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Queremos
jogo sujo
"Lula
disse que gosta de uma cachacinha. Pois eu quero saber quanto ele bebe.
E quanto bebe o Serra. Chega de debate
de idéias. Onde já se viu um político brasileiro
dotado de idéias?"
Os petistas implicam comigo. Um deles me xingou de "anta". Outro, de "cretino".
Nas últimas semanas chamaram-me também de "inútil",
"arrogante" e "retrógrado". Um "cínico". Um "complexado".
Um "ser desprezível". Um "Bokassa nacional". Um "sujeito que vive
cheirando esgoto e convivendo com ratos". O dramaturgo preferido do PT,
Augusto Boal, depois de me convidar para ser destaque num carro alegórico
da Acadêmicos da Barra da Tijuca (convite aceito, logicamente),
atribuiu-me uma "burrice espantosa". O pior insulto, porém, apareceu
num jornal informático. Numa lista de colunistas conservadores,
puseram-me em companhia de Jarbas Passarinho. Quase desisti da carreira.
O aspecto mais curioso dos petistas é seu irremediável vitimismo.
Acusaram-me, por exemplo, de querer mandar Lula "de volta para o torno",
impondo "o projeto das camadas dominantes, eternamente associadas a algum
interesse externo". Como se uma "mente alvoroçada" como eu pudesse
ter um projeto. Como se um "esperneador insignificante" como eu pudesse
pensar em dar ordens a Lula, o homem mais poderoso do país. Quando
Lula desafiava o regime militar, eu ia vender bônus nos semáforos
para sustentar os metalúrgicos em greve. Agora a coisa mudou. É
ele quem manda. A camada dominante é formada pelo PT e seus aliados,
que controlam boa parte do Congresso Nacional, administram algumas de
nossas maiores cidades e se preparam para assumir o governo central. Com
uma canetada, podem inundar de verbas os amigos e arruinar os inimigos.
Com outra canetada, podem decretar moratória e derrubar os mercados
internacionais. Os petistas fazem de conta que Lula ainda é hostilizado
pelos potentes e perseguido pelas forças reacionárias, uma
das quais seria pobrezinho eu. Mas o fato é que,
hoje em dia, o poder está todo com eles.
O resultado dessa hegemonia do PT é que ninguém tem coragem
de atacar Lula. A imprensa chapa-branca criou-lhe inclusive um escudo
de força, decretando preventivamente que quem o atacasse perderia
votos. E pediu uma campanha de "alto nível". Ou seja, sem ofensas
pessoais. O que adianta ter uma campanha de alto nível se os candidatos
continuam de baixo nível? Eu acharia muito melhor se a campanha
degenerasse numa pancadaria violenta. Como nos Estados Unidos, onde a
imprensa foi atrás de notícias sobre a vida sexual de Clinton
ou sobre as bebedeiras de Bush. O que teria sido mais útil para
os eleitores brasileiros em 1960: debater as idéias de Jânio
Quadros ou saber quantas doses de uísque ele tomava por dia? Lula
disse que gosta de uma cachacinha. Pois eu quero saber quanto ele bebe.
E quanto bebe o Serra. Chega de exaltar hipocritamente o debate de idéias.
Onde já se viu um político brasileiro dotado de idéias?
Vamos deixá-las para quem as tem. Nosso negócio é
vida particular. Inclusive porque os únicos grandes movimentos
da política nacional só ocorreram quando entrou em jogo
a esfera privada, como demonstram os casos do irmão de Collor,
da ex-mulher de Pitta ou do marido de Roseana Sarney. Queremos jogo sujo
e golpes baixos. Queremos uma sórdida campanha difamatória,
que rompa essa lei do silêncio, essa "omertà", em que um
candidato poupa o outro. Por que só eu devo ser insultado?
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