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Brasil O
corruptor O empresário que detonou
o escândalo dos sanguessugas fala a VEJA e envolve outros políticos
no esquema  Marcelo
Carneiro
Roberto
Setton
 | | Luiz
Antônio Vedoin, dono da Planam: "A emenda era um produto. Tudo era negócio" |
Em
julho passado, após uma sucessão de depoimentos à Justiça
Federal de Mato Grosso, o empresário Luiz Antônio Vedoin, 31 anos,
implodiu o Congresso. Assumiu ter pago propina a uma centena de parlamentares
e ainda revelou um esquema de tráfico de influência no Ministério
da Saúde, levado à frente por José Airton Cirilo, dirigente
do PT no Ceará. Na noite de quarta-feira, Vedoin recebeu VEJA em uma suíte
de um hotel, em São Paulo. Ali fez novas revelações. Apontou
a participação de outro senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT)
no esquema dos sanguessugas e disse que o lobby do petista Cirilo não
se limitou à pasta da Saúde: chegou também ao Ministério
das Cidades e ao das Comunicações, além do BNDES e da Petrobras.
Sobre a sua relação com os deputados, resumiu: "Era um negócio:
toma-lá-dá-cá".
COMO
A PLANAM CONSEGUIU MONTAR UM ESQUEMA TÃO AMPLO DE CORRUPÇÃO
DENTRO DO CONGRESSO? Essa não era a nossa intenção.
No início, fazíamos projetos de assessoria e planejamento para municípios.
Começamos a montar e vender ambulâncias para as prefeituras apenas
em 1999. Foi nessa ocasião que meu pai conheceu o deputado Lino Rossi (PP-MT).
Eles trocaram de malas sem querer no avião e, quando o deputado passou
na Planam para destrocá-las, começamos a conversar sobre o nosso
trabalho com as prefeituras. O deputado disse que também tinha interesse,
para ampliar sua base eleitoral. FOI
O DEPUTADO ROSSI QUEM O APRESENTOU AOS OUTROS PARLAMENTARES? Ele nos apresentou
muita gente. Os deputados iam ao seu gabinete. Às vezes, também
à casa dele, em festas e churrascos. Eram sempre grupos de dois ou três.
Isso começou em maio de 2000. No início de 2001, já tínhamos
oito parlamentares trabalhando para a gente, a maioria em primeiro mandato.
COMO PARLAMENTARES DE PRIMEIRO
MANDATO TINHAM TANTA DESENVOLTURA PARA FAZER NEGÓCIOS COM SUAS EMENDAS
INDIVIDUAIS AO ORÇAMENTO? Um candidato a deputado federal gasta
entre 2 e 3 milhões para se eleger. Como vai pagar essa dívida com
um salário de 15.000 reais? Ele já chega tentando fazer algum tipo
de negócio. Se não for dessa forma, será de outra. Muitos
tinham total familiaridade com o esquema das emendas. Alguns já diziam:
"Eu quero um porcentual da emenda que for indicada, te levo aos prefeitos para
você armar as licitações e fazer a venda". Era negócio,
um toma-lá-dá-cá. Não tinha amizade, não tinha
conversa. Em geral, eles recebiam 10% do valor da emenda apresentada.
MAS HOUVE CASOS EM QUE O SENHOR COMPROU ELETRODOMÉSTICOS
E DEU ATÉ CARROS DE PRESENTE. É verdade. O deputado Wanderval
Santos (PL-SP) pediu para pagarmos uma parcela da prestação da BMW
dele e nós pagamos cerca de 50.000 reais. No caso do Lino Rossi,
ele tinha se separado e estava montando uma nova casa. Passou numa loja, gastou
7.000 reais em fogão, geladeira, microondas, cafeteira, e pediu para a
gente pagar. Tínhamos um acordo maior com o Lino Rossi. No caso de Mato
Grosso, além das emendas individuais, havia as emendas de bancada. Foi
aí que entraram outros parlamentares, como o senador Antero (Paes
de Barros, PSDB-MT). Meu pai conversou pessoalmente com o senador, que era
o líder da bancada do estado. O acordo era para a totalidade das emendas
da bancada, que somavam 3,8 milhões de reais. Antero apresentou 400.000
reais e tínhamos de dar 40.000 reais de comissão. Ele pediu para
passarmos o dinheiro diretamente para o Lino Rossi, que, naquele tempo, era do
mesmo partido que ele (PSDB). Todos ali tinham consciência do que
estava sendo feito. O SENHOR
TENTOU O MESMO ESQUEMA COM A BANCADA DE OUTROS ESTADOS? Não deu
tempo. Me pegaram antes.
