Roberto
Pompeu de Toledo
Comparação
desabusada entre
duas Sicílias
Haveria
algo em
comum entre
a Sicília
da
época do Gattopardo
e
a história
recente
de um país mais
ao sul?
Os bons romances contêm um enigma. Tomem-se os dois mais celebrados
clássicos da literatura brasileira, Dom Casmurro,
de Machado de Assis, e Grande Sertão: Veredas, de
Guimarães Rosa. Ambos contêm um pesado enigma, situado
no âmago mesmo da narrativa. O de Dom Casmurro é
a célebre dúvida em torno de Capitu: traiu ou não
traiu? O do Grande Sertão, questão pungente,
que tortura e desacorçoa o narrador Riobaldo, é se
ele firmou ou não um pacto com o demônio, certa vez,
no lugar lugubremente chamado Veredas Mortas. Enigma diferente,
mas ainda assim um enigma, encontra-se num romance italiano, um
dos maiores do século XX, que em boa hora acaba de ganhar
nova edição e nova tradução no Brasil
(Editora Record): O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.
Aliás, O Gattopardo, para respeitar o título
da nova edição, que conserva a palavra no original.
O Gattopardo é um magnífico romance político,
entre outras coisas. Com Lampedusa, estamos na companhia de um observador
de gênio, tanto do fenômeno político pequeno,
eleitoreiro, quanto dos movimentos maiores, tão vitais que
para eles o nome "política" já fica estreito, merecendo
mais ser chamados de "história". Ao primeiro gênero
pertence o trecho em que o "Gattopardo" do título, o príncipe
de Salina, titular de uma aristocrática família da
Sicília interpretado no cinema, no belo filme de Luchino
Visconti, por Burt Lancaster , é convidado a integrar
o Senado da recém-unificada Itália. Salina rejeita
o convite, sob o argumento de que é uma pessoa "desprovida
de ilusões", a quem falta "a faculdade de enganar-se a si
mesmo, requisito essencial para quem deseja liderar os outros".
Ele propõe, para o mesmo lugar, o novo-rico Calogero Sedàra,
tão ignorante quanto astuto, representante da burguesia em
ascensão naqueles idos de 1860. Sedàra, explica, é
igualmente despido de ilusões "mas esperto o bastante
para saber criá-las". O diálogo vale um tratado sobre
o papel da ilusão, ou da falta dela, numa carreira política
e talvez não só política.
Ao segundo gênero, o da dissecação dos grandes
movimentos da História, pertence o romance todo, cujo tema
central é a decadência de uma classe e a ascensão
de outra, a derrocada de uma ordem (a da Itália há
tanto tempo dividida) e o surgimento de outra (a do país
unificado), mas, muito especialmente, filia-se ao mesmo gênero
a famosa frase que o sobrinho do príncipe de Salina, Tancredi,
diz ao tio: "Se queremos que tudo permaneça como está,
é preciso que tudo mude". Poucas frases têm sido tão
citadas, poucas tão admiradas maravilha que é
de uma sabedoria embebida em fino cinismo. Relembre-se a circunstância
em que é dita. Tancredi tomara a decisão de juntar-se
às tropas de Garibaldi, recém-desembarcadas na Sicília.
O tio estranha. Que diabos moveriam o jovem sobrinho, herdeiro de
nobre casa, a aderir a tal bando de aventureiros? É então
que Tancredi se sai com sua observação, que embute
uma tática de sobrevivência. Adere-se ao outro lado
para melhor contê-lo, gruda-se ao adversário para impedir-lhe
os movimentos. Muda-se para não mudar.
Tancredi conseguiu evitar a mudança temida? Ou sua adesão
à tropa revolucionária, resolução suicida,
serviu apenas para acelerar a condenação da classe
à qual pertencia? Em suma: as coisas mudaram ou não
mudaram? Eis onde o livro nos oferece um enigma. Por um lado, o
autor dá a entender que mudaram. O último capítulo
do livro mostra-nos as filhas do príncipe de Salina, já
morto o pai, vivendo uma vida melancólica de solteironas
beatas, como fantasmas de outra era. Mas, por outro lado, bem ou
mal elas continuam em seu palácio. E, se mudou o comando
da sociedade, da classe dos Salina para a dos burgueses como Sedàra,
teria isso significado maior do que o de uma troca de guarda?
No fundo são velhas questões, entre as quais se esboça
uma filosofia conservadora, mas que, na pena de Lampedusa, iluminam-se
de beleza e inteligência. Agora, com licença de Lampedusa,
do príncipe de Salina, do refinado cineasta que foi Luchino
Visconti e, por fim, do leitor, vão-se encerrar estas linhas
trazendo os mesmos temas a nosso mundinho particular e rasteiro.
Que tem acontecido no Brasil, nas últimas décadas?
A quantas têm sido bem-sucedidos os Tancredi que, aderindo
aos movimentos de mudança, o fazem para contê-los ou,
se possível, paralisá-los? A adesão dos conservadores
tem sido uma constante, quando algum tipo de ruptura se esboça
no horizonte. Eles aderiram a Vargas. Mais recentemente, aderiram
à Nova República de Tancredo (não confundir
com Tancredi ou confundir, fica a critério do leitor).
Até onde, com isso, conseguiram que as coisas mudassem para
não mudar? Por fim, Fernando Henrique Cardoso, que de bom
grado aceitou a adesão conservadora ou a adesão
do atraso, como costuma dizer , representará ele, à
luz da História, mais um triunfo de Tancredi? Ou será
identificado, para além das vacilações, das
concessões e dos escândalos, com uma era de avanço?
Eis um enigma, como o dos livros.
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