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Home  »  Revistas  »  Edição 2131 / 23 de setembro de 2009


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Perfil

O artista que recria o passado

Viktor Deak, o mais respeitado paleoartista da atualidade, é um
especialista em dar um rosto aos fósseis de hominídeos extintos


Thereza Venturoli

Gilberto Tadday
A máquina do tempo
Deak em seu estúdio em Nova York: dissecação de corpos para estudar os nervos e os músculos

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Viktor Deak reúne talentos próprios de um artista renascentista. Ele conhece com maestria a anatomia humana, as técnicas de modelagem e do desenho. Sua vantagem sobre os mestres do passado é o domínio da computação gráfica. A combinação de habilidade, conhecimento e equipamento fez com que Deak se tornasse, aos 32 anos, o mais respeitado paleoartista em atividade. O paleoartista é um especialista em recriar representações de espécies extintas, sobretudo aquelas aparentadas ao homem moderno na árvore da evolução. Deak é o autor de boa parte dos hominídeos expostos na sala Origens Humanas, do Museu Americano de História Natural, em Nova York. Assina também um mural de 24 metros exibido na mostra Legado de Lucy. O esqueleto incompleto dessa fêmea Australopithecus afarensis que viveu há 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974, na Etiópia, constitui o achado fóssil mais famoso da paleontologia. Os ossos revelam que essa diminuta fêmea já andava ereta, sobre duas pernas, apesar de, nos demais aspectos fisiológicos, ser mais parecida com o macaco do que com o homem. Imenso, o painel, que circula atualmente por cidades americanas, faz uma síntese imagética de 6 milhões de anos da evolução do homem.

As reconstruções de espécies extintas estão para a antropologia como os grandes telescópios estão para a cosmologia: abrem janelas para o passado longínquo. A paleoarte floresceu em meados do século XIX. Nessa época, entre as ossadas de dinossauros, peixes cascudos e mamíferos extintos, uma em particular intrigou os naturalistas: parte do esqueleto de um homem primitivo, encontrada no Vale de Neander, na Alemanha, em 1856. O estudo desse fóssil, catalogado como Homo neanderthalensis, ou homem de Neandertal, que viveu na Ásia e na Europa entre 250 000 e 28 000 anos atrás, marcou o nascimento de um ramo da ciência: a paleoantropologia – e, por tabela, o florescimento da arte de reconstruir hominídeos. Deak, húngaro radicado em Nova York, ocupa o topo da cadeia evolutiva dos paleoartistas. "Suas reconstruções unem criatividade e conhecimento científico na dose certa", disse a VEJA Ian Tattersall, curador da divisão de antropologia do Museu Americano de História Natural.

Fotos Viktor Deak e AP
O fóssil mais famoso
O esqueleto incompleto de Lucy, que viveu há 3,2 milhões de anos. Ao lado, sua aparência na visão de Deak


Recriações desse tipo são hipóteses. Dez especialistas diferentes produzirão dez imagens diferentes. Deak destaca-se pelo arsenal técnico. Sempre começa pela montagem de uma escultura, utilizando-se da chamada dissecação reversa – a aplicação de músculos e tecidos sobre um arcabouço de ossos. Depois, forja um molde a partir de um crânio original, fossilizado, e produz uma cópia em poliuretano. Ossos ausentes são substituídos por peças de resina. Com argila plástica, ele molda os feixes de músculos. A espessura ideal da massa é obtida com uma tecnologia insólita: uma máquina de fazer macarrão. Uma nova camada de material sintético compõe a pele, com rugas e cicatrizes. Uma pincelada aqui, um retoque cosmético ali, o modelo está pronto para a fotografia digital e o tratamento final da imagem.

Nesse ponto, entram os programas de computação gráfica. O paleoartista usa softwares de modelagem, com os quais é possível construir figuras virtuais com a mesma plasticidade da argila. São programas ideais para lidar com imagens de animais e vegetais, cuja geometria é irregular, como o ZBrush, o Mudbox e o Adobe Photoshop. Tais ferramentas permitem definir o volume de uma minúscula espinha no rosto de um homem de Neandertal. Agora, Deak quer animar seus personagens. "Já não me basta vê-los estáticos e congelados", disse a VEJA. O paleoartista começou a experimentar programas de animação, como Maya e 3ds Max, os mesmos usados nos filmes Piratas do Caribe e Homem-Aranha. Baseado numa série de quadros-chave (key frames), esse tipo de software reproduz quaisquer movimentos. Para mostrar um hominídeo se agachando, por exemplo, é preciso definir a posição inicial, ereta. Depois, a final, de cócoras, e algumas posturas intermediárias. O programa encarrega-se de complementar os quadros, dando naturalidade ao movimento. O produto final, longe de parecer um desenho animado, é uma sequência tão realista quanto um filme.

A graduação em ilustração pela Escola de Artes Visuais, em Nova York, refinou o talento de Deak para o desenho. Já a reconstrução exige muito mais que um traço apurado: bom conhecimento de anatomia, incluindo o tamanho, a espessura, a profundidade e a localização de cada músculo e feixe de nervos. Para dominar a técnica de dissecação reversa, Deak fez o trajeto oposto: tomou aulas de dissecação direta em corpos reais. O talento do artista foi descoberto há seis anos, quando funcionários do Museu Americano de História Natural o encontraram fazendo esboços de um homem de Neandertal. Adotado como estagiário por Gary Sawyer, chefe do departamento de antropologia física da instituição, foi encaminhado para aulas de dissecação entre estudantes de medicina. O aprendiz começou a decodificar a "linguagem corporal" dos fósseis, identificando o que ossos e músculos podem informar sobre os movimentos dos homens primitivos. "Ele consegue tirar informações de um crânio fossilizado", disse Sawyer a VEJA. Para ele, é o conhecimento da estrutura muscular que permite a Deak produzir reconstruções mais detalhadas e realistas do que as de outros paleoartistas, que usam o método tradicional de preencher o molde com tecidos, conforme o contorno do rosto.

Todo modelo criado por Deak passa por uma rigorosa avaliação científica. "No máximo, dou a eles um leve movimento de lábios, nunca um sorriso. Qualquer expressão mais dramática pode deformar o rosto e mascarar informações importantes", explica. Apesar de sisudos, os hominídeos parecem vivos. Deak atribui parte desse realismo à sua capacidade de observação, particularmente da expressão do olhar. "Tenho verdadeira obsessão por olhos", confessa. Tudo na vida do artista parece exalar a evolução da espécie. A começar por seu local de nascimento, em Budapeste, uma região fértil em fósseis de neandertais, Homo erectus e Homo heidelbergensis. A esposa, Xochitl, nome de origem asteca (significa flores), é descrita por ele como "a mais bela mulher que nossa espécie jamais produziu".

Deak também pratica ioga, ciclismo, corrida e levantamento de peso. A atividade não é uma forma de quebrar a rotina sedentária de horas diante do computador. Ele acredita que fazer exercícios físicos pode ser ilustrativo sob o ponto de vista anatômico. "Eles me ajudam a compreender a mecânica do corpo humano, algo que preciso levar em conta quando faço uma reconstrução", conta. Qual o sonho de Deak? Construir figuras tão realistas que convençam o observador, ainda que por segundos, de que o ser representado está vivo. "O grande truque é fazer de minhas imagens uma espécie de máquina do tempo, que traga nossos ancestrais até nossos dias", diz. Talvez esse objetivo não esteja tão distante.

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