|
|
Eleições
2006 No partido do botox cabe todo mundo
Até o presidente Lula se rendeu à substância que puxa,
estica e rejuvenesce  Juliana
Linhares
Teve
início, na terça-feira passada, o horário eleitoral gratuito
na TV. Além de proporcionar aos eleitores a chance de conhecer com mais
profundidade as propostas de cada um dos presidenciáveis, o programa expõe
de maneira intensa a imagem dos candidatos. Sob o foco dos refletores e marcação
implacável das câmeras, cada ruga, cada ondulação do
cabelo, cada trejeito corporal se combinam para formar uma espécie de assinatura
visual dos candidatos. Como eles e seus gurus do marketing sabem, é vital
projetar uma imagem de vigor físico, acuidade mental, firmeza e, se possível,
também lançar olhar inteligente para os milhões de telespectadores.
Nesse esforço vale tudo: maquiagem, iluminação adequada,
enquadramento favorável, roupas de cores sóbrias. Neste ano uma
novidade foi incorporada ao arsenal de construção da imagem dos
candidatos, o Botox, tradicional aliado das mulheres em seu repto pelo prolongamento
da juventude. O exemplo vem de cima.
O presidente Lula aderiu ao partido do Botox. Ele vem se mostrando na televisão
com uma face mais lisa, mais firme e mais jovem graças a sucessivas aplicações
de Botox a toxina que puxa, estica e remoça, item obrigatório
nos pacotes de beleza oferecidos pelas clínicas dermatológicas (veja
reportagem). O embotocamento de Lula foi feito pela clínica paulista
Denise Steiner. Lá, fotos do presidente rejuvenescido são exibidas
aos clientes como um exemplo de caso de homem maduro e ilustre que, livre de preconceitos,
aderiu a um procedimento estético moderno. Lula já colocou Botox
três vezes. A primeira sessão ocorreu no início de 2004. A
última, dias antes da entrevista que ele concedeu há duas semanas
ao Jornal Nacional, da Rede Globo. As aplicações foram feitas
pela própria Denise Steiner. Todas as vezes, ela viajou de São Paulo
para Brasília, sempre no fim da tarde de sexta-feira, para atender o presidente
na residência oficial. Nessas visitas, além de renovar o Botox de
Lula, a médica usou ácido retinóico nas bochechas, no nariz
e na testa do presidente. O procedimento serve para provocar uma leve escamação
química na pele, que se renova e ressurge com menos manchas. O ácido
também tem a função de ajudar a fechar os poros do rosto
de Lula e diminuir o aspecto oleoso de sua pele. O tratamento é conhecido
pelo seu nome em inglês, peeling.
Uma das mais conceituadas dermatologistas de São Paulo e também
uma das mais caras (só a consulta custa 390 reais), Denise Steiner foi
indicada a Lula por Pedro Albuquerque, o cirurgião plástico responsável
pelas cirurgias estéticas realizadas pela primeira-dama desde 2002 (veja
quadro). Entusiasta dos modernos métodos de embelezamento, Marisa
precedeu o marido no uso do Botox. Fez sua primeira aplicação no
fim de 2003, depois de aprovar os resultados obtidos pela também petista
e adepta da toxina Marta Suplicy. A primeira-dama gostou tanto do resultado que
convenceu o presidente a colocar também. Na clínica da esteticista,
cada aplicação de Botox (cujo efeito costuma perdurar por seis meses)
custa 1.350 reais. Como tudo o que diz respeito às finanças do presidente
é cercado de mistério, não se sabe se ele paga ou não
os serviços da dermatologista, assim como também se desconhece quem
arca com as despesas de locomoção da médica para Brasília.
Marcelo
Botelho/Obritonews
 | | Alckmin,
sendo maquiado para a TV: Cesar Maia achou o seu colarinho "engomado demais" |
Especialistas consultados por VEJA foram unânimes em dizer que a aplicação
do Botox em Lula, somada ao tratamento com ácido retinóico, foi
bem-sucedida. "A testa descomprimida passa uma sensação de leveza,
de relaxamento como se não estivesse acontecendo nada de ruim no
país", brinca uma dermatologista. O Botox de Lula foi aplicado em quatro
músculos: frontal, corrugadores, prócero e orbitais. O frontal pega
toda a região da testa, onde ficam as linhas horizontais, agora amenizadas
pela toxina. Os corrugadores são os que ficam logo acima das sobrancelhas
e que, principalmente em homens acima dos 50 anos, costumam parecer mais avolumados
mesmo em momentos de relaxamento. Essa hipertrofia, em geral, sobrecarrega a expressão,
passando uma impressão de cólera. O músculo prócero
se localiza entre as sobrancelhas. Quando tensionado, produz uma marca vertical
que empresta ao rosto uma expressão preocupada. Em Lula, tanto os músculos
corrugadores quanto o prócero eram bastante desenvolvidos. Ao paralisá-los,
o Botox suavizou as feições do presidente, tornando-as mais joviais.
