Entrevista Carlos Alberto Montaner

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

De olho no retrovisor

O escritor diz que a América Latina não
progride porque olha para trás e
quer trilhar caminhos alternativos

Cristiano Dias

O escritor Carlos Alberto Montaner, 57 anos, é um latino-americano que adora falar mal de latino-americanos. Motivos para isso ele tem. Nascido em Cuba, de lá saiu fugido aos 18 anos para escapar de uma condenação a dezoito anos de prisão por ter organizado uma greve estudantil. Ao contrário de seus compatriotas que se refugiaram em Miami, Montaner não se resignou a viver como uma minoria de indesejados nos Estados Unidos e mudou-se para a Espanha. Mas ele não critica os latino-americanos por despeito ou vingança. Autor do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, ele se dedica a combater o que chama de cultura do atraso que mantém o continente na rabeira do desenvolvimento e da civilização do mundo ocidental. De Cuba, a parte que lhe toca mais diretamente na América Latina, ele espera só o fim do ditador Fidel Castro, para voltar a participar da reconstrução do país. Formado em literatura pela Universidade de Miami, trocou a carreira de professor pela de escritor. Além do Manual... já escreveu mais de uma dezena de outros títulos e publica uma coluna semanal nos principais jornais da América Latina. Casado, pai de dois filhos, vive entre sua casa em Madri e sua editora em Miami, de onde deu esta entrevista, por telefone, a VEJA:

Veja – Por que a América Latina é mais atrasada que outros continentes, com exceção da África?
Montaner –
A causa mais importante está em nossa própria história. Trazemos a visão econômica, a cultura e a educação distorcida e atrasada de Portugal e Espanha, potências européias que criaram a América Latina. Portugal e Espanha, os países mais atrasados da Europa do ponto de vista científico e técnico, reproduziram na América modelos cheios de problemas e vícios. O mais trágico é que a cultura que herdamos é estática, enquanto as outras, da Europa Central e anglo-saxônica, vão em direção ao futuro, buscam mudanças. Seguimos olhando para o passado, ao passo que os outros olham para a frente.

Veja – Como se explica que Haiti, Suriname e Jamaica, colonizados por França, Holanda e Inglaterra, estejam entre os mais atrasados?
Montaner –
Nesses lugares as potências coloniais não realizaram a colonização com europeus. Por isso não conseguiram reproduzir o modelo de civilização que tinham na Europa. Isso só foi conseguido na Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos e Canadá, onde a colonização foi realizada com pessoas que traziam valores e cultura semelhantes aos deixados na Europa. O importante é que as pessoas são portadoras de valores, mas eles mudam. Por isso não estamos condenados para sempre ao subdesenvolvimento.

Veja – O senhor acredita que há uma cultura do atraso na América Latina?
Montaner –
Nunca tivemos uma visão de que progresso significa conforto para uma maior parcela das massas. Somos uma cultura estática, univocamente convencida de que devemos repartir a riqueza existente, e não que devemos criar riqueza incessantemente. Essa forma estática de ver a realidade é a maior responsável por essa cultura da pobreza.

Veja – Isso ocorre também em outros continentes?
Montaner –
No processo de homogeneização do mundo, a Ásia é o continente subdesenvolvido que caminha mais rápido. Países como Cingapura, Coréia do Sul e Japão estão mais próximos do mundo desenvolvido que nós. O caso da África é mais trágico porque lá se estão apagando os poucos vestígios da onda civilizatória européia. Mas, de qualquer forma, Ásia e África nunca fizeram parte do mundo ocidental.

Veja – Mas a América Latina está inserida no mundo ocidental.
Montaner –
O paradoxo da América Latina é que ela faz parte do mundo ocidental e segue sendo sua parte mais pobre. Isso acontece porque ela procurou uma espécie de excentricidade, terceiras vias, em vez de alimentar o desejo de se tornar parte do mundo ao qual pertence desde o início da colonização. Espanha e Portugal, que sempre foram potências excêntricas, finalmente aceitaram sua condição de países ocidentais e conseguiram diminuir a diferença que os separava do resto da Europa. Esse é o salto que temos de dar. O problema é que, quando parece que estamos quase dando esse salto, recomeçam as histórias absurdas. Vem um sujeito como o Hugo Chávez, da Venezuela, que volta a falar em excentricidade, que recoloca o tema das terceiras vias.