Rose
Brasil
 | | "Na
gestão de Eunício Oliveira, o Cirilo conseguiu liberar o empenho
para comprar uns ônibus. Dizia que tinha canal direto com o ministro" |
O
SENHOR TAMBÉM PAGOU PROPINA EM NEGÓCIOS INTERMEDIADOS NO MINISTÉRIO
DA SAÚDE POR UM DIRIGENTE PETISTA DO CEARÁ, JOSÉ AIRTON CIRILO.
COMO FOI A NEGOCIAÇÃO? Ele dizia que a liberação
de nosso dinheiro no ministério só sairia com o pagamento de um
porcentual. E conseguiu liberar não só esse dinheiro, mas vários
empenhos de emendas ao Orçamento. O Cirilo não tinha nem mandato,
mas atuava em vários órgãos. No Ministério das Cidades,
ele pediu para nós fazermos os ofícios de liberação
das emendas, com a assinatura do parlamentar, e foi até o então
ministro Olívio Dutra para tentar o despacho. Não conseguiu a liberação.
Mas, no Ministério das Comunicações, na gestão de
Eunício Oliveira, ele conseguiu liberar o empenho para a compra de alguns
ônibus. Ele dizia que tinha canal direto com o ministro. Só sei que
o empenho saiu e nós pagamos um porcentual ao Cirilo. Ele também
dizia ter acesso ao BNDES e à Petrobras, mas não citou nomes e nós
não fizemos negócio nesses órgãos.
A PRESENÇA DO EX-DEPUTADO EMERSON KAPAZ NA LISTA
DOS SANGUESSUGAS CAUSOU ESPANTO. O SENHOR NEGOCIOU COM ELE O PAGAMENTO DA PROPINA?
Tratei diretamente. Assim que fui apresentado, ele logo falou em comissão.
Lembro que até paguei parte de um flat que ele havia comprado, em Brasília.
Nesse caso, inclusive, houve pagamento a mais, porque as emendas dele não
saíram, por causa de cancelamento. COMO
ERA FEITO O PAGAMENTO EM ESPÉCIE AOS PARLAMENTARES, EM PLENO CONGRESSO?
Nós levávamos o dinheiro no paletó e entregávamos
no gabinete, diretamente ao deputado ou a um assessor que ele indicasse. Eu entrava
tranqüilamente, em geral com 60.000 reais nos bolsos do paletó. Também
entregávamos no nosso flat, em Brasília, ou em carros, no estacionamento
do Congresso. No caso do deputado Júnior Betão (PL-AC), paguei 178.000
reais no estacionamento do flat. Era uma sacola de dinheiro, e ele mandou o sogro
receber. No Congresso, nunca tive problema para entrar com dinheiro. Uma vez me
pegaram em São Paulo, no raio X do Aeroporto de Congonhas, quando eu ia
ao Paraná pagar uma comissão para o deputado Iris Simões
(PTB-PR). Eu estava com 45.000 reais, disse que era pagamento de funcionários
e fui liberado. ESSE ESQUEMA
COMEÇOU COM UM DEPUTADO, RAPIDAMENTE PASSOU PARA OITO E, NO FIM, UMA CENTENA
DE PARLAMENTARES RECEBIA PROPINA. NUNCA PASSOU PELA SUA CABEÇA QUE UM DIA
SERIA DESCOBERTO? A gente tinha medo de que tudo pudesse ruir, mas não
acreditava nisso. Imaginávamos que o que a nossa empresa fazia era pequeno
diante de tanta coisa que acontece em Brasília. Eu não pensei que
ia ser tão problemático.
