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Segundo o autor americano Sebastian Junger, não há força mais poderosa na natureza do que um furacão em sua plenitude. Sozinho, ele devora a mesma quantidade de energia que seria liberada pela explosão conjunta do arsenal nuclear dos Estados Unidos e da ex-União Soviética, escreve Junger no best-seller A Tormenta. Imagine então três desses flagelos colidindo nos céus. Trata-se de um verdadeiro apocalipse, que os seis marujos do pesqueiro Andrea Gail tiveram o infortúnio de experimentar na pele, há quase uma década, quando retornavam para a costa. A tragédia real desses pescadores é o tema de Mar em Fúria (The Perfect Storm, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. O diretor do filme tem credenciais para se arriscar em ambientes tão inóspitos: alemão criado à vista do porto de Hamburgo, Wolfgang Petersen despontou com O Barco Inferno no Mar, de 1981, que retratava as agruras dos tripulantes de um submarino na II Guerra. É um drama intenso e claustrofóbico, que foi indicado a seis Oscar e lembra muito o horror vivido pelos russos do Kursk, que ficaram presos no leito do Mar de Barents na semana passada. Mar em Fúria também carrega nas tintas dramáticas, mas de forma menos eficiente. Seu forte está no charme de George Clooney, que interpreta o calejado capitão do pesqueiro, e nos efeitos especiais estupendos. Vagalhões de 30 metros de altura, ventos de 170 quilômetros por hora, embarcações jogadas para cá e para lá num cenário de aterradoras montanhas de água essa tormenta infernal saiu quase toda de um computador e foi combinada às imagens filmadas num tanque de água gigantesco, construído em estúdio. Mar em Fúria coloca em cena heróis pouco comuns no cinema americano: trabalhadores sem dinheiro no bolso. Em 1991, a tripulação do Andrea Gail, um barco de 22 metros, atracou no porto de Gloucester, na costa leste americana, com os porões quase vazios. Premido pela necessidade financeira, o capitão Billy Tyne tomou uma decisão arriscada: voltar ao mar com o inverno batendo à porta, para mais uma viagem. Sem encontrar peixes nos locais de hábito, foi se afastando cada vez mais em direção ao leste, onde, finalmente, achou o que procurava um cardume de peixes-espada. Já ia tomando o rumo de casa quando deu de cara com a catástrofe. E aí o que se vê é de dar frio na barriga. Embarcações de proa rombuda e traseira quadrada como o Andrea Gail tendem a "surfar" sobre as ondas, ao invés de cortá-las. Num maremoto, porém, as vagas vão se tornando cada vez mais verticais, e o tempo entre cada uma delas diminui. O barco quase não pode mais ser manobrado. É uma situação de perigo extremo. Pneu gigante Recriar essa tragédia na tela só foi possível porque um craque da Industrial Light & Magic, a companhia de efeitos de George Lucas, descobriu um jeito de colocar um oceano inteiro no computador, com pelo menos uma dúzia de tipos de ondas, acompanhadas de espuma, chuvisco e rajadas de vento. Mas o fascínio provocado por esse mar virtual se esgotaria rapidamente, caso não se pudesse ver os atores sofrendo sob sua violência e essa foi a parte mais penosa na realização de Mar em Fúria. Dia após dia, o elenco subia a bordo de uma réplica do Andrea Gail, colocada num tanque de 900 metros quadrados de área, e começava a receber toneladas de água sobre a cabeça, sem descanso, pelas doze horas seguintes. "Foram seis meses do frio mais intenso que já passei", conta Clooney. A tortura não terminava aí. Instalado sobre uma engenhoca semelhante a um pneu gigante e cercado por máquinas de vento e de ondas, o barco chacoalhava sem parar. Ao mesmo tempo que o diretor Petersen filmava a via-crúcis dos tripulantes, a geringonça que movimentava o falso Andrea Gail ia transmitindo cada um de seus sacolejos a um computador. De posse desses dados, os técnicos da Industrial Light & Magic moldavam suas ondas à trajetória do barco. Graças a esse expediente, a costura entre a ação real e a paisagem gerada no computador é invisível: os atores parecem mesmo ter sido atirados à tormenta. Com mais de duas horas de duração, Mar em Fúria bem que poderia dispensar a enrolação do início e a choradeira do final. Também faltou a Wolfgang Petersen um senso mais apurado de suspense. Num filme desse tipo, o que se espera é ver o medo crescendo nos olhos dos personagens, e ele não está lá. Mas a fita é imbatível no realismo com que transporta a platéia para o centro de um desastre natural que não costuma deixar vivas suas testemunhas. É quase tudo o que se espera de um trabalho do gênero. |
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