Já a aplicação da toxina nos músculos orbitais (que
circundam os olhos) tiveram o objetivo de disfarçar as rugas em torno dos
olhos de Lula, os populares pés-de-galinha. A substância é
injetada na lateral externa dos olhos, na região em que essas marcas se
aprofundam. A adesão ao partido
do Botox não é a primeira transformação estética
a que o presidente se submete. As mudanças em seu corpo e figurino começaram
a ser operadas em 2002, por sugestão do seu então marqueteiro, Duda
Mendonça. Durante a campanha que o levou à Presidência, o
petista submeteu-se a um realinhamento dentário, que incluiu uma faceta
de porcelana para aumentar um canino esquerdo mais curto que o resto da arcada.
Além disso, ele emagreceu, fez tratamento para clarear os dentes e passou
a usar ternos mais caros e bem cortados. Lula sempre foi vaidoso, mas, obviamente,
não é o primeiro político a recorrer à ajuda de profissionais
para melhorar a aparência. Quando era senador, em 1987, o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso fez uma cirurgia para a retirada de bolsas de gordura
localizadas sob os olhos. Gostou tanto do resultado que recomendou o procedimento
ao também tucano José Serra. Em 1999, o então ministro da
Saúde de FHC passou pela mesma intervenção. Fora do Brasil,
talvez o maior exemplo de extreme makeover seja o ex-primeiro-ministro
da Itália Silvio Berlusconi. O político, de 69 anos, esbanja uma
forma invejável e tem na cirurgia plástica um de seus assuntos favoritos.
Recentemente, fez implante de cabelos, submeteu-se a uma plástica nos olhos
e encarou uma dieta rigorosa. "Acho que estou mais agradável aos olhos
dos outros", declarou Berlusconi sobre sua nova silhueta.
 | | Lula
e a primeira-dama, Marisa Letícia, ao lado da dermatologista Denise Steiner,
responsável pelas aplicações de Botox no casal |
Boa imagem rende votos, sim, garantem os especialistas. "Por meio da TV, o eleitor
constrói uma identidade do político. Se penteado, roupa e maquiagem
estão bem-feitos, o candidato passa uma idéia de juventude, de disposição
e de simpatia", diz Gaudêncio Torquato, consultor em marketing político.
"Já se o sujeito se apresenta mal-ajambrado e suado, o telespectador logo
associa essa imagem à de um candidato cansado, mal-humorado e, conseqüentemente,
derrotado." Foi o que ocorreu com Richard Nixon no célebre debate travado
na TV, em 1960, com John F. Kennedy, quando ambos eram candidatos à Presidência
dos Estados Unidos. O primeiro saiu massacrado, entre outras coisas, por causa
de uma hiper-hidrose (desequilíbrio que provoca suor excessivo) muito bem
explorada pelas câmeras. Enquanto Kennedy bronzeado, jovial e bem
penteado encarava sorridente o seu oponente, Nixon mostrava todo o seu
desconforto na tentativa de estancar os rios de suor que lhe escorriam pelo rosto
mal barbeado. Esse embate ainda hoje é citado como tendo sido decisivo
para a apertada vitória de Kennedy sobre Nixon.
Ardoroso defensor da tese de que boa aparência é igual a voto, o
prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia (PFL), não só não
se furta a dizer que já aplicou Botox três vezes e pintou as sobrancelhas
("para deixá-las da cor original") como também gosta de encorajar
os candidatos a cargos políticos a operar mudanças em seu visual.
"Lula deveria emagrecer bem mais", preconiza o prefeito. "A TV exponencia seus
quilos extras." Sobre o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo
Alckmin, o prefeito afirma que ele poderia ser "mais espontâneo". "Aquele
colarinho engomado e o laço da gravata apertado não são naturais."
Já Heloísa Helena, sua preferida quando o assunto é performance
na TV, deveria usar mais maquiagem "e cortar um pouquinho a junção
das sobrancelhas, para suavizar o rosto".
Andreas
Solaro/AFP
 | | O
ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi: plástica, regime e implante
capilar |
Em uma eleição
de comícios cada vez mais esvaziados decorrência da nova norma
do Tribunal Superior Eleitoral, que proíbe a participação
de atores e cantores nos eventos , os já preciosos minutos de que
os candidatos dispõem na TV se tornam ainda mais valiosos. Só na
Grande São Paulo, o Ibope registrou 42 pontos de audiência no primeiro
dia de exibição do horário eleitoral político, no
período noturno. Como cada ponto de audiência do Ibope corresponde
a 80.000 telespectadores, isso significa que pelo menos 3 milhões de pessoas
observaram os candidatos na semana passada, na capital paulista. "Campanha eleitoral
é um processo de conquista, de sedução e, quando você
quer conquistar, você vai com a sua melhor roupa e seu melhor sorriso",
diz o publicitário André Torreta, consultor em marketing político.
Como se vê, mesmo com sua dianteira nas pesquisas, Lula não quer
deixar nada ao acaso na corrida para o segundo mandato. |