Veja – O senhor escreveu um livro chamado Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano. Quem é o perfeito idiota latino-americano?
Montaner –
Os perfeitos idiotas são os que insistem em formas de desenvolvimento que já foram desacreditadas na prática. São os que repetem a "teoria da dependência", os que embarcam em campanhas antiocidentais, os que pediram a mão dura dos militares e ditadores. Os idiotas são aqueles que não aprenderam com a experiência de um século de fracassos na América Latina. Foi por isso que disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso era um ex-idiota e agora é um homem curado por completo.

Veja – Por que o senhor responsabiliza a esquerda pelo atraso no continente?
Montaner –
Quando as esquerdas estiveram no poder na América Latina foi um desastre, caso da Nicarágua, de Cuba, de Velasco Alvarado no Peru. Há ainda uma zona fascistóide onde esquerda e direita se confundem, como Perón, na Argentina, e Chávez, na Venezuela. Quando as esquerdas adotam o caminho da violência também fazem estragos terríveis, como as guerrilhas colombiana e mexicana.

Veja – Mas o senhor não acredita que haja uma esquerda progressista?
Montaner –
As melhores esquerdas do mundo são aquelas que deixaram de ser esquerdas, como Tony Blair, na Inglaterra. Quando alguém abandona a luta de classes e a mentalidade antimercado e se converte em um amante do estado de direito já não é mais de esquerda.

Veja – Saúde e educação, bandeiras geralmente defendidas pela esquerda, não são boas idéias?
Montaner –
A sociedade deve se ocupar da formação das pessoas de uma maneira que ainda não fez. Se quisermos competir com o Primeiro Mundo, não podemos pensar em uma população doente ou desnutrida. O problema é que a esquerda quer fazer isso por meio do Estado, mesmo depois de constatar o desastre de nossos sistemas estatais de educação e saúde. Esse papel cabe à sociedade civil. Hoje, as escolas particulares dão um banho nas públicas. O que temos de fazer é ajudar os pobres a se educarem em escolas privadas.

Veja – Mas como uma família de baixa renda vai mandar seu filho para estudar em uma escola paga?
Montaner –
Primeiro temos de descentralizar o sistema de ensino público, entregar as escolas aos pais, alunos e professores. Que sejam eles os responsáveis pelo que se ensina e como se ensina. Isso está sendo feito no Chile e na Nicarágua. O governo entrega os recursos diretamente aos pais para que eles decidam onde aplicar o dinheiro.

Veja – Mas educação e saúde não são funções do Estado?
Montaner –
A função mais importante do Estado é promover a justiça. A chave de um Estado moderno está no Poder Judiciário. Se não houver uma Justiça rápida e justa, as pessoas nunca vão confiar nas instituições do Estado. Depois, em um patamar inferior, vêm outras coisas como saúde e educação.

Veja – Qual deve ser o tamanho do Estado?
Montaner –
Depende das necessidades da sociedade. Ela tem de definir qual é o Estado suficiente, mas o peso das responsabilidades deve recair sobre a sociedade civil, e não sobre a burocracia estatal, porque aí seria mortal.

Veja – Que país latino-americano tem futuro?
Montaner –
O Chile é o país com melhores condições de alcançar o grau de desenvolvimento do Primeiro Mundo. Se não houver tropeço algum, em dez ou quinze anos eles terão índices parecidos com os de países da Europa Ocidental e Estados Unidos. O maior perigo é uma radicalização da sociedade, que pode ocorrer em caso de condenação do general Pinochet. O processo de transição das ditaduras para as democracias foi muito malfeito na América Latina. Deveríamos ter seguido o exemplo da Europa comunista. Lá, a solução não foi nenhuma anistia, mas amnésia mesmo. Temos de esquecer completamente o passado. É verdade que o regime de Pinochet matou milhares de pessoas, mas foi ele também quem realizou a transição para a democracia e ainda representa quase a metade do eleitorado chileno.

Veja – A eleição de Vicente Fox muda alguma coisa no México?
Montaner –
Acho que os mexicanos deram um basta ao Partido Revolucionário Institucional, PRI, nessas eleições. Mas a origem de Fox é também conservadora e, internamente, não deve mudar muita coisa. O que vai mudar mesmo é a política externa. O México vai olhar mais para o sul e esquecer um pouco os Estados Unidos e o Canadá. Deve ser mais atuante e se voltar mais para a América Latina, coisa que também deveria fazer o Brasil.

