LIVROS
Os
Ensaios Livro I, de Michel de Montaigne (Tradução
de Rosemary Costhek Abílio; Martins Fontes; 490 páginas;
45 reais) Os Ensaios são um dos grandes clássicos
do pensamento ocidental, uma "obra de sabedoria" que lida com
temas fundamentais como a morte, a amizade e o amor. Além
disso, são um texto literário de primeira grandeza:
basta dizer que Shakespeare os mantinha em sua cabeceira. Esta
tradução da obra é a primeira realmente completa
e confiável no Brasil. Embora agradável, a versão
disponível no mercado, de Sérgio Milliet, toma muitas
liberdades e tem alguns deslizes. A nova, assinada por Rosemary
Costhek Abílio, parte da melhor edição francesa
de Montaigne e reproduz em português não apenas as
idéias, mas também a beleza da escrita do filósofo.
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Espelho
Índio, de Roberto Gambini
(Axis Mundi/Terceiro Nome; 192 páginas; 65 reais) Anos
atrás, o psicanalista Roberto Gambini teve uma idéia
original. Com base nas descrições dos nativos brasileiros
encontradas nas cartas que padre José de Anchieta e outros
jesuítas escreveram no século XVI, ele fez um alentado
ensaio sobre a formação do caráter nacional.
Esgotada nas livrarias há cerca de cinco anos, a obra,
antes publicada como simples brochura, acaba de ganhar edição
de luxo. Agora, ostenta capa dura e está recheada de ilustrações
que constituem um atrativo à parte. São reproduções
de gravuras, desenhos e livros do acervo do bibliófilo
José Mindlin. Essas imagens retratam temas como o canibalismo,
a subjugação dos indígenas e as impressões
fantásticas que os europeus tinham a respeito do país.
DISCO
Alone
With Everybody, Richard Ashcroft (Virgin) Ex-vocalista
do grupo inglês The Verve, Richard Ashcroft é o autor
de Bittersweet Symphony, uma das baladas mais pungentes
dos últimos tempos. A música ganhou as paradas ao
mesclar a versão orquestrada de um hit dos Rolling Stones
com uma irresistível batida eletrônica. A banda acabou,
mas o primeiro CD-solo do cantor conserva a sua sonoridade agridoce.
Só que as melodias estão ligeiramente mais felizes.
Exemplo disso é Song for the Lovers. A explicação?
Bem, depois de um passado turbulento, marcado pelo uso de drogas
pesadas, o rapaz casou e está mais sossegado.
DVD
Nona
Sinfonia e As Quatro Estações,
Herbert von Karajan e Filarmônica de Berlim (Columbia) Esses dois lançamentos trazem ótimas gravações
do austríaco Herbert von Karajan (1908-1989), um dos maiores
regentes do século XX. Como é comum nos DVDs, o
pacote oferece algum material extra, como biografias do maestro
e dos compositores. Mas isso é o de menos, diante da excelência
das interpretações. Uma das especialidades de Karajan,
a Nona Sinfonia de Beethoven, aparece num registro de 1983,
quando ele ainda exibia vitalidade em seus últimos
anos, já não conseguia estender os braços
para reger e seus movimentos eram jocosamente comparados aos de
um manipulador de marionetes. Karajan conduz a orquestra de olhos
fechados, como se as partituras estivessem gravadas em sua mente.
A versão de As Quatro Estações, do
italiano Vivaldi, tem solos da exímia violinista Anne-Sophie
Mutter.
TELEVISÃO
Ruth
em Questão (Citizen
Ruth, Estados Unidos, 1996. Domingo,
dia 27, às 21h, no Cinemax) Ruth (Laura Dern) é
desempregada, sem-teto e só pensa em drogas. Uma marginal
anônima, em suma. Mas, ao engravidar, seu direito de ter
ou não o bebê causa uma guerra entre militantes pró
e contra o aborto. Tema pesado? Surpresa: com essa trama limítrofe,
o diretor americano Alexander Payne faz uma sátira impagável
do fanatismo.
Grandes
Nomes Luchino Visconti (Quarta
às 23h e quinta às 18h30, no GNT) O documentário
traça um painel da vida, da obra e da personalidade de
um monstro sagrado do cinema europeu. Em Visconti, um aristocrata
que empenhou jóias de família para financiar os
primeiros filmes, os italianos encontraram um ponto de intersecção
de sua cultura refinada e das dificuldades de um país combalido
pela derrota na II Guerra.
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OS
MAIS VENDIDOS - CRÍTICA
Kiko Ferrite
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| O
guru Shinyashik: os outros passam, ele continua firme |
Incrível.
Já faz quase dez anos que o guru da auto-ajuda Roberto
Shinyashiki mantém um espaço cativo nas vitrines
das livrarias. Psiquiatra especializado em administração
de empresas, ele aparece nas fotos de divulgação
de seus livros com sorriso feliz, e não é à
toa. Já vendeu quase 5 milhões de exemplares
de suas oito obras, realiza cerca de 100 palestras por ano
e atualmente mantém um verdadeiro latifúndio
na lista de mais vendidos. Os Donos do Futuro
(Editora Gente; 190 páginas; 22 reais), seu
último lançamento, entrou no ranking duas semanas
atrás e já ocupa o segundo posto. No oitavo,
aparece o manjadíssimo O Sucesso É Ser
Feliz (Editora Gente; 198 páginas; 22 reais),
livro de maior fôlego da lista. Resistindo há
quase um ano, está em sua 59ª edição.
Mas o fôlego de Roberto Shinyashiki será posto
à prova de fato durante as Olimpíadas. Ele foi
escalado para dar apoio moral à delegação
brasileira há quem espere, com isso, que o país
arrase no quadro de medalhas.
 O
que faz de Shinyashiki um campeão? É simples:
ele vende a utopia de que vencer na vida não é
algo tão complicado. Basta estar focalizado nesse
objetivo, apostar todas as fichas em você mesmo e
pronto. A vitória estará praticamente assegurada.
Outra regra de ouro da filosofia de Shinyashiki: é
preciso ter espírito de equipe se você quiser
manter a harmonia dentro de casa ou chegar longe em sua
carreira. Para platéias empresariais ávidas
por discursos capazes de levantar o astral, isso soa como
música. Quanto ao método de argumentação
do autor, não poderia ser mais básico. Primeiro,
ele lança mão de uma metáfora instrutiva.
Por exemplo, a comparação entre os traços
comportamentais de um pai de família moderno e os
de um herói da mitologia grega. Depois, engata outra
e mais outra alegoria, até chegar à moral
da história. Para facilitar a memorização,
ela vem numa frase de efeito. E é escrita em letras
garrafais.
Marcelo
Marthe
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