DOS DEZOITO PARLAMENTARES INOCENTADOS PELA CPI, OITO FORAM ACUSADOS PELO SENHOR
DE TER FEITO ACORDO PARA RECEBER PROPINA. CONTRA QUATRO DESSES OITO, O SENHOR
CHEGOU A APRESENTAR PROVAS. POR QUE A CPI OS INOCENTOU? Não posso
opinar sobre a decisão da CPI. POR
QUE O SENHOR DECIDIU FALAR À JUSTIÇA? Só pensava
em tirar o meu pai (o empresário Darci Vedoin, sócio da Planam)
da prisão. Quando passei nove dias depondo, lembrei de coisas que eu
até tinha esquecido e me arrependi de muitas outras que fiz. Nada
disso teria acontecido se eu não tivesse me deixado levar pelos deputados.
É claro que eu também aceitava o que eles me pediam. Mas às
vezes era um abuso. A partir do momento em que a gente fechava um acordo, muitos
queriam um adiantamento de 10.000 ou 20.000 reais. Quando a gente não mandava
o dinheiro, eles cobravam. A emenda era um produto, um pacote completo. Quem corria
atrás dos prefeitos para acertar a licitação eram os deputados.
Esse modelo já existia antes da nossa empresa.
O SENHOR ACHA QUE O SEU DEPOIMENTO AJUDARÁ A MUDAR
A ELABORAÇÃO DO ORÇAMENTO? Eu gostaria, mas acredito
que não. Se acabarem as emendas individuais, ainda continuarão as
emendas de bancada, os recursos extra-orçamentários. Sempre vai
haver um conchavo, uma negociata.
NOVE DIAS DE CONFISSÃO Roberto
Setton
 | | Azevedo,
advogado dos Vedoin: "Foi melhor contar tudo" |
Por
nove dias seguidos, em depoimentos que duravam das 8 da manhã às
11 da noite, o empresário Luiz Antônio Vedoin detalhou à Justiça
Federal o mais abrangente esquema de corrupção de que já
se teve notícia no Congresso o dos sanguessugas. Além de
apontar um a um os deputados e senadores com quem negociou, em troca de propina,
a apresentação de emendas ao Orçamento para a compra de ambulâncias,
o dono da Planam apresentou cópias de depósitos e transferências
bancárias que comprovavam o pagamento de suborno. A confissão de
Vedoin é um bem-sucedido caso de delação premiada. A operação
teve a participação decisiva do Ministério Público
Federal e da Justiça Federal de Mato Grosso. Também fez parte da
negociação o advogado Otto Medeiros de Azevedo Júnior, de
Cuiabá, que defende a família Vedoin e o empresário Ronildo
Medeiros, outro acusado de comandar o esquema.
Curiosamente, a operação do Ministério Público não
tinha como foco inicial a investigação sobre os sanguessugas do
Congresso, e sim uma autuação por sonegação fiscal.
Foi a partir do trabalho de auditores da Receita Federal que os procuradores acionaram
a Polícia Federal. Com a ajuda de escutas telefônicas autorizadas
judicialmente, puderam achar o fio da meada que levou aos parlamentares corruptos.
"Só tive a dimensão da importância do caso depois que vi a
quantidade de provas levantadas na investigação. Percebi que o melhor
caminho era mesmo assumir a culpa e contar tudo", diz Otto Azevedo, um advogado
de 28 anos especializado em causas tributárias. Antes dele, os Vedoin,
que respondem ao processo em liberdade, já haviam dispensado outros dois
advogados e insistiam em negar a existência do esquema dos sanguessugas.
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