De olho no
retrovisor
O escritor diz que a América Latina não
progride porque olha para trás e
quer trilhar caminhos alternativos
Cristiano
Dias
O
escritor Carlos Alberto Montaner, 57 anos, é um latino-americano
que adora falar mal de latino-americanos. Motivos para isso ele
tem. Nascido em Cuba, de lá saiu fugido aos 18 anos para
escapar de uma condenação a dezoito anos de prisão
por ter organizado uma greve estudantil. Ao contrário de
seus compatriotas que se refugiaram em Miami, Montaner não
se resignou a viver como uma minoria de indesejados nos Estados
Unidos e mudou-se para a Espanha. Mas ele não critica os
latino-americanos por despeito ou vingança. Autor do Manual
do Perfeito Idiota Latino-Americano, ele se dedica a combater
o que chama de cultura do atraso que mantém o continente
na rabeira do desenvolvimento e da civilização do
mundo ocidental. De Cuba, a parte que lhe toca mais diretamente
na América Latina, ele espera só o fim do ditador
Fidel Castro, para voltar a participar da reconstrução
do país. Formado em literatura pela Universidade de Miami,
trocou a carreira de professor pela de escritor. Além do
Manual... já escreveu mais de uma dezena de outros
títulos e publica uma coluna semanal nos principais jornais
da América Latina. Casado, pai de dois filhos, vive entre
sua casa em Madri e sua editora em Miami, de onde deu esta entrevista,
por telefone, a VEJA:
Veja
Por que a América Latina é mais atrasada
que outros continentes, com exceção da África?
Montaner A causa mais importante está em nossa
própria história. Trazemos a visão econômica,
a cultura e a educação distorcida e atrasada de
Portugal e Espanha, potências européias que criaram
a América Latina. Portugal e Espanha, os países
mais atrasados da Europa do ponto de vista científico e
técnico, reproduziram na América modelos cheios
de problemas e vícios. O mais trágico é que
a cultura que herdamos é estática, enquanto as outras,
da Europa Central e anglo-saxônica, vão em direção
ao futuro, buscam mudanças. Seguimos olhando para o passado,
ao passo que os outros olham para a frente.
Veja
Como se explica que Haiti, Suriname e Jamaica, colonizados
por França, Holanda e Inglaterra, estejam entre os mais
atrasados?
Montaner Nesses lugares as potências coloniais
não realizaram a colonização com europeus.
Por isso não conseguiram reproduzir o modelo de civilização
que tinham na Europa. Isso só foi conseguido na Austrália,
Nova Zelândia, Estados Unidos e Canadá, onde a colonização
foi realizada com pessoas que traziam valores e cultura semelhantes
aos deixados na Europa. O importante é que as pessoas são
portadoras de valores, mas eles mudam. Por isso não estamos
condenados para sempre ao subdesenvolvimento.
Veja O senhor acredita que há uma cultura
do atraso na América Latina?
Montaner Nunca tivemos uma visão de que progresso
significa conforto para uma maior parcela das massas. Somos uma
cultura estática, univocamente convencida de que devemos
repartir a riqueza existente, e não que devemos criar riqueza
incessantemente. Essa forma estática de ver a realidade
é a maior responsável por essa cultura da pobreza.
Veja
Isso ocorre também em outros continentes?
Montaner No processo de homogeneização
do mundo, a Ásia é o continente subdesenvolvido
que caminha mais rápido. Países como Cingapura,
Coréia do Sul e Japão estão mais próximos
do mundo desenvolvido que nós. O caso da África
é mais trágico porque lá se estão
apagando os poucos vestígios da onda civilizatória
européia. Mas, de qualquer forma, Ásia e África
nunca fizeram parte do mundo ocidental.
Veja
Mas a América Latina está inserida no
mundo ocidental.
