolsas de valores como parte das forças produtivas marca uma mudança significativa no cenário político e econômico que está sendo criado em torno do Partido dos Trabalhadores. O mercado acionário sempre foi visto pelo PT como uma espécie de cassino, em que espertalhões nacionais e estrangeiros especulam para ver quem fica com a maior parte do pobre dinheiro do trabalhador. O próprio Mercadante já se referiu ao capital estrangeiro em bolsa como "dólar de motel", dinheiro que dorme uma noite no Brasil e vai embora no dia seguinte.

O documento do PT apaziguou o mercado. O dólar fechou a semana em queda e o risco Brasil também despencou. Para culminar uma semana muito positiva para a imagem do PT junto ao mercado, Antônio Palocci disse aos dirigentes da Fiesp que, se ganhar a eleição, o PT produzirá "o superávit primário que for necessário" para que o país tenha a tranqüilidade suficiente de retomar as rédeas da economia. Palocci tocou no ponto mais vital para a saúde das finanças públicas. O superávit é o que sobra da receita em caixa depois que o governo efetuou todas as suas despesas, menos o pagamento dos juros da dívida. Se sobra mais dinheiro em caixa, aumenta a confiança dos credores na capacidade do governo de honrar seus compromissos. Esse é o primeiro passo para pensar na tão esperada derrubada dos juros para um patamar menos selvagem e na volta do crescimento acelerado e não-inflacionário da economia brasileira. Atualmente, o superávit primário brasileiro está em 3,88% do produto interno bruto. O mercado calcula que será preciso elevá-lo para cerca de 5%. Ao se comprometer com "o superávit necessário", o PT está dizendo que vai cortar despesas. É um compromisso muito positivo. As outras saídas seriam aumentar impostos ou permitir que a inflação volte, ambas soluções imediatistas e perigosíssimas para crises como a que o Brasil está vivendo.

O mercado demonstrou com números tranqüilizadores sua trégua momentânea com Lula e o PT. A desconfiança cedeu um pouco. Para alguns petistas, que já vinham se incomodando com os rumos moderados do partido, o documento da coligação PT-Fiesp-Bovespa causou estupefação. Segundo cálculos do próprio partido, cerca de 30% dos militantes e parlamentares petistas são vinculados a facções radicais e revolucionárias encasteladas no PT (veja a reportagem seguinte). Eles têm um peso relativo ainda ponderável no petismo. Os radicais elegeram 26 dos 91 deputados federais que a partir de janeiro vão compor a bancada petista na Câmara. Suas idéias ainda se alimentam de utopias pré-queda do Muro de Berlim. Os donos dessas idéias podem atrapalhar muito um eventual governo de Lula. São pessoas que defendem a "expropriação do patrimônio da grande burguesia", a reestatização das empresas privatizadas e a censura à imprensa – medidas que, na visão deles, levariam em sua etapa final à abolição do capitalismo.

Desde 1995, o PT vem sistematicamente empurrando os radicais para posições menos estratégicas. Muitos, incomodados, se retiraram. Várias facções abandonaram oficialmente o PT, como a Convergência Socialista e PSTU, que até lançou candidato próprio à Presidência. Líderes radicais conhecidos foram neutralizados. O exemplo mais dolorido para o PT é o de Vladimir Palmeira, o ex-líder estudantil que na juventude dividiu os holofotes com José Dirceu, deputado federal e presidente do PT, engenheiro da guinada petista para a centro-esquerda. Mas muitos permaneceram no partido e durante a campanha ficaram silenciosos. Os dirigentes do PT acreditam que os radicais podem ser um problema para o partido, "mas não serão para o governo". Os deputados radicais, asseguram petistas de alto coturno, serão enquadrados da mesma maneira que foram até agora. Um cacique petista assegurou na semana passada a VEJA: "O PT fecha questão nas votações e quem ficar contra será submetido a um processo de expulsão".

Já se abriram esses processos mais de dez vezes somente contra deputados federais. Quatro foram expulsos do partido. Os radicais sem cargos eletivos mas com competência específica serão aproveitados em "funções técnicas", em que mesmo discordando ideologicamente das linhas gerais se submetem à orientação de cima. Com exceções, essa tem sido a regra geral na máquina do partido e nas administrações municipais e estaduais do PT. O partido calcula que cerca de 150.000, ou metade dos militantes de carteirinha, já ocupam cargos nessas administrações. Pelo menos 50.000 deles pertencem a tendências revolucionárias e, segundo o partido, só expressam seu radicalismo nas eleições internas. "Meu mandato de presidente do PT vai até 2004. Até lá, pelo menos, a responsabilidade de manter o partido democraticamente unido em torno das decisões da maioria é minha. Tenho feito isso com muito sucesso e vou continuar fazendo", vem dizendo o deputado federal José Dirceu, presidente nacional do PT. O cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, concorda. "Os radicais têm como principal estratégia ocupar espaços e se contentam com cargos em setores não estratégicos", afirma ele. "Tudo indica que eles irão se acomodar assim num governo Lula. No mundo inteiro, a cúpula dos partidos de esquerda está à direita dos militantes. O PT não seria exceção."

Espera-se que não seja mesmo. Ninguém acredita mais que o PT, caso seja eleito, indique radicais para os postos-chave da administração, como o Ministério da Fazenda ou a presidência do Banco Central. São postos que, especula-se, poderão vir a ser ocupados por pessoas sem ligação com o partido, até mesmo como recurso para acalmar o mercado. Há, no entanto, um bom número de postos vitais de segundo escalão em que a paixão ideológica pode causar estragos. Estão nesse caso lugares como as diretorias do Banco Central, da Caixa Econômica Federal e os postos de decisão no Banco do Brasil e no BNDES. Também seria desastroso ter órgãos como a Polícia Federal, a Receita Federal e a agência de inteligência do governo entregues a pessoas que agem por motivações políticas. Um radical ensandecido no Incra, por exemplo, poderia incentivar invasões em vez de coibi-las. O PT, pelo menos suas esferas de comando, não pretende entregar cargos vitais aos militantes entusiasmados com o jargão socialista predispostos a contrariar a linha política que o governo adotar. Caso siga essa conduta prudente, o partido, se chegar mesmo ao poder, estará cumprindo as expectativas de milhões dos novos simpatizantes que conquistou nesta eleição.

 
 
   
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