A saga do liberal

Biografia conta como Austregésilo de Athayde
deixou sua marca na democracia brasileira

Athayde: luta constante contra todas as formas de cerceamento da liberdade
Foto: Ronald Salgado  

No início dos anos 20, o pernambucano Austregésilo de Athayde, então um jovem que tentava a sorte no jornalismo carioca, ouviu várias vezes um mesmo conselho do já famoso escritor Lima Barreto. Dizia-lhe que abandonasse a idéia de trabalhar apenas em jornais, profissão que não dava dinheiro, e tratasse de conseguir um cargo público para viver mansamente à custa do Estado. "Faça como Machado, Bilac e Coelho Neto — compareça à repartição só no fim do mês para pegar o dinheiro", recomendou o autor de Policarpo Quaresma. Athayde jamais lhe deu ouvidos, e quem ganhou com isso foi o Brasil. Nas décadas seguintes, Athayde se tornou uma das vozes mais influentes da democracia nacional e um atilado analista dos acontecimentos mundiais. Com seus artigos diários em jornais e revistas, publicados até pouco antes de sua morte, em 1993, aos 94 anos, esteve sempre pronto a brandir seu ideário liberal contra as opressões, as ditaduras e toda forma de cerceamento das liberdades individuais e de imprensa. Como eterno presidente da Academia Brasileira de Letras, que comandou por mais de trinta anos, tornou-se também personagem lendário e, não raro, folclórico no mundo literário.

Agora, pela primeira vez, a trajetória de Belarmino Maria Austregésilo de Athayde é contada em livro. Sua filha, Laura Constância A.A. Sandroni, e o marido, o jornalista Cicero Sandroni, acabam de lançar Athayde O Século de um Liberal (Agir; 810 páginas; 45 reais). A obra é uma biografia feita a partir do portentoso arquivo montado durante décadas por Maria José, a "Jujuca", mulher de Athayde e mãe de Laura. Jujuca colecionava meticulosamente todos os artigos escritos pelo marido, sua correspondência e as notícias que a imprensa publicava sobre ele ou sobre o casal. Muitos desses artigos são reproduzidos no livro, devidamente acompanhados do contexto em que foram escritos. O resultado é uma História do Brasil e do mundo no século XX contada pela ótica de um observador arguto. A obra também procura desmitificar algumas lendas a respeito de Athayde. Como a de que ele teria apoiado incondicionalmente o golpe militar de 1964. Os artigos de época mostram que ele realmente apoiou o levante militar como forma de evitar a baderna na vida nacional, mas apenas três dias depois já reclamava a devolução do poder aos civis.

A biografia também resgata histórias curiosas e divertidas protagonizadas por Austregésilo de Athayde. Como sua campanha contra a construção da estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. "Por que obrigar o Cristo a ser o guarda-noturno dessa Sodoma incorrigível?", perguntava ele em 1921. Abordando episódios mais recentes, o livro conta como ele ficou furioso quando suas economias da vida inteira foram confiscadas pelo então ex-presidente Collor. Por coincidência, o primeiro pagamento que Athayde recebeu por um artigo, escrito para o jornal carioca A Tribuna, foi-lhe entregue pelo avô do ex-presidente, o também jornalista Lindolfo Collor, diretor da publicação. Dias depois do confisco, Athayde aliviou a bílis com a ministra de Collor, Zélia Cardoso de Mello. Ambos se encontraram no show de Paul McCartney, no Rio de Janeiro. Puxando conversa, Zélia chamou a atenção de Athayde para o fato de que todos no Maracanãzinho estavam dançando ao som do ex-beatle. "Ministra", devolveu o jornalista, "quem fez o Brasil dançar foi a senhora, não ele." Humor admirável para um nonagenário.




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