O
Brasil que diz não
O Itamaraty impõe condições
para que o país ingresse
no mercado comum das Américas
Brasília
emite sinais de que sua diplomacia pode estar parando de gaguejar
tanto. Na semana passada, a secretária de Estado Madeleine
Albright esteve no Brasil com uma pauta em que um dos principais
pontos era a criação da Área de Livre Comércio
das Américas. Conhecido como Alca, o projeto visa transformar
o continente num grande mercado comum, sem barreiras. Os Estados
Unidos querem que o bloco comercial esteja em funcionamento já
em 2005. Os brasileiros concordam com a idéia da criação
do bloco, mas querem submeter a escolha da data a algumas condições.
No encontro que teve com Albright, o ministro das Relações
Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, disse que o Brasil só assinará
o acordo da Alca em 2005 caso os Estados Unidos aceitem rever pelo
menos dez pontos de sua política alfandegária que
prejudicam a exportação de produtos brasileiros. Brasília
quer também que Washington permita um maior envolvimento
dos outros países na organização do mercado
comum das Américas.
No mundo das conversas bilaterais tudo é combinado com antecedência
pela assessoria das autoridades. Nesses encontros diplomáticos,
um costuma saber o que o outro vai dizer. Chama a atenção
de qualquer maneira o fato de que o Brasil firmou uma posição
de exigência. Para um país que sempre esteve pronto
a balançar a cabeça afirmativamente a qualquer desejo
americano, mesmo que na retórica esbravejasse contra o excesso
de poder do império, a mudança é positiva.
É no Brasil que se produz 50% do PIB da América do
Sul e é aqui que vive 50% da população da região.
Os americanos não fizeram esse registro, ao que parece. Em
fevereiro, esteve em Brasília o secretário de Comércio
dos EUA, William Daley, chefiando uma delegação de
dezenove empresários americanos. Depois de criticar o processo
de privatização e a lei de patentes adotados no Brasil,
disse que a Alca tinha de sair até 2005 e terminou sua viagem
com chave de ouro. Declarou que se os brasileiros não se
comportassem direitinho iriam espantar os investimentos americanos
do país. Em Brasília, ninguém protestou contra
os maus modos do visitante. Na semana passada, pelo menos o Itamaraty
fez uma exigência que favorece seus interesses -- mesmo desagradando
à turma de Washington.
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