Veja – Por que o Brasil deveria voltar-se para a América Latina?
Montaner –
O Brasil virou as costas para o continente. Por exemplo, todos os anos em Genebra se discute o tema da violação dos direitos humanos na América Latina. O que faz o Brasil? Se abstém. A diplomacia brasileira sempre foi indiferente. Um país do tamanho do Brasil não pode ter essa atitude. O ideal seria formar uma aliança com México e Argentina para defender a democracia no continente, sobretudo agora que está em perigo potencial com Chávez e Fujimori. A pessoa do presidente Fernando Henrique até que me agrada, mas acho que falta liderança nesse sentido. Com relação à política interna, acho Fernando Henrique uma opção melhor que Lula, mas gostaria que fosse mais decidido em favor do mercado e da democracia.

Veja – O que o senhor acha do embargo americano a Cuba?
Montaner –
O embargo, na prática, não funciona. O principal suporte do regime cubano são os exilados que mandam remessas de 800 milhões de dólares por ano à ilha. Com ou sem embargo, a situação de Cuba seria a mesma. Acho que deveriam levantar o embargo com a condição de que os cubanos possam ter acesso à propriedade, fazer investimentos, desenvolver suas pequenas empresas. O embargo serve a Fidel como um pretexto.

Veja – Até quando dura o castrismo?
Montaner –
Infelizmente até a morte de Fidel.

Veja – Por que Fidel está durando tanto?
Montaner –
O histórico das ditaduras latino-americanas é de longevidade. Castro tem apoio de 20% da população, o suficiente para mantê-lo no poder. O restante do povo vive entre o medo e a indiferença. Nenhuma população no mundo comunista liquidou o regime de forma violenta. O país que chegou mais próximo disso foi a Romênia, mas mesmo assim não foi o povo e sim as Forças Armadas.

Veja – O senhor acredita que Cuba ganhou alguma coisa com Fidel?
Montaner –
O maior avanço se deu na educação. Em uma população de 11 milhões de habitantes, Cuba tem quase 700 000 pessoas com curso superior. Isso prova apenas que o sistema não funciona. Com um capital humano dessa natureza, como o país pode estar cada vez mais pobre? Cuba também avançou no sistema de saúde. O que está errado é que lá há um médico para cada 165 habitantes. Na Dinamarca, o país com o melhor sistema de saúde do mundo, a proporção é de um médico para 350 habitantes. Para que um médico para cada 165 habitantes? Fidel tem mania de formar médicos e criar escolas de medicina. O que quero dizer com isso é que em Cuba as decisões são burocráticas e arbitrárias. Isso não ajuda a melhorar o sistema de saúde.

Veja – O que será de Cuba depois de Fidel?
Montaner –
Num prazo de dez anos, deve estar entre os quatro países mais desenvolvidos da América Latina. Os cubanos teriam uma ajuda enorme dos Estados Unidos para que a economia se levantasse, não por razões humanitárias, mas para evitar uma onda migratória para os Estados Unidos.

Veja – Como o senhor analisa a nova onda de autoritarismo na América do Sul?
Montaner –
Vejo com preocupação que esses novos ditadores como Alberto Fujimori, no Peru, e Hugo Chávez, na Venezuela, estejam buscando nos mecanismos democráticos uma justificativa para a ditadura e para desmontar o estado de direito. Tudo isso serve para prostituir a democracia e passar uma idéia de que ela não funciona na América Latina. As pessoas não acreditam nas instituições porque elas nunca funcionaram adequadamente. Quando ocorre um desgaste do sistema recorre-se sempre a um homem forte que ajeite as coisas, um caudilho.

Veja – Fujimori não foi uma boa solução para o Peru?
Montaner –
Fujimori terminou com as guerrilhas e acabou com a desordem econômica que reinava em governos anteriores. No aspecto macroeconômico, o Peru está muito melhor que há dez anos. Mas Fujimori acabou com os partidos políticos, destruiu as instituições sobre as quais se sustentam o estado de direito, destruiu o poder policial, corrompeu o Poder Legislativo e transformou a Presidência no único órgão de governo com certa respeitabilidade. Atualmente acho que entre prós e contras os contras são mais graves.

Veja – A América Latina tem saída?
Montaner –
Tem de crescer. Continuar com essa política distributiva sem crescimento econômico não adianta nada. Com o crescimento do PIB se começa a eliminar a pobreza.

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco