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E a história não acabou

Aguardado com ansiedade, chega ao Brasil
o segundo
romance de Harry Potter

Carlos Graieb

Harry Potter é mesmo um bruxo poderoso. Herói da série de romances infantis escrita pela escocesa J.K. Rowling, ele já cativou 50 milhões de leitores ao redor do mundo. O Brasil não ficou fora desse círculo encantado. Na terra do saci e da cuca, a magia à moda britânica funcionou exatamente como nos outros lugares. Desde que foi lançado, em abril, o primeiro livro do personagem já vendeu mais de 60.000 cópias. O segundo acaba de chegar às prateleiras. Chama-se Harry Potter e a Câmara Secreta (tradução de Lia Wyler; Rocco; 287 páginas; 22 reais) e sua tiragem inicial é de 100.000 exemplares – dez vezes maior que a de um best-seller normal. À semelhança do que aconteceu em outros países, o jovem mago também conquistou, por aqui, um público mais variado do que se esperava. Potter virou diversão para a família toda. Tanto assim que a editora brasileira preparou uma campanha publicitária especial para promover seus livros. "Quem vai ler primeiro: você ou seu filho?", diz o slogan.

Mais ainda do que os números, o que vinha fazendo de Harry Potter uma raridade era o fato de ser elogiado com entusiasmo pela crítica. Mas isso mudou. Pela primeira vez desde 1997, quando saiu do anonimato para transformar-se numa das mulheres mais ricas e célebres da Grã-Bretanha, J.K. Rowling teve de se defrontar com resenhas negativas nas últimas semanas. Os ataques vieram da Inglaterra e dos Estados Unidos. Alguns disseram que seu estilo é fraco. Outros, que suas obras não vão sobreviver entre os clássicos da ficção infantil. E houve ainda aqueles que desconstruíram Harry, afirmando que o personagem é raso e "unidimensional". Foi esse o argumento dos jurados da Medalha Carnegie, maior honraria da literatura para crianças na Inglaterra, ao explicar por que Rowling não venceria o prêmio no ano 2000. O ataque mais devastador, no entanto, saiu no diário americano The Wall Street Journal e foi escrito por Harold Bloom, o renomado autor de obras como O Cânone Ocidental. "Será que milhões de compradores de livro podem estar errados? Sim, podem, e persistirão no erro enquanto se agarrarem a Potter", escreveu ele. Para Bloom, a linguagem de Rowling está infestada de clichês e não exige nada dos leitores.

Até certo ponto, é impossível discordar de Bloom e dos outros críticos. Rowling é, sim, uma autora convencional. Seu estilo é um tanto esquálido se comparado à linguagem esfuziante de um Lewis Carroll, autor do clássico Alice no País das Maravilhas. Além disso, a autora não proporciona aos seus fãs nada que eles não possam encontrar em outros lugares, inclusive na cultura pop. Compare, por exemplo, os romances de Harry Potter ao filme X-Men, em cartaz nos cinemas. Ambos discutem o tema do "respeito às diferenças". Nos dois casos, há um confronto entre gente comum e seres especiais. Em Harry Potter e a Câmara Secreta, por exemplo, feiticeiros que não têm "sangue puro" começam a ser atacados e transformados em pedra. O vilão da história é movido pelo ódio contra os humanos normais – os "trouxas sujos e comuns". Mas será que esses motivos bastam para condenar J.K. Rowling à fogueira? É claro que não, e por uma razão simples: ela trouxe as crianças de volta à leitura. Ainda que não sejam obras-primas, seus livros têm graça e imaginação. Por enquanto, isso basta. Longa vida a Rowling e seu Harry Potter.

 

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