Eymael, João de Deus,
Enéas e o resto da turma

De onde eles surgem? Que fazem, quando não são
candidatos a presidente? Eles nos desconcertam

Só Eymael pode derrotar Fernando Henrique. Saudade da era Vargas? Socorra-se com João de Deus. Com ele, Getúlio sairá da História para entrar na vida. Mas, se o problema do eleitor for bomba atômica, já sabe: o nome dele é Enéas. Não? O problema não é bomba atômica, mas burguês? Contra burguês, vote 16.

Estamos, o leitor já sabe, reprisando os melhores momentos do horário eleitoral na televisão. Os nomes citados são de pessoas que estão oferecendo seus bons ofícios para presidir a República. Há ainda Vasco Neto, Sérgio Bueno, o brigadeiro Ivan Frota, "o piloto de que o Brasil precisa", a senhora Theresa Ruiz. Se há algo de que não podemos nos queixar é da falta de candidato a presidente. De onde vêm eles? Que fazem, quando não se estão candidatando à Presidência? Essas são algumas das questões que deixam em seu rastro, a cada quatro anos, quando, como cometas, surgem e somem de nossas vistas.

Sérgio Bueno (PSC, o partido do peixinho) diz que vinha alertando há tempos sobre a iminência de uma crise econômica. Mas como ouvir seus alertas, se não sabemos sequer por onde andava Sérgio Bueno? João de Deus (PT do B) propõe: "No meu governo, vou descentralizar o INPS..." Fiquemos apenas com as três primeiras palavras: "No meu governo..." Elas nos convidam à perplexidade, pois um governo João de Deus supõe uma série de eventos para a qual não fomos nem minimamente preparados. A posse, a cerimônia no Itamaraty, presentes os presidentes estrangeiros. Reunião ministerial, sob o comando de João de Deus. Notícia dos jornais: "O presidente João de Deus anunciou ontem..." Encontros internacionais: João de Deus com Clinton, com Tony Blair... É de tirar o fôlego.

Alguns dos candidatos gostam de nos confundir. Por que seria Eymael (PSDC), como alardeia sua propaganda, o único capaz de vencer Fernando Henrique? Trata-se de um democrata-cristão, como diz sua musiquinha, defensor da família e dos bons costumes. Portanto, não pode estar blefando. De que secretos poderes seria portador? Na sua propaganda, enquanto outros aparecem em poses triunfais, os braços estendidos, ou, então, saturados de gravidade, atrás de uma escrivaninha, com uma estante de livros ao fundo, Eymael se mostra num singelo barquinho, singrando alegremente as águas, acompanhado de um pequeno grupo, como num fim de semana com os amigos. Que quer dizer essa imagem? Que o barquinho derrotará o transatlântico FHC? Eymael é desconcertante.

E o doutor Enéas (Prona)? Outro caso complicado. Para começar, Enéas existe? Ou, como aparenta, não passa de um personagem de história em quadrinhos? Alguns indícios, além dos traços caricaturais que o recobrem, favorecem essa tese. Por exemplo: o surgimento da doutora Havanir, na seqüência de sua popularidade. Havanir só é candidata (a deputada federal) em São Paulo. Para os leitores de outros Estados fazerem uma idéia, trata-se de alguém que grita e esbraveja como Enéas, é até fisicamente parecida com ele, e no fim proclama, como seu inspirador: "Meu nome é Havanir". Ora, nas histórias em quadrinhos é que existe a tendência de, uma vez assegurado o sucesso de determinado personagem masculino, surgir um contraponto feminino, muito parecido. Foi assim que aos super-heróis sucedeu a Mulher Maravilha e, ao Pato Donald, Margarida. Sobre Havanir recai tal suspeita de, igualmente, ter sido criada para complementar Enéas e fazer-lhe companhia, o que reforça a tese de que nenhum dos dois existe de verdade. Foram concebidos na prancheta, ou no computador de um desenhista, e depois infiltrados no horário eleitoral.

Que os faz pensar, aos integrantes da turma do horário gratuito, que estão qualificados para ser presidentes? Theresa Ruiz (PTN) tem ar de pacata dona de casa. É fácil concebê-la empurrando o carrinho do supermercado, ou levando os filhos à escola. Em que momento, entre um compromisso desses e outro, terá sido fulminada pela convicção de que poderia presidir a República? Nada contra as donas de casa. Thereza também pode bem ser uma empresária de sucesso, uma brilhante advogada, professora ou economista, e a questão persistirá. Em que momento foi iluminada pela intuição de que está pronta para pôr cobro ao desgoverno que aí está?

O leitor mais cínico perguntará: "E Lula? E Fernando Henrique?" Em que momento foram visitados por igual convicção? Ocorre que, bem ou mal, eles representam alguma coisa. São candidatos de um sistema de forças políticas e sociais. Já os candidatos lembrados nesta página, os chamados "nanicos", são só a expressão de si mesmos. Fala-se mal deles. Eles atravancariam a campanha. Contribuiriam para despolitizá-la e desmoralizá-la. Talvez, mas não deixam de merecer alguma admiração, pelos paradoxos que encarnam. A uma atividade por excelência gregária, como a política, oferecem o contraponto da solidão. Num ramo em que o principal capital é a notoriedade, são a aposta atrevida no anonimato.




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