Os monstros e o crash

"Se abdicarmos das cobranças políticas que temos
o direito de fazer agora, só nos restará acender muitas
velas. Esperando que King Kong, Godzilla e
outros monstros desembarquem noutra freguesia"

Luiz Felipe de Alencastro

Rogerio Nunes

Tempos de espanto sempre abrem espaço para assombrações. As perplexidades geradas pela crise de 1929 deram lugar a vários fantasmas. O mais trágico dentre eles levou à II Guerra. O mais inocente tomou corpo em Hollywood sob a forma de King Kong. O gorilão invadiu os cinemas em 1933, quando os efeitos do crash de 1929 se desdobravam em dramas sociais. Anos atrás, a revista parisiense Les Cahiers du Cinéma propôs uma afamada chave interpretativa para o filme. Trazido de uma ilha perdida, situada fora dos mercados, mediante expedientes escusos de aventureiros que haviam engrupido uma comunidade nativa, King Kong representa a desorganização do comércio mundial, a irracionalidade do capitalismo irrompendo em Nova York. Nos meados dos anos 70, no início da recessão de um quarto de século que pensávamos estar terminando anteontem, King Kong foi de novo filmado. Desta vez os cenaristas americanos introduziram o tema da exaustão dos recursos naturais, dos estragos no meio ambiente.

Apresentados recentemente nos cinemas do mundo inteiro, Titanic e Godzilla representarão, mais tarde, nas congeminações de algum inspirado crítico de cinema, metáforas premonitórias dos desastres que hão de vir?

A série de catástrofes que se abateram sobre o Brasil nas últimas semanas deixará lembranças amargas. O desabamento de uma igreja em Osasco e o acidente com ônibus de romeiros na Via Anhangüera ceifaram dezenas de vidas. Mergulhado na atmosfera lúgubre desses desastres, o país toma consciência de que a crise financeira mundial traz o aumento do desemprego, a exacerbação da pobreza, a dúvida sobre o nosso destino.

Num baixo-astral desses, a tendência é atribuir tudo à nossa má sina. Tanto mais que em Osasco as responsabilidades civil e religiosa se dissiparam, e na Anhangüera as provas mecânicas viraram cinza. Tanto mais que a crise financeira escapa às explicações puramente brasileiras e se inscreve nas bolsas de cidades exóticas, em investidores invisíveis, num cenário incompreensível para o comum dos mortais.

Séculos de reflexão humana, anos de prática republicana, prática curta mas cada vez mais intensa entre nós, sugerem, entretanto, que se busquem as responsabilidades abaixo dos céus. Ninguém sabia que a igreja de Osasco ia desabar em cima dos fiéis. Porém, as vistorias oficiais foram marcadas pela inépcia. O freio dos caminhões e dos ônibus pode quebrar na Anhangüera. Mas esses veículos deviam ter um controle mais estrito por parte das autoridades. E a crise financeira, e os bancos? "Quem elegeu os banqueiros?" Tal é o título de um livro editado nos Estados Unidos (Who Elected the Bankers? Surveillance and Control in the World Economy, Cornell University Press, Ithaca, 1997). Seu autor, Louis W. Pauly, não é um esquerdista francês que enxerga mensagens anticapitalistas nos filmes com grandes gorilas destruindo Nova York. Trata-se de um cientista político americano dotado de grande experiência profissional no setor bancário privado e no FMI. Longe do populismo de direita e de esquerda, que sacrifica a integração econômica internacional no altar do nacionalismo, Pauly faz algumas ponderações interessantes. Para ele, é nefasto o segredo que envolve as decisões dos ministros de Finanças e dos governantes engajados na globalização. Favorável à abertura dos mercados, ele defende maior cobrança política dos cidadãos. O livro saiu no ano passado. Mas é oportuno pensar nele agora, nessa campanha eleitoral medíocre, quando o governo aponta as causas externas, incontroláveis, da crise, e a oposição aposta nas causas internas, que pretende resolver sozinha. Se abdicarmos das cobranças políticas que temos o direito de fazer agora, só nos restará acender muitas velas. Esperando que King Kong, Godzilla e outros monstros desembarquem noutra freguesia.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador




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