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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Nova
ordem no céu
Que é um planeta?
Eis uma discussão que abre incertezas situadas fora dos limites
da ciência Um ser distante e gelado,
pequeno para sua espécie, enigmático, batizado com o nome do deus
romano que impera sobre os infernos, vive dias decisivos o planeta Plutão.
Planeta? Essa é a questão. Merece ele continuar ostentando esse
nome, espécie de título de nobreza até agora reservado a
poucos, entre os numerosos corpos que habitam o sistema solar? Ou deve ser rebaixado,
expulso da categoria como vil intruso, cassado como um deputado mensaleiro? A
questão desperta paixões. Sempre que se cogita destituir Plutão
da condição de planeta, e isso tem sido feito com relativa freqüência
nos últimos anos, uma horda de fãs levanta-se em sua defesa. A reação
do outro lado pode ser implacável como a do New York Times, que
num editorial na semana passada arrasou com o (ainda) nono integrante da família
planetária. "Plutão nunca mereceu ser chamado de planeta", acusou
o jornal. "Ele é muito menor do que se pensou de início, menor na
verdade do que a nossa lua. Sua órbita é mais elíptica do
que a dos outros planetas e se inclina num plano diferente, e seu corpo rochoso
e gelado mais parece com o núcleo de um cometa."
O assunto deve ser resolvido nesta semana. Um comitê de cientistas da União
Astronômica Internacional está reunido em Praga para tomar uma decisão.
A tendência é Plutão ser ratificado como planeta. Com isso,
outros três corpos devem imediatamente ser promovidos à mesma condição,
outros onze estarão em posição de bater à porta do
grupo e muitos outros poderão juntar-se a ele no futuro. Ou seja, a divisão
de elite do sistema solar sofrerá uma banalização. E não
se pense que isso terá reflexos só nos livros didáticos.
Planetas remetem a mitos (não é por acaso que são batizados
com nomes mitológicos). Habitam um lugar na mente que tem a ver com a imaginação,
com o mistério, com a perplexidade diante dos espaços infinitos.
Contar quantos são não é como contar laranjas num cesto.
Não é apenas de ciência que se trata.
Com a discussão sobre quem é planeta e quem não é,
abre-se diante de nós uma nova frente de incertezas. É ou não
é para se sentir inseguro? O canto do universo tão bem-acabadinho,
tão resolvido que conhecemos desde a escola está em xeque. Há
desigualdades flagrantes no sistema solar, e essa é a origem dos problemas.
Dele fazem parte tanto gigantes como Júpiter, de volume 1.500 vezes maior
do que o terrestre, e Saturno, abraçado em seu anel, belo e majestoso como
um pavão do universo, quanto a Terra, de tamanho modesto, mas que comprovadamente
permite a vida, tanto assim que cá estamos (ou não estamos?
eis a insegurança a nublar-nos o entendimento). Para completar, vagam pelo
mesmo espaço esses párias do sistema que são os asteróides,
e a palavra pária vem a propósito porque o que se vislumbra no céu
não deixa de ser também uma divisão de classes, o que torna
mais delicada a escolha do partido a tomar. Somos a favor de um clube fechado
de planetas, onde nem Plutão caiba? É uma posição
sem dúvida elitista. Concordamos, ao contrário, em abrir as porteiras
a outros corpos? Congratulemo-nos com nossa índole democrática,
mas sem esquecer do risco de favorecer a instabilidade do sistema, e talvez mesmo
lhe trazer um pouco de desordem, com a admissão de todo um baixo clero
do espaço. A questão que a reunião
de Praga tem diante de si é uma definição de planeta. A palavra
é uma noção vaga. Na tentativa de conferir-lhe algum rigor
científico, a proposta é que sejam considerados planetas os corpos
redondos que giram em torno de uma estrela, não importando o tamanho nem
a consistência. Se é assim, o pequeno Ceres, conhecido desde 1801,
situado entre Marte e Júpiter, e até agora tido como asteróide,
será promovido a planeta; Plutão continua planeta; e Caronte, antes
considerado seu satélite, também vira planeta. Também se
eleva a essa condição um corpo situado além de Plutão,
descoberto no ano passado, a que seu descobridor, o americano Mike Brown, deu
o nome provisório de Xena. Foi essa descoberta que conferiu urgência
à discussão em curso. Xena é maior que Plutão; ou
é também considerado um planeta ou Plutão deixa de sê-lo.
Nos mesmos confins do sistema solar existem, embora menores, outros corpos já
descobertos que preenchem os requisitos da definição proposta e,
segundo se crê, muitos outros a descobrir.
Machado de Assis termina Quincas Borba afirmando que o Cruzeiro do Sul
"está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas
dos homens". A recíproca não é verdadeira. As gentes aqui
da Terra se sentem assaz perto para tentar impor e reimpor uma ordem ao universo.
Rebaixado ou confirmado como planeta, Plutão não mudará seu
penoso curso, que leva 250 dos nossos anos para completar uma volta em torno do
Sol. Xena continuará sua vida sombria de bola de gelo. Mas a definição
do que eles são ou deixam de ser tem o potencial de provocar uma certa
bagunça nas fantasias, nas crenças, nos símbolos, nos sonhos,
nos medos, nos risos e nas lágrimas dos homens. |