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Edição 1 774 - 23 de outubro de 2002
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Queremos jogo sujo

"Lula disse que gosta de uma cachacinha. Pois eu quero saber quanto ele bebe.
E quanto bebe o Serra. Chega de debate
de idéias. Onde já se viu um político brasileiro dotado de idéias?"

Os petistas implicam comigo. Um deles me xingou de "anta". Outro, de "cretino". Nas últimas semanas chamaram-me também de "inútil", "arrogante" e "retrógrado". Um "cínico". Um "complexado". Um "ser desprezível". Um "Bokassa nacional". Um "sujeito que vive cheirando esgoto e convivendo com ratos". O dramaturgo preferido do PT, Augusto Boal, depois de me convidar para ser destaque num carro alegórico da Acadêmicos da Barra da Tijuca (convite aceito, logicamente), atribuiu-me uma "burrice espantosa". O pior insulto, porém, apareceu num jornal informático. Numa lista de colunistas conservadores, puseram-me em companhia de Jarbas Passarinho. Quase desisti da carreira.

O aspecto mais curioso dos petistas é seu irremediável vitimismo. Acusaram-me, por exemplo, de querer mandar Lula "de volta para o torno", impondo "o projeto das camadas dominantes, eternamente associadas a algum interesse externo". Como se uma "mente alvoroçada" como eu pudesse ter um projeto. Como se um "esperneador insignificante" como eu pudesse pensar em dar ordens a Lula, o homem mais poderoso do país. Quando Lula desafiava o regime militar, eu ia vender bônus nos semáforos para sustentar os metalúrgicos em greve. Agora a coisa mudou. É ele quem manda. A camada dominante é formada pelo PT e seus aliados, que controlam boa parte do Congresso Nacional, administram algumas de nossas maiores cidades e se preparam para assumir o governo central. Com uma canetada, podem inundar de verbas os amigos e arruinar os inimigos. Com outra canetada, podem decretar moratória e derrubar os mercados internacionais. Os petistas fazem de conta que Lula ainda é hostilizado pelos potentes e perseguido pelas forças reacionárias, uma das quais seria – pobrezinho – eu. Mas o fato é que, hoje em dia, o poder está todo com eles.

O resultado dessa hegemonia do PT é que ninguém tem coragem de atacar Lula. A imprensa chapa-branca criou-lhe inclusive um escudo de força, decretando preventivamente que quem o atacasse perderia votos. E pediu uma campanha de "alto nível". Ou seja, sem ofensas pessoais. O que adianta ter uma campanha de alto nível se os candidatos continuam de baixo nível? Eu acharia muito melhor se a campanha degenerasse numa pancadaria violenta. Como nos Estados Unidos, onde a imprensa foi atrás de notícias sobre a vida sexual de Clinton ou sobre as bebedeiras de Bush. O que teria sido mais útil para os eleitores brasileiros em 1960: debater as idéias de Jânio Quadros ou saber quantas doses de uísque ele tomava por dia? Lula disse que gosta de uma cachacinha. Pois eu quero saber quanto ele bebe. E quanto bebe o Serra. Chega de exaltar hipocritamente o debate de idéias. Onde já se viu um político brasileiro dotado de idéias? Vamos deixá-las para quem as tem. Nosso negócio é vida particular. Inclusive porque os únicos grandes movimentos da política nacional só ocorreram quando entrou em jogo a esfera privada, como demonstram os casos do irmão de Collor, da ex-mulher de Pitta ou do marido de Roseana Sarney. Queremos jogo sujo e golpes baixos. Queremos uma sórdida campanha difamatória, que rompa essa lei do silêncio, essa "omertà", em que um candidato poupa o outro. Por que só eu devo ser insultado?

 
 
   
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