Adiós, Neruda

Poeta chileno não serve mais nem para arranjar namorada

Pablo Neruda:
narcisista, stalinista
   

Sabe aquele Neruda que você me tomou e nunca leu? Pode ficar com ele. O tempo mostrou que o chileno Pablo Neruda foi um poeta interessante, mas não um dos maiores da língua espanhola. Atingiu cedo o auge, com Residência na Terra (1925-1931), mas nas outras 7.000 páginas que se gabava de ter escrito mais diluiu do que refinou esse êxito. Tratava-se também de uma personalidade notável, só que pelo narcisismo e pelo dogmatismo político. Escreveu que Stalin era "mais sábio que todos os homens juntos". Jamais aceitou que o assassinato de milhões pela ditadura soviética pudesse ter algo de criminoso. Assim, os 25 anos da morte de Neruda, celebrados neste dia 23 de setembro, não são motivo para entusiasmo excessivo nem para que se perca muito tempo com os Cadernos de Temuco que a Bertrand Brasil lança agora (tradução de Thiago de Mello; 266 páginas; 30 reais). Os cadernos foram preenchidos por um Neruda "teen", entre os anos de 1919 e 1920. Ficaram na gaveta por décadas e só há dois anos foram redescobertos e publicados. Há no livro versos que antecipam temas desenvolvidos mais tarde na lírica do poeta, como o erotismo e o fascínio pela natureza. Mas é só. Talvez pesquisadores chilenos que têm mesmo a obrigação de investigar uma de suas figuras literárias centrais encontrem valores outros na obra. Para os demais, esses Cadernos de Temuco não servem nem para arranjar namorada. Os versos de Neruda, que faziam suspirar as estagiárias de pernas peludas dos anos 70, não comovem mais as moças de hoje.

Carlos Graieb




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line