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Djanira:
só descobriu que era portadora do vírus por acaso |
| Fotos de Nelio Rodrigues/Superstock/Keystone/Tcha-Tcho |
Uma nova e silenciosa epidemia chegou. Já são 170 milhões de vítimas da hepatite C em todo o mundo, 3 milhões no Brasil incidência cinco vezes maior que a da Aids. As seqüelas são severas. A doença pode levar à cirrose, ao câncer de fígado e até matar. No maior hemocentro da América Latina, a Fundação Pró-Sangue, de São Paulo, identificam-se vinte novos casos de hepatite C todos os dias. Os especialistas em saúde pública estão alarmados. Têm de lidar com uma doença ainda pouco conhecida, oito vezes mais contagiosa que a Aids e incurável em 85% dos casos.
A hepatite C é daquelas doenças emergentes. Seu agente, o vírus HCV, só foi identificado em 1989. "A obsessão com a Aids levou os infectologistas a subestimar os danos decorrentes da hepatite C", diz o médico Antonio Alci Barone, coordenador do Laboratório e Ambulatório de Hepatites do Hospital das Clínicas de São Paulo. Nas próximas duas décadas, o número de infectados triplicará.
Com certeza, o sangue é a grande via de infecção do vírus da hepatite C, mas os médicos não descartam a hipótese de contágio por contato sexual. Um cenário bem parecido com o da transmissão do HIV, o micróbio causador da Aids. Até o início da década de 90, quando os hemocentros foram obrigados a realizar exames para detecção do HCV, os alvos preferidos do vírus eram os receptores de sangue. "Com a obrigatoriedade dos testes, a contaminação por transfusão caiu de uma em 420 para uma em 3.701", afirma a hepatologista Edna Strauss, da Universidade de São Paulo. Hoje, a população de risco da hepatite C são principalmente os usuários de drogas injetáveis. O perigo ronda também as agulhas não esterilizadas usadas em sessões de acupuntura, tatuagens e piercings. Bastaria evitar essas situações, portanto? Não. Um terço dos infectados não tem a menor noção de como, onde ou quando contraíram o HCV.
Foi assim com a funcionária pública mineira Djanira Martins, de 53 anos. Em 1994, ao doar sangue a sua mãe, veio o diagnóstico de hepatite C: "De onde peguei isso, meu Deus?" Ela não sabe. Djanira nunca desenvolveu nenhum sintoma da enfermidade. Duas vezes por ano, submete-se a exames de sangue que analisam o comportamento do vírus em seu organismo. "Toda vez que tenho de fazer novos testes é um martírio. Rezo para que a doença continue estável", diz ela.
Casos como o de Djanira, embora pareçam positivos à primeira vista, são o que mais assusta no novo inimigo. O HCV, diferentemente dos vírus que causam as hepatites de tipo A e B, pode devastar o fígado de uma pessoa antes mesmo que ela apresente qualquer sintoma do contágio. Ao contrário das hepatites A e B, as mais comuns das inflamações do fígado, a hepatite C não provoca febre, perda de apetite, fadiga ou coloração amarelada da pele, dos olhos e da urina. Em 30% dos casos, a infecção só aparece depois de uma média de 25 anos de contágio. Muitas vezes é tarde demais. O fígado doente leva o organismo à falência. Nos Estados Unidos, 10.000 pessoas morrem por ano vítimas da doença, a maioria com vômitos, dores, hemorragias, perda de massa muscular, confusão mental, coma. A exemplo do que acontece com vírus terríveis como o HIV e o Ebola, o HCV é mais um micróbio em luta contra a espécie humana.
Com reportagem de Daniella Camargos, de Belo Horizonte
Copyright © 1998, Abril
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