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Quero um Lalau em casa


Ilustração de Pepe Casals sobre foto de Robson Fernandes/Ag. Estado


Eduardo Jorge. Você deve estar cansado dele. Eu não cansei. Pelo contrário: salvo na memória do computador todas as notícias publicadas a seu respeito, e releio-as regularmente. Eu sempre desconfiei de quem tem dois prenomes e nenhum sobrenome. Indica duplicidade de caráter. Nunca sabemos com quem estamos tratando: com o Eduardo ou com o Jorge? Com o Luiz ou com o Estevão? Mas eu não quero falar mal de Eduardo Jorge. Em relação a ele, sinto apenas gratidão. Antes que seus inocentes telefonemas viessem à tona, o episódio do TRT estava quase esquecido. Foi ele quem o trouxe novamente para o centro das atenções.

Sou um grande cultor de histórias de corrupção. Não sei explicar por quê. Imagino que seja o meu temperamento pequeno-burguês. Não resisto a notícias que envolvam a passagem de dinheiro sujo por baixo do pano. Tem gente que gosta de ler sobre acidentes aéreos. Eu não gosto. Tem gente que prefere ler sobre crimes passionais. Eu pulo. Meu negócio é corrupção. Não apenas brasileira: acompanho com igual entusiasmo histórias do mundo inteiro. Nesse ponto, a Itália é um prato cheio. A Rússia também. Acho que sei de cabeça o número de todas as contas bancárias atribuídas à filha do ex-presidente Boris Ieltsin.

Devo dizer, porém, que nenhum caso de corrupção desperta tanto o meu interesse quanto o do TRT. Cheguei a inspirar-me nele para escrever o roteiro de um filme. O prédio do TRT aparece inclusive como pano de fundo de uma das cenas. Um dos fatores que mais me atraem é o valor exorbitante da operação. O outro fator, claro, é o juiz Nicolau. Sempre que vejo sua foto ao lado daquele Lamborghini, lembro-me da cena do filme Super-Homem em que o comediante Richard Pryor, um dia depois de cometer um furto, aparece com uma ostentosa Ferrari vermelha, evidenciando seu crime. A referência cinematográfica é vulgar, mas tudo é vulgar no juiz Nicolau, de seu penteado ao apartamento em Miami, de seus familiares à polícia que não consegue capturá-lo. É justamente essa vulgaridade que me fascina. Eu gostaria de trancá-lo no meu armário e observá-lo diariamente através de um furinho, como uma criança com uma lagartixa na caixa de sapatos. Se você precisar de um esconderijo, juiz Nicolau, procure-me, por favor. Meu armário está à sua completa disposição.

O problema de histórias de corrupção é que elas raramente são reveladas em todos os seus meandros. Para apreciadores como eu, a coisa é frustrante. Ficam faltando detalhes importantes, mecanismos, conexões. A África do Sul, em sua tentativa de reconciliar brancos e negros, ofereceu uma anistia a todos aqueles que aceitaram confessar seus crimes durante o regime racista. A história do país foi passada a limpo, criando as bases para um novo começo. Os parlamentares brasileiros também querem anistiar os crimes de financiamento político ilegal. Só que sem passar pela confissão. Estão dispostos a admitir o que já foi descoberto e nada mais. Eles sabem que é muito mais indolor confessar uma tortura ou um assassinato do que uma corrupção.

 

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