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Festival para quê?

Globo dá início a megaevento musical, que
traz mistura indigesta
de abacate e tubaína

Sérgio Martins

 
Ilustração Negreiros

 

Trecho da música
O Abacate, de Paulo Leonel
Costa e Lula Ferreira

"Eu pego o caroço do abacate
E bato bem
Enfio goela adentro
Na garganta do neném
Meu bem
Que é para você nunca
mais reclamar
Que eu não bato
o abacate bem"

Reviver a época dos festivais da Record, na década de 60, é uma daquelas fantasias sebastianistas que acometem os diretores da Rede Globo de vez em quando. Eles produziram eventos parecidos nos anos 70 e 80, sem deixar maiores vestígios na história (que costuma se repetir como farsa, não esqueçamos). A nostalgia teve um intervalo nos anos 90, mas voltou a surgir agora com a realização do Festival da Música Brasileira, anunciado pela emissora com toda a pompa e circunstância. O evento tem início neste dia 19, às 22 horas, e se estenderá – e como! – pelos quatro sábados seguintes. Ao todo, 48 canções concorrerão a prêmios que somam 1 milhão de reais. Além de sonhar com a dinheirama, seus compositores ambicionam ser projetados para o primeiro plano do show biz nacional. O capricho da Globo é digno de uma festa do Oscar. O palco será o do majestoso Credicard Hall, em São Paulo, no qual João Gilberto deu aquele famoso show de bossa nova e caretas antigas. E o intérprete de cada música contará com cenário próprio. Até roupas para os participantes a emissora providenciou. Simplesmente um luuuuxo, como diria o apresentador Atayde Patrese.

Um dos comandantes do espetáculo é Solano Ribeiro, que ajudou a produzir os festivais da Record. "Queremos ser vitrine para novos talentos", diz ele. Um time de doze jurados especializados foi contratado para analisar as 23.834 composições inscritas. A fim de evitar maracutaias, nenhuma informação sobre os autores ou intérpretes foi passada ao júri. Essa isenção fez com que nomes conhecidos, como os de Lenine e Billy Blanco, ficassem de fora. Ela já marca uma diferença entre o novo festival e embustes como o MPB Shell – um instrumento inventado pelas grandes gravadoras, na década de 80, para divulgar seus contratados de terceiro escalão. A Globo também convocou produtores de renome, como Dudu Marote e Marcelo Sussekind, para bolar os arranjos de algumas músicas.

Tudo certo? Nem tanto. De boas intenções os festivais estão cheios, mas elas infelizmente não determinam o seu sucesso. Pelo que se viu até agora, as letras e as melodias da maioria das canções selecionadas são de uma ruindade estrepitosa. As exceções só confirmam a regra, é claro. Há idiotices como O Abacate, que apelam para o duplo sentido sem dizer absolutamente nada, e anacronismos como Tubaína, que fala da vida marginal nas grandes cidades, rimando "sina" e "latrina". Saudades de Domingo no Parque, de Gilberto Gil? Pois é. Também há o Rap da Real, que defende as prostitutas, os negros, os feios e os gordos e ataca o sistema. Principalmente o sistema auditivo do ouvinte. Ah, sim, não falta a crítica a "tudo isso que está aí" – Pára de falá (sic) e faz. Pouparemos ao leitor a letra dessa cretinice.

Diante do quadro que se afigura, é de imaginar o nível das 23.786 canções que não foram selecionadas. Pensando bem, não dá nem para imaginar.

 

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