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Reforma agrária Embrulho militarO Planalto
transforma os conflitos
O Palácio do Planalto dá sinais de que procura amplificar os conflitos agrários no país. O recurso, para isso, é embrulhar rural num invólucro militar. Houve militares que se envolveram com a reforma agrária, a começar pelo marechal Castello Branco, que instituiu o Estatuto da Terra, ainda hoje considerado um bom instrumento para atacar esse problema centenário. Alguns de seus sucessores tentaram assentar famílias em glebas situadas em regiões pouco habitadas, como a Amazônia e foi só. Agora, o governo tucano reinstalou o quepe na questão agrária por intermédio do general Alberto Mendes Cardoso, 57 anos, chefe da Casa Militar. Há algumas semanas, o general chamou a atenção para o possível congraçamento entre militantes do MST e plantadores de maconha no sertão de Pernambuco. Depois, alertou para o risco de aparecer "um cadáver" no Pontal do Paranapanema, no interior de São Paulo, para onde se deslocavam quinze sem-terra "com habilidade no manuseio de armas de fogo" a fim de invadir fazendas fortemente armadas. Noutro lance, o general embarcou num helicóptero até a fazenda do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Minas Gerais, embalado pela suspeita (devidamente divulgada pela mídia) de que 250 sem-terra planejavam ocupar a propriedade. O general Cardoso recebeu as informações sobre a maconha, o grupo dos quinze do Pontal e a ameaça de invasão da fazenda de FHC por meio de sua rede de 1200 homens da Subsecretaria de Inteligência, que controla um cardume de infiltrados no MST. São informes típicos da área de inteligência. Os integrantes desse serviço ouvem uma coisa aqui e outra ali e produzem relatórios. É para isso mesmo que serve um serviço de inteligência. O dado curioso a respeito do que vem sendo divulgado pelo Planalto é a pressa adotada na divulgação dessas suspeitas. Não é assim que o serviço costuma agir. Os arapongas da inteligência já chegaram a investigar um conhecido governador tucano por sua relação excessivamente íntima com um sujeito da pesada, dono de cassinos clandestinos e outras coisonas mais. Essa informação nunca veio a público.
Há dois pontos a favor do governo nesse assunto. O general Cardoso é um homem sério e bem-intencionado. Segundo alguns amigos, já se lamentou das pressões que sofre no cargo. "Tudo o que quero é voltar a cuidar da minha tropinha", tem dito. Outro ponto é que o controle de invasões de terras, ocupações de prédios públicos ou seqüestros de funcionários do Incra é uma atribuição das polícias estaduais, e não do governo federal. Mas, assustados até hoje com a carnificina de Eldorado dos Carajás, os governadores querem distância dos sem-terra. Sem meios para agir, Brasília então optou pelo verbo. No grito, tenta evitar um maconhal num acampamento do MST, uma matança no interior de São Paulo ou a invasão das terras de FHC. Se os militantes do movimento tinham mesmo esses planos que lhes foram atribuídos, o governo conseguiu o que queria: abortou-os na base da denúncia antecipada. Feita a denúncia, no entanto, seria conveniente comprová-la com informações mais sólidas do que as que têm sido fornecidas. Talvez seja equívoco entregar a questão ao setor militar. Os comprovados métodos violentos dos sem-terra não são da alçada do Exército, nem da Casa Militar. São caso de polícia. Quando militares são escalados para entrar nessa fogueira, passa-se a impressão de que o problema está muito grave. Se estiver, é melhor dizer isso claramente ao país. Seria preferível a distribuir alusões meio vagas a partir de um gabinete militar. "O governo está errando ao pôr o general nesse papel", avalia um ministro. "Temos discutido o assunto internamente. Quem tem de fazer isso é o ministro da Justiça." Esse ministro, que pede o anonimato, apesar de civil, está descobrindo a pólvora. Sandra Brasil
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