Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
De péssima
a medíocre
"O
problema da educação
brasileira não
foi resolvido, mas começou um processo
que se vem revelando firme e contínuo"
Ilustração Ale Setti
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No ensino fundamental está o cerne de tudo o mais que sai
errado em nossa educação. Logo nos primeiros anos
havia um entupimento, bloqueando o avanço e limitando o
aprendizado. Mas, na década passada, deu-se uma grande
revolução: de catastrófica (para um país
com o nosso desenvolvimento), a educação passou
a medíocre.
O problema não foi resolvido, mas começou um processo
que se vem revelando firme e contínuo. As graduações
no 1º grau passaram de 1 milhão em 1990 para 2,5 milhões
no final de 1998. E já encurta o período necessário
para chegar ao fim desse ciclo.
O crescimento seria uma vitória de Pirro se obtido à
custa da qualidade, como se deu com a expansão anterior
do 1º grau. Mas os testes do Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Básica (Saeb/Inep) mostram que
não aconteceu nada parecido. Pelo contrário, com
altos e baixos, a qualidade se agüenta. As boas idéias
se esparramam, e o MEC passou a ajudar nesse processo.
Porém, para que continue avançando, é preciso
entender a dinâmica do processo de reforma. O salto inicial
resultou da decisão de lidar com problemas concretos e
fáceis: construir, contratar, comprar livros, acertar os
erros óbvios e visíveis a olho nu. Essas medidas
agradam a todos, sejam sindicatos, políticos, pais ou empresas.
Mas o problema é que estamos chegando ao limite do conserto
fácil. Em muitas escolas já estamos entrando na
fase em que tudo vai ficando mais difícil. É necessário
melhorar a administração, aprender a prestar contas,
aumentar o controle local e a eficiência e, o mais difícil,
mudar comportamentos. Acima de tudo, é preciso aprender
a lidar com a multidão de alunos mais pobres hoje matriculados
em todos os níveis do fundamental.
Se comprar mais livros é indolor, substituir professores
incompetentes ou displicentes é penoso. Descobrir quem
são os melhores para louvar e premiar é pecado mortal
na cartilha ideológica de alguns. Poucos ousam tirar o
privilégio dos políticos para usar nomeações
como moeda de troca. E bulir no vespeiro da formação
de professores?
Mas, em uma instituição cheia de vícios e
problemas, somente arrostando as forças vivas da sociedade
é possível transpor os umbrais de uma educação
medíocre e conseguir boa qualidade. Porém, que razões
teriam políticos e administradores para pagar os custos
políticos de uma reforma? À primeira vista, nenhuma.
A lógica dita que as reformas não deveriam acontecer,
já que os responsáveis por elas têm tudo a
perder e pouco a ganhar, pelo menos no horizonte de seu mandato.
Mas as reformas acontecem, mesmo neste nosso Brasil. Não
fora isso, permaneceríamos travados. Vivemos um momento
único e precioso. Hoje, a educação entrou
na agenda política e na primeira página dos jornais
justamente porque entrou na agenda do brasileiro comum. Com a
modernização econômica e a globalização,
sem o 1º grau não há emprego estável
e sem o 2º não há emprego razoável.
Os radares dos políticos e administradores detectaram que
educação pode dar voto. Agora existem prêmios.
Atenuam-se os medos de tomar medidas que pisam nos calos alheios
e aumentam os temores de ser punido por não fazer nada.
E, sem pisar em muitos calos, não se reforma mexer
no fácil não é reforma.
O que falta, então, para que alguém se atreva a
enfrentar os sustos e as assombrações de uma reforma?
Faltam lideranças, pessoas que vejam mais longe e apostem
no futuro. Na década passada, os ventos da reforma vieram
do Paraná, de São Paulo e, sobretudo, das Minas
Gerais. Onde estarão na presente década? A Bahia
e o Ceará parecem apostas interessantes. Dão-se
hoje muitos pequenos passos por todos os cantos e, somados, eles
trazem avanços sérios. Há um dramático
aumento na qualidade dos secretários de Educação.
Mas, sem os grandes saltos, ficaremos aquém do necessário.
Estadistas ou camicases, precisamos de secretários que
ousem mais e de eleitores que não se contentem com menos.