Roberto Pompeu de Toledo
Impávida clava forte
"A cantora Vanusa virou motivo de risos. Atire a
primeira pedra
quem nunca confundiu a parte do
Ouviram do Ipiranga com a do Deitado
eternamente"
Quem não conhecia a cantora Vanusa, ou não se lembrava
dela, agora já a conhece e tem motivos para dela não mais se esquecer.
Ela fez seu triunfal ingresso, ou retorno, à fama com uma interpretação
do Hino Nacional que circula amplamente na internet. Para os poucos que
ainda não viram o vídeo, feito durante uma cerimônia na
Assembleia Legislativa paulista, a cantora, cuja voz arrastada, de tonalidades
sonambúlicas, já fazia suspeitar de algo errado desde o início,
a certa altura se atrapalha de vez e faz a melodia descasar-se sem remédio
da letra, e a letra por sua vez livrar-se da sequência em que foi composta,
a terra mais garrida estranhando-se com o sol do Novo Mundo, o gigante pela
própria natureza irrompendo em lugar que nunca antes frequentara. O braço
forte ganhou reforços, e virou braços fortes. O berço
esplêndido transmudou-se em verso esplêndido. E, na mais
estonteante estocada na estabilidade das estrofes, entoou: "És
belo és forte és risonho límpido se em teu formoso risonho
e límpido a imagem do Cruzeiro" assim mesmo, não só
deslocando ou pulando palavras, como terminando abruptamente na palavra "Cruzeiro",
desprovida do socorro do "resplandece".
A performance de Vanusa passa de computador a computador para
fazer rir. Este artigo tem por objetivo defendê-la. Que atire a primeira
pedra quem nunca confundiu os versos de ida ("Ouviram do Ipiranga"
etc.) com os da volta ("Deitado eternamente em berço esplêndido").
Que só continue a ridicularizar a cantora quem nunca removeu os raios
fúlgidos para o lugar do raio vívido, ou vice-versa. Vanusa disse
que estava sob efeito de remédios, daí seus atropelos. Não
há dúvida, pelo andar hesitante de seu desempenho, e pelo tom
resmungado da voz, de que estava fora de controle. É pena. Fosse deliberada,
e interpretada com arte, sua versão do hino teria dois altos destinos.
Primeiro, iria se revestir do caráter de uma variação,
interessante por ser uma espécie de comentário à composição
tal qual a conhecemos. Não seria uma variante tão bela como a Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de
Gottschalk, mas teria seus encantos. Segundo, assumiria a feição
de uma leitura crítica do hino. Serviria para mostrar, com a insistente
troca de palavras e de versos, como a letra é difícil, e extrairia
um efeito cômico deliberadamente cômico das confusões
que pode causar na mente de quem a entoa.
O inglês Lewis Carroll (1832-1898), autor de Alice no
País das Maravilhas, criador do Chapeleiro Maluco e da festa de desaniversário, levou seu gosto pelo absurdo para a criação de um poema feito
de palavras inventadas que se alternam com outras existentes, e cuja bonita
sonoridade contrasta com o enigma de um significado impossível de ser
alcançado. O poema chama-se Jabberwocky, e jabberwocky, em inglês,
passou a significar um texto brincalhão, composto em linguagem inventada,
mas parecendo real, sonora e sem sentido. Uma tradução do Jabberwocky para o português, do poeta Augusto de Campos, começa assim: "Era
briluz. As lesmolisas touvas / Roldavam e relviam nos gramilvos. / Estavam mimsicais
as pintalouvas / E os momirratos davam grilvos".
Não. Não é que o Hino Nacional seja
exatamente um jabberwocky. Não há nele palavras inventadas. Mas
a combinação dos raios fúlgidos com o penhor dessa igualdade,
do impávido colosso com o florão da América e do lábaro
estrelado com a clava forte tem tudo para produzir um efeito jabberwocky para
a multidão de brasileiros com ouvidos destreinados para os preciosismos
parnasianos. A presença de palavras familiares no meio de outras estranhas,
como no jabberwocky, confere a certeza de que caminhamos num terreno conhecido
no nosso caso, a língua portuguesa; no do jabberwocky original,
a língua inglesa. Ao mesmo tempo, o inalcançável significado
das palavras nos transfere para um universo em que a realidade se perde numa
nebulosa onírica. Já houve, e ainda deve haver, movimentos para
mudar a letra do Hino Nacional. Não, por favor, não
seria uma pena. Seu caráter jabberwocky lhe cai bem. Se à sonoridade
das palavras se contrapõe um misterioso significado, tanto melhor: o
hino fica instigante como encantamento de fada, e impõe respeito como
reza em latim. Vanusa devia aproveitar a experiência e a reconquistada
fama para aprimorar uma versão cara limpa, sem voz arrastada nem tons
sonambúlicos, de sua interpretação. Ela explicita como
nenhuma outra o charme jabberwocky da letra de Osório Duque Estrada.
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