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Home  »  Revistas  »  Edição 2131 / 23 de setembro de 2009


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Televisão

O vexame é o maior talento

Assim como nos circos de aberrações do passado, o apelo
ao bizarro dá audiência aos novos programas de calouros


Marcelo Marthe

Fotos divulgação
HOMEM E BESTA
"Super Maluco" se submete a um bombardeio de limalhas no Qual É o Seu Talento? (à esq.) e outro carrega seu burro nas costas no Domingão do Faustão: quem não se sente superior diante de tanta estupidez?

Recentemente, um sujeito que se apresenta como "Super Maluco" deu um espetáculo de insanidade no programa Qual É o Seu Talento?, do SBT. Com cabelão e maquiagem à la Ozzy Osbourne, ele descascou um coco com os dentes e o quebrou contra as partes íntimas. Noutro quadro, expôs seu rosto e o peito nu às limalhas produzidas por uma serra cortando um cano de ferro. "Super Maluco" foi ovacionado e se classificou para as semifinais do programa. Qual É o Seu Talento? é um genérico da rede de Silvio Santos de um sucesso da TV inglesa criado por Simon Cowell, o jurado rabugento da gincana musical American Idol. No original Britain’s Got Talent (cuja versão americana, o America’s Got Talent, também é um sucesso de audiência), calouros de todo tipo exibem algum atributo supostamente extraordinário. Fórmula parecida norteia o Se Vira nos 30, quadro do Domingão do Faustão em que os candidatos têm 30 segundos para mostrar suas habilidades. Embora o pretexto dessas atrações seja a busca de novos talentos, seu verdadeiro apelo está na exploração do inusitado e do bizarro. O programa do SBT mostrou uma artista de circo que voava suspensa pelos cabelos e um sujeito que encostava o rosto em cacos de vidro – para, em seguida, ser pisoteado por um auxiliar. Na atração de Faustão, no ar desde 2002, viram-se ultimamente desde uma figura que gorgolejava como um peru até um cão que dançava o moonwalk de Michael Jackson. Tais bobagens e absurdos cativam o público porque apelam aos mais baixos sentimentos humanos. "Ver essa gente se expor ao constrangimento e à humilhação pública excita o nosso sadismo e nos faz supor que somos melhores", diz a psicóloga Lidia Weber.

Hulton Archive/Getty Images

ESTRELAS UNIDAS
Os irmãos Chang e Eng Bunker, atração de um circo americano no século XIX: a expressão "gêmeos siameses" deve-se a eles


Baseado num formato da rede americana Fox, o Se Vira nos 30 é um dos carros-chefes de Faustão na Globo. Com 8 pontos de média de audiência na Grande São Paulo, o Qual É o Seu Talento? vem permitindo ao SBT levar a melhor sobre a rival Record nas noites de quarta-feira – e Silvio Santos já decidiu esticar sua temporada de treze para vinte edições. A origem de tais programas remonta aos circos do século XIX e início do XX, que exploravam os freak shows, ou espetáculos de aberrações. Circos como o americano Barnum & Bailey especializaram-se na exibição de defeitos congênitos. Uma de suas atrações de maior sucesso eram os irmãos Chang e Eng Bunker, que tinham seus corpos ligados na altura do osso esterno – oriundos do Sião (hoje Tailândia), eles deram origem à expressão "gêmeos siameses". Populares num tempo em que as teorias eugenistas campeavam, esses espetáculos revestiam-se de uma aura científica – e foram desaparecendo à medida que se avançou no conhecimento da condição dessas pessoas (e, claro, de seus direitos). A diferença em relação a hoje é que, se o velho circo de horrores exibia "monstros", os programas atuais são estrelados por pessoas que fazem monstruosidades. Numa das cenas mais inacreditáveis do America’s Got Talent, uma loira esmagou latas de refrigerante com seus seios imensos. Por que alguém se dispõe a fazer uma estupidez dessas para milhões de pessoas? Por uma espécie de narcisismo televisivo que o impede de perceber o próprio ridículo. "Comer um sapo é uma coisa horrível. Mas fazer isso na TV vira uma habilidade especial, um exemplo de destemor", disse a VEJA o cientista social americano Robert Bogdan.

Um dado da biologia também ajuda a explicar a audiência desses freak shows modernos. Assim como outros primatas, o homem adquiriu durante o processo de evolução uma reação característica diante do inesperado. Acontecimentos que fogem à ordem familiar das coisas confundem o cérebro, provocando o que os estudiosos chamam de "incongruência cognitiva". E a resposta a isso é o riso. "Esses programas dão aos espectadores a chance de viver um susto prazeroso a uma distância segura, sem que se sintam ameaçados pelo bizarro e pelo ridículo", diz Lidia Weber. Revelação mundial do Britain’s Got Talent, a inglesa Susan Boyle causou uma espécie de incongruência cognitiva de sinal trocado: quando todos esperavam que uma mulher gorda e feia desse um vexame, ela soltou sua voz de rouxinol. Uma incongruência clássica, já explorada pelo circo, é a inversão de papéis entre animais e seus donos – quando a besta se humaniza e o homem se bestializa. No último Domingão do Faustão, um burro se rebelou quando o domador tentou carregá-lo nas costas. "Esse é um burro de personalidade, faz o que ele quer, não o que mandam", brincou Faustão. Como não poderia deixar de ser, o nome do burro é Sabido.

 

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