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André
Petry Tributo à tolerância
"Juiz
autorizou um casal gay a registrar o filho
adotivo numa certidão em que não
houvesse menção a 'pai' ou a 'mãe'.
É uma decisão notável"
Faz bem ouvir depoimentos como o do governador
mineiro Aécio Neves. Numa sabatina promovida pelo jornal Folha de S.Paulo,
o governador disse que é um defensor do casamento homossexual. "Não
me oponho à união civil entre homossexuais. Não coloco nenhuma
objeção ao fato." Aécio Neves disse que o país tem
demonstrado tolerância ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e defendeu
a idéia de que a lei contemple esse avanço.
Parece que disse pouco, mas é bastante.
Os políticos profissionais não gostam de externar posições
claras sobre temas aparentemente controvertidos. No caso do casamento gay, têm
receio de deflagrar a fúria da Igreja Católica, talvez a instituição
mais intolerante do mundo à liberdade sexual, e sobretudo de perder o voto
do eleitorado mais conservador. O comportamento esquivo dos políticos explica
por que o casamento homossexual nunca é votado no Congresso Nacional, ainda
que o tema circule por ali há mais de uma década. Explica, ainda,
por que já houve tanto projeto apenas prevendo a convocação
de plebiscito sobre o tema pois é uma forma de agradar à
comunidade gay sem afrontar os conservadores. O
casamento homossexual é uma realidade no Canadá e em alguns países
da Europa, inclusive na católica Espanha, e será uma realidade no
Brasil mais cedo ou mais tarde. Trata-se de um avanço inevitável,
como aconteceu com o divórcio ou o tabu da virgindade. Para quem tem dúvidas,
basta conferir algumas decisões judiciais recentes:
Em
julho, o juiz Rômolo Russo Junior, de São Paulo, determinou que o
Instituto de Previdência do estado pagasse pensão ao companheiro
de um servidor que falecera havia cinco anos. Em sua sentença, escreveu
que o direito existe para que "o homem alcance o justo meio das coisas".
No
mesmo mês, a juíza Mariângela Meyer Pires Faleiro, de Belo
Horizonte, tomou decisão idêntica, ainda que a lei não preveja
benefício previdenciário a casais homossexuais. Escreveu: "A Justiça
não pode seguir dando respostas mortas a perguntas vivas".
Ainda
em julho, a juíza Adair Julieta da Silva, de Cuiabá, reconheceu
a união estável de um casal homossexual antes que qualquer
um morresse. O casal passou, assim, a ter benefícios previdenciários,
direito a pensão alimentícia ou a herança, como qualquer
casal heterossexual.
Outra decisão, também do mês passado, é ainda
mais notável: o juiz José Antônio Cezar, de Porto Alegre,
autorizou um casal homossexual a registrar o filho adotivo numa certidão
em que não houvesse menção a "pai" ou a "mãe".
Quem sabe isso tudo a declaração de Aécio Neves quebrando
o padrão de hipocrisia dos políticos e as decisões judiciais
dando exemplo de grandeza ajude a desbloquear a legalização
do casamento gay. Faria bem ao país. Ensinaria, aos socialmente conservadores,
aos religiosos que identificam liberdade sexual com sinal do apocalipse, que a
legalização do casamento homossexual é apenas uma reverência
à diversidade e um triunfo da tolerância. Não faz mal a ninguém.
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