Montaner O paradoxo da América Latina é
que ela faz parte do mundo ocidental e segue sendo sua parte mais
pobre. Isso acontece porque ela procurou uma espécie de
excentricidade, terceiras vias, em vez de alimentar o desejo de
se tornar parte do mundo ao qual pertence desde o início
da colonização. Espanha e Portugal, que sempre foram
potências excêntricas, finalmente aceitaram sua condição
de países ocidentais e conseguiram diminuir a diferença
que os separava do resto da Europa. Esse é o salto que
temos de dar. O problema é que, quando parece que estamos
quase dando esse salto, recomeçam as histórias absurdas.
Vem um sujeito como o Hugo Chávez, da Venezuela, que volta
a falar em excentricidade, que recoloca o tema das terceiras vias.
Veja
O senhor escreveu um livro chamado Manual do Perfeito
Idiota Latino-Americano. Quem é o perfeito idiota latino-americano?
Montaner Os perfeitos idiotas são os que insistem
em formas de desenvolvimento que já foram desacreditadas
na prática. São os que repetem a "teoria da dependência",
os que embarcam em campanhas antiocidentais, os que pediram a
mão dura dos militares e ditadores. Os idiotas são
aqueles que não aprenderam com a experiência de um
século de fracassos na América Latina. Foi por isso
que disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso era um ex-idiota
e agora é um homem curado por completo.
Veja Por que o senhor responsabiliza a esquerda pelo
atraso no continente?
Montaner Quando as esquerdas estiveram no poder
na América Latina foi um desastre, caso da Nicarágua,
de Cuba, de Velasco Alvarado no Peru. Há ainda uma zona
fascistóide onde esquerda e direita se confundem, como
Perón, na Argentina, e Chávez, na Venezuela. Quando
as esquerdas adotam o caminho da violência também
fazem estragos terríveis, como as guerrilhas colombiana
e mexicana.
Veja
Mas o senhor não acredita que haja uma esquerda
progressista?
Montaner As melhores esquerdas do mundo são
aquelas que deixaram de ser esquerdas, como Tony Blair, na Inglaterra.
Quando alguém abandona a luta de classes e a mentalidade
antimercado e se converte em um amante do estado de direito já
não é mais de esquerda.
Veja
Saúde e educação, bandeiras geralmente
defendidas pela esquerda, não são boas idéias?
Montaner A sociedade deve se ocupar da formação
das pessoas de uma maneira que ainda não fez. Se quisermos
competir com o Primeiro Mundo, não podemos pensar em uma
população doente ou desnutrida. O problema é
que a esquerda quer fazer isso por meio do Estado, mesmo depois
de constatar o desastre de nossos sistemas estatais de educação
e saúde. Esse papel cabe à sociedade civil. Hoje,
as escolas particulares dão um banho nas públicas.
O que temos de fazer é ajudar os pobres a se educarem em
escolas privadas.
Veja
Mas como uma família de baixa renda vai mandar
seu filho para estudar em uma escola paga?
Montaner Primeiro temos de descentralizar o sistema
de ensino público, entregar as escolas aos pais, alunos
e professores. Que sejam eles os responsáveis pelo que
se ensina e como se ensina. Isso está sendo feito no Chile
e na Nicarágua. O governo entrega os recursos diretamente
aos pais para que eles decidam onde aplicar o dinheiro.
Veja
Mas educação e saúde não
são funções do Estado?
Montaner A função mais importante do
Estado é promover a justiça. A chave de um Estado
moderno está no Poder Judiciário. Se não
houver uma Justiça rápida e justa, as pessoas nunca
vão confiar nas instituições do Estado. Depois,
em um patamar inferior, vêm outras coisas como saúde
e educação.
Veja
Qual deve ser o tamanho do Estado?
Montaner Depende das necessidades da sociedade. Ela
tem de definir qual é o Estado suficiente, mas o peso das
responsabilidades deve recair sobre a sociedade civil, e não
sobre a burocracia estatal, porque aí seria mortal.
Veja
Que país latino-americano tem futuro?
Montaner O Chile é o país com melhores
condições de alcançar o grau de desenvolvimento
do Primeiro Mundo. Se não houver tropeço algum,
em dez ou quinze anos eles terão índices parecidos
com os de países da Europa Ocidental e Estados Unidos.
