Seções
• VEJA.comPanorama
• Imagem da SemanaBrasil
• STF: Indicado de Lula é condenado em processoEconomia
• Frigoríficos: Como a JBS-Friboi se tornou a maior do mundoGeral
• Educação: O novo EnemGuia
• Lixo: Reduza o impacto ambiental dos resíduos de casaArtes e Espetáculos
• Livros: O desenhista Carlos Drummond de AndradeEspecialA força do lobbyComo uma família de exilados cubanos ajuda a fazer
|
VEJA TAMBÉM |
| • Nesta edição: AÇÚCAR é a droga da vez? |
Na conversa em que Bill Clinton estava dispensando a estagiária Monica Lewinsky, o telefone tocou. Era Alfy Fanjul, membro de uma família de exilados cubanos que se notabilizou pela riqueza e pelo poder. Fanjul queria reclamar de um tal "imposto da poluição" que o vice Al Gore queria cobrar dos canaviais que destruíam um santuário ecológico na Flórida, os Everglades. Os Fanjul, barões do açúcar americano, estavam na mira do imposto. O telefonema durou 22 minutos. Consta que, com a autoridade de quem arrecadou rios de dinheiro para os democratas, Fanjul reclamou do imposto aos berros. Clinton desistiu de criá-lo. Em 2001, uma reportagem da revista Vanity Fair descreveu a força do clã assim: "A melhor definição de Alfy Fanjul é que ele pode fazer o presidente dos EUA ir ao telefone no meio de uma sessão de sexo oral. Isso diz tudo o que se precisa saber sobre a influência dos Fanjul".
O lobby do açúcar é antigo e eficiente. Há setenta anos, arranca generosos subsídios e mantém o mercado americano ferreamente protecionista, razão pela qual o Brasil, o maior exportador do mundo, não vende quase nada aos EUA. Competentes, os Fanjul atuam na bitola bipartidária: Alfy é democrata; seu irmão Pepe, republicano. Na mansão da República Dominicana, eles recebem celebridades foi lá que Michael Jackson se casou com Lisa Presley, em 1994 , mas os Fanjul são discretos. Há dois anos, quase perderam a discrição: Jodie Foster e Robert De Niro iriam filmar Sugarland, contando a saga da família, com todos os detalhes brutais. Contra a greve de cortadores de cana jamaicanos, os Fanjul não usavam polícia. Usavam cachorros. Para a sorte do clã, o filme está engavetado.
Justiça seja feita: o lobby do açúcar não é obra só dos Fanjul. Em 2003, quando a Organização Mundial de Saúde elaborava seu guia alimentar, a Sugar Association uniu-se à indústria de refrigerantes numa ação agressiva. A OMS queria recomendar que se ingerissem até 10% das calorias diárias na forma de açúcar industrial o do açucareiro. Na prática, dá pouco mais que uma lata de refrigerante. A Sugar Association insistia que até 25% não havia risco à saúde. Exigiu a retirada da recomendação, ameaçou convencer o Congresso americano a cortar o patrocínio de 400 milhões de dólares à OMS e recorreu ao então ministro da Saúde, Tommy Thompson. "Fizeram tudo isso contra a OMS, que trata de aids, desnutrição, doença infecciosa, bioterrorismo", diz o epidemiologista Kelly Brownell, de Yale, num artigo em que rememora o episódio. Acuada, a OMS denunciou o caso, e conseguiu emplacar os 10%.
Em 2000, a indústria do açúcar e do refrigerante também batalhou contra a inclusão dos mesmos 10% no Eurodiet, guia alimentar da União Europeia. Saiu-se melhor. O documento final diz que o europeu não deve consumir açúcar mais do que quatro vezes por dia o que resulta nuns 10%, mas, como é uma orientação imprecisa, deixa margem ao abuso involuntário. Em qualquer lugar, a política está por trás do que se come, não raro sacrificando a saúde. No governo de Gerald Ford (1974-1977), os EUA queriam promover o óleo de palma para ajudar a Malásia, grande produtor e aliado americano no Sudeste Asiático. Chamavam o óleo de palma de "combustível da democracia". Em sintonia com a política externa americana, o McDonalds abriu uma processadora no país e passou a fritar batatas em óleo malaio. O tal óleo era gordura saturada pura, pior que banha de porco. Mas...