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Polícia
recolhe cadáver em chacina em São Paulo, polícia prende suspeito em Nova York: dois mundos |
| Foto: Antonio Ermel/Folha Imagem |
A escalada da violência, como acontece a
cada eleição, voltou a ser tema das campanhas aos
governos estaduais. A novidade é que, desta vez, vários
candidatos propõem uma versão morena do programa
Tolerância Zero, do prefeito Rudolph Giuliani, famoso
por ter reduzido drasticamente a violência em Nova York.
No ano passado o candidato ao governo de São Paulo Paulo
Maluf viajou aos Estados Unidos para conhecer a
experiência. Maluf conversou com William Bratton, que
chefiava a polícia quando o projeto começou, e
contratou outro ex-policial, Jack Maple, para adaptar o
Tolerância ao Brasil. Bratton e Maple deixaram a
polícia para trabalhar numa empresa de consultoria,
desde que o programa começou a fazer sucesso. Em julho,
Joaquim Roriz, candidato ao governo do Distrito Federal,
também foi a Nova York contratar Eric Taylor,
ex-policial que trabalhava no sistema penitenciário,
atualmente empregado em outra consultoria, para criar um
clone do projeto. Sem viagens aos Estados Unidos e com
menor estardalhaço, Dante de Oliveira, candidato ao
governo de Mato Grosso, e Jorge Viana, que disputa o
governo do Acre, também pegaram carona no programa.
Em Nova York, desde que o Tolerância começou, o índice de homicídios caiu 70%. A lógica do programa é atacar todos os tipos de crime, reprimindo os pequenos para desestimular os grandes. Assim, delitos como pichar muros ou urinar nas ruas passaram a ser punidos com rigor. A própria polícia sofreu uma limpeza. Dois terços dos ocupantes de cargos de chefia foram substituídos. Conselhos comunitários passaram a fiscalizar o trabalho dos policiais. Operações-armadilha, para flagrar agentes corruptos, viraram rotina. Criou-se um sistema de polícia comunitária, em que os agentes são responsáveis por um bairro e conhecem os moradores pelo nome. "Sem confiabilidade policial não há programa que dê certo", afirma a antropóloga Leonarda Musumeci, especialista em segurança pública.
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Maluf
com Maple, policial que virou consultor, na TV: Tolerância misturado com Rota |
Mas o programa não recorre apenas a homens fardados. Projetos de assistência social, financiados pela prefeitura e por organizações não governamentais, gastaram bilhões de dólares para combater a pobreza e o desemprego. Criminosos não violentos passaram a cumprir penas alternativas, como prestação de serviços, o que evita que, passando pela cadeia, saiam piores do que entraram. Programas de reciclagem e capacitação profissional foram aplicados aos condenados, para que pudessem arranjar emprego depois de cumprir pena.
A situação brasileira é muito diferente da americana para que se apliquem as mesmas soluções. Aqui não se resolveu sequer o problema da divisão das polícias em militar e civil, que não existe em nenhum lugar do mundo e, em vez de ajudar, atrapalha. O policial brasileiro é mal preparado, usa armamento ruim e recebe salário de fome. No Distrito Federal, onde a polícia é uma das mais bem pagas do país, um soldado ganha 800 reais, menos de um terço dos vencimentos de um patrulheiro de rua americano. As cadeias são universidades do crime, e apenas 2% dos condenados recebem penas alternativas.
| Roriz
com um policial de Nova York: campanha de desarmamento permanente |
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Paulo Maluf, que lidera as pesquisas para o governo de São Paulo, promete reduzir os assassinatos pela metade em apenas dois anos, num resultado mais rápido até do que o programa de Nova York. Mas seu plano tem grandes diferenças em relação ao Tolerância. Ele quer expandir para o interior a Rota, a polícia que atira antes e pergunta depois, e criar a Força Ataque, um grupo de soldados com armamento pesado para agir em áreas de alta incidência de crimes. "Vamos acabar com essa história de direitos humanos para bandido", disse recentemente. Essas promessas vão exatamente na contramão do Tolerância. A polícia de Nova York atua cada vez mais dentro da lei e, mesmo com tiroteios, causa apenas trinta mortes por ano. Em São Paulo, a média anual é de 660 mortos. Se o programa americano fosse seguido com rigor, o próprio Maluf se arriscaria a uma condenação. É que uma das medidas de Giuliani foi mandar prender quem passava trote na polícia, para evitar perda de tempo com chamadas falsas. No início do ano, Maluf passou um trote no telefone 190, para "testar a qualidade do serviço", diante de uma repórter.
É fato que algumas propostas são bastante razoáveis. Jorge Viana quer criar um programa de prevenção da violência doméstica. Roriz quer uma campanha permanente de desarmamento. Maluf quer transformar os boletins de ocorrência em formulários simplificados, que podem ser preenchidos por policiais civis ou militares, sem que a vítima precise ir à delegacia prestar queixa. Mas a maioria das idéias não passa do nível do chão. Polícia na rua, simplesmente, não resolve. O Distrito Federal, proporcionalmente, tem três vezes mais policiais do que Nova York. Nem por isso tem menos crimes. E um programa, isolado, não resolve problemas complexos como a violência. "É difícil avaliar até que ponto a responsabilidade pela queda da criminalidade em Nova York é efeito da ação policial, da bonança econômica do país ou dos programas sociais que estão em curso", afirma Tulio Kahn, coordenador de pesquisa do Ilanud, órgão da ONU que trata de violência.
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