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Nas mãos do povo
Oposição
força divulgação de vídeo
de Clinton para tentar influenciar a opinião
pública, que ainda rejeita impeachment
Leia o relatório,
veja o vídeo. Desde que puseram as mãos nos calhamaços
e caixotes enviados pelo promotor especial Kenneth Starr
contendo a descrição detalhada das atividades sexuais
do presidente Bill Clinton com a ex-estagiária Monica
Lewinsky, os políticos do Partido Republicano, de
oposição, vêm tratando o material como se fosse um
filme campeão de bilheteria, desses que geram
subprodutos interminavelmente. Depois de divulgar pela
Internet o trecho principal do relatório, decidiram pôr
à disposição do público, a partir desta
segunda-feira, o vídeo com o depoimento de Clinton para
a Justiça sobre o caso com Monica. Os deputados têm um
argumento poderoso: o povo americano deve ter acesso a
toda a verdade para poder julgar se o presidente mentiu e
merece ser afastado do cargo. A questão é: o povo quer
que o espetáculo continue? Tudo indica que não. Uma
impressionante maioria de 70%, segundo pesquisas da
semana passada, discorda da divulgação do vídeo.
Pesquisas, todos
sabem, têm lá seus limites de confiabilidade. Contando
com certa hipocrisia dos entrevistados, as emissoras a
cabo já reservaram horários para transmitir o vídeo.
Segundo quem viu, Clinton perde a paciência, demonstra
constrangimento, tenta esconder-se sob firulas verbais de
advogado experiente. Ou seja, mente adoidado. Os canais
de televisão devem adicionar a própria dose de
hipocrisia, advertindo os espectadores para o conteúdo
sexual explícito e restrito a adultos. Não há tarja,
contudo, que escamoteie o jogo pesado em curso nos altos
escalões da política americana. Tornou-se evidente que
as eleições parlamentares de novembro, e não a
avaliação das acusações de Starr, balizam cada
atitude do Congresso e da Casa Branca.
Inquisição
erótica Em lugar das nobres
palavras em favor da busca da verdade e da preservação
das instituições na investigação dos alegados crimes
do presidente, o que está em curso agora é o princípio
que rege o comportamento de políticos e tubarões:
quando farejar sangue na água, ataque. Na Comissão de
Justiça da Câmara, encarregada de avaliar o relatório
de Starr e decidir se há indícios que justifiquem a
abertura de um processo de impeachment, a oposição
republicana com maioria no Congresso e, portanto,
em todos os seus subgrupos concentrou a primeira
semana de discussões em torno da divulgação do vídeo.
A idéia é manter Clinton sangrando, de forma a
prejudicar mais ainda os candidatos democratas, que já
contabilizam enormes prejuízos. A lama respingou feio
também sobre o presidente da comissão, o deputado
republicano Henry Hyde, quando a revista eletrônica Salon
revelou, na quarta-feira, um caso extraconjugal
ocorrido há cerca de trinta anos (veja quadro abaixo).
Seguiram-se as inevitáveis suspeitas de que a Casa
Branca comanda sua própria versão de uma inquisição
erótica, espalhando na surdina os podres de alcova dos
inimigos. Resultado: o FBI volta a entrar em cena, a
pedido dos republicanos, para investigar a suposta
espionagem.
Nessa onda de
baixarias cada vez mais constrangedoras, a opinião
pública vem mantendo uma impressionante tranqüilidade.
Mesmo depois da divulgação do Relatório Starr, com
toda sua carga escandalosa, Clinton manteve os índices
de aprovação política em torno de 60%, fruto direto da
boa administração da economia e do sentimento
generalizado de que o presidente mentiu, sim, mas o fez
em relação a seus prazeres carnais, um pecado menor. É
por isso que a oposição insistiu tanto na divulgação
do vídeo: para demonstrar que a mentira, mesmo em
situação tão compreensível, é inerentemente
delituosa quando proferida perante uma instância da
Justiça. "Já dá para prever como a televisão vai
mostrar as imagens, escolhendo alguns trechos e
reprisando várias vezes", fungou um funcionário da
Casa Branca. Ficará a cargo da população ceder
ou não à propaganda eleitoral gratuita que as emissoras
devem dar aos republicanos. Plugados dia e noite nos
humores mais imperceptíveis da opinião pública,
acostumados a governar e legislar ao sabor das pesquisas,
os políticos americanos agora terçam armas quase que
exclusivamente nessa arena. Por isso o futuro de Clinton,
mais do que nas decisões do Congresso, está nas mãos
do povo.
Olho
por olho, caso por caso
Enquanto
Bill Clinton convocava, na semana passada, um
grupo de pastores para rezar com ele
periodicamente e evitar que volte a cair em
tentação, um preceito bíblico foi aplicado
contra seu maior adversário no momento, o
deputado Henry Hyde, presidente da comissão que
julga o pedido de impeachment contra Clinton. O
velho olho por olho, dente por dente entrou em
ação quando a revista eletrônica Salon escavou
o passado de Hyde. Exposto, o deputado de 74 anos
e cabeleira branca teve de admitir o romance com
uma mulher casada e mãe de três filhos, há
cerca de trinta anos. Dois outros deputados
republicanos, Dan Burton (filho com uma amante) e
Helen Chenoweth (aventura com homem casado), já
haviam sido levados a confessar escorregões do
passado. Os três suspeitam que a Casa Branca
tenha xeretado suas vidas para intimidá-los em
relação ao impeachment de Clinton e pediram
investigação do FBI. Em breve, novos
capítulos.
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