Seções
• VEJA.comPanorama
• Imagem da SemanaBrasil
• STF: Indicado de Lula é condenado em processoEconomia
• Frigoríficos: Como a JBS-Friboi se tornou a maior do mundoGeral
• Educação: O novo EnemGuia
• Lixo: Reduza o impacto ambiental dos resíduos de casaArtes e Espetáculos
• Livros: O desenhista Carlos Drummond de AndradeTelevisãoO vexame é o maior talentoAssim como nos circos de aberrações do passado,
o apelo
|
Fotos divulgação![]() |
| HOMEM E BESTA "Super Maluco" se submete a um bombardeio de limalhas no Qual É o Seu Talento? (à esq.) e outro carrega seu burro nas costas no Domingão do Faustão: quem não se sente superior diante de tanta estupidez? |
Recentemente, um sujeito que se apresenta como "Super Maluco" deu um espetáculo de insanidade no programa Qual É o Seu Talento?, do SBT. Com cabelão e maquiagem à la Ozzy Osbourne, ele descascou um coco com os dentes e o quebrou contra as partes íntimas. Noutro quadro, expôs seu rosto e o peito nu às limalhas produzidas por uma serra cortando um cano de ferro. "Super Maluco" foi ovacionado e se classificou para as semifinais do programa. Qual É o Seu Talento? é um genérico da rede de Silvio Santos de um sucesso da TV inglesa criado por Simon Cowell, o jurado rabugento da gincana musical American Idol. No original Britains Got Talent (cuja versão americana, o Americas Got Talent, também é um sucesso de audiência), calouros de todo tipo exibem algum atributo supostamente extraordinário. Fórmula parecida norteia o Se Vira nos 30, quadro do Domingão do Faustão em que os candidatos têm 30 segundos para mostrar suas habilidades. Embora o pretexto dessas atrações seja a busca de novos talentos, seu verdadeiro apelo está na exploração do inusitado e do bizarro. O programa do SBT mostrou uma artista de circo que voava suspensa pelos cabelos e um sujeito que encostava o rosto em cacos de vidro para, em seguida, ser pisoteado por um auxiliar. Na atração de Faustão, no ar desde 2002, viram-se ultimamente desde uma figura que gorgolejava como um peru até um cão que dançava o moonwalk de Michael Jackson. Tais bobagens e absurdos cativam o público porque apelam aos mais baixos sentimentos humanos. "Ver essa gente se expor ao constrangimento e à humilhação pública excita o nosso sadismo e nos faz supor que somos melhores", diz a psicóloga Lidia Weber.
Hulton Archive/Getty Images![]() |
ESTRELAS UNIDAS |
Baseado num formato da rede americana Fox, o Se Vira nos 30 é um dos carros-chefes de Faustão na Globo. Com 8 pontos de
média de audiência na Grande São Paulo, o Qual É
o Seu Talento? vem permitindo ao SBT levar a melhor sobre a rival Record
nas noites de quarta-feira e Silvio Santos já decidiu esticar
sua temporada de treze para vinte edições. A origem de tais programas
remonta aos circos do século XIX e início do XX, que exploravam
os freak shows, ou espetáculos de aberrações. Circos como
o americano Barnum & Bailey especializaram-se na exibição
de defeitos congênitos. Uma de suas atrações de maior sucesso
eram os irmãos Chang e Eng Bunker, que tinham seus corpos ligados na
altura do osso esterno oriundos do Sião (hoje Tailândia),
eles deram origem à expressão "gêmeos siameses".
Populares num tempo em que as teorias eugenistas campeavam, esses espetáculos
revestiam-se de uma aura científica e foram desaparecendo à
medida que se avançou no conhecimento da condição dessas
pessoas (e, claro, de seus direitos). A diferença em relação
a hoje é que, se o velho circo de horrores exibia "monstros",
os programas atuais são estrelados por pessoas que fazem monstruosidades.
Numa das cenas mais inacreditáveis do Americas Got Talent, uma loira esmagou latas de refrigerante com seus seios imensos. Por que alguém
se dispõe a fazer uma estupidez dessas para milhões de pessoas?
Por uma espécie de narcisismo televisivo que o impede de perceber o próprio
ridículo. "Comer um sapo é uma coisa horrível. Mas
fazer isso na TV vira uma habilidade especial, um exemplo de destemor",
disse a VEJA o cientista social americano Robert Bogdan.
Um dado da biologia também ajuda a explicar a audiência desses freak shows modernos. Assim como outros primatas, o homem adquiriu durante o processo de evolução uma reação característica diante do inesperado. Acontecimentos que fogem à ordem familiar das coisas confundem o cérebro, provocando o que os estudiosos chamam de "incongruência cognitiva". E a resposta a isso é o riso. "Esses programas dão aos espectadores a chance de viver um susto prazeroso a uma distância segura, sem que se sintam ameaçados pelo bizarro e pelo ridículo", diz Lidia Weber. Revelação mundial do Britains Got Talent, a inglesa Susan Boyle causou uma espécie de incongruência cognitiva de sinal trocado: quando todos esperavam que uma mulher gorda e feia desse um vexame, ela soltou sua voz de rouxinol. Uma incongruência clássica, já explorada pelo circo, é a inversão de papéis entre animais e seus donos quando a besta se humaniza e o homem se bestializa. No último Domingão do Faustão, um burro se rebelou quando o domador tentou carregá-lo nas costas. "Esse é um burro de personalidade, faz o que ele quer, não o que mandam", brincou Faustão. Como não poderia deixar de ser, o nome do burro é Sabido.