O maior perigo é uma radicalização da sociedade,
que pode ocorrer em caso de condenação do general
Pinochet. O processo de transição das ditaduras
para as democracias foi muito malfeito na América Latina.
Deveríamos ter seguido o exemplo da Europa comunista. Lá,
a solução não foi nenhuma anistia, mas amnésia
mesmo. Temos de esquecer completamente o passado. É verdade
que o regime de Pinochet matou milhares de pessoas, mas foi ele
também quem realizou a transição para a democracia
e ainda representa quase a metade do eleitorado chileno.
Veja
A eleição de Vicente Fox muda alguma coisa
no México?
Montaner Acho que os mexicanos deram um basta
ao Partido Revolucionário Institucional, PRI, nessas eleições.
Mas a origem de Fox é também conservadora e, internamente,
não deve mudar muita coisa. O que vai mudar mesmo é
a política externa. O México vai olhar mais para
o sul e esquecer um pouco os Estados Unidos e o Canadá.
Deve ser mais atuante e se voltar mais para a América Latina,
coisa que também deveria fazer o Brasil.
Veja
Por que o Brasil deveria voltar-se para a América
Latina?
Montaner O Brasil virou as costas para o continente.
Por exemplo, todos os anos em Genebra se discute o tema da violação
dos direitos humanos na América Latina. O que faz o Brasil?
Se abstém. A diplomacia brasileira sempre foi indiferente.
Um país do tamanho do Brasil não pode ter essa atitude.
O ideal seria formar uma aliança com México e Argentina
para defender a democracia no continente, sobretudo agora que
está em perigo potencial com Chávez e Fujimori.
A pessoa do presidente Fernando Henrique até que me agrada,
mas acho que falta liderança nesse sentido. Com relação
à política interna, acho Fernando Henrique uma opção
melhor que Lula, mas gostaria que fosse mais decidido em favor
do mercado e da democracia.
Veja
O que o senhor acha do embargo americano a Cuba?
Montaner O embargo, na prática, não
funciona. O principal suporte do regime cubano são os exilados
que mandam remessas de 800 milhões de dólares por
ano à ilha. Com ou sem embargo, a situação
de Cuba seria a mesma. Acho que deveriam levantar o embargo com
a condição de que os cubanos possam ter acesso à
propriedade, fazer investimentos, desenvolver suas pequenas empresas.
O embargo serve a Fidel como um pretexto.
Veja
Até quando dura o castrismo?
Montaner Infelizmente até a morte de Fidel.
Veja Por que Fidel está durando tanto?
Montaner O histórico das ditaduras latino-americanas
é de longevidade. Castro tem apoio de 20% da população,
o suficiente para mantê-lo no poder. O restante do povo
vive entre o medo e a indiferença. Nenhuma população
no mundo comunista liquidou o regime de forma violenta. O país
que chegou mais próximo disso foi a Romênia, mas
mesmo assim não foi o povo e sim as Forças Armadas.
Veja
O senhor acredita que Cuba ganhou alguma coisa com Fidel?
Montaner O maior avanço se deu na educação.
Em uma população de 11 milhões de habitantes,
Cuba tem quase 700 000 pessoas com curso superior. Isso prova
apenas que o sistema não funciona. Com um capital humano
dessa natureza, como o país pode estar cada vez mais pobre?
Cuba também avançou no sistema de saúde.
O que está errado é que lá há um médico
para cada 165 habitantes. Na Dinamarca, o país com o melhor
sistema de saúde do mundo, a proporção é
de um médico para 350 habitantes. Para que um médico
para cada 165 habitantes? Fidel tem mania de formar médicos
e criar escolas de medicina. O que quero dizer com isso é
que em Cuba as decisões são burocráticas
e arbitrárias. Isso não ajuda a melhorar o sistema
de saúde.
Veja
O que será de Cuba depois de Fidel?
Montaner Num prazo de dez anos, deve estar entre os
quatro países mais desenvolvidos da América Latina.
Os cubanos teriam uma ajuda enorme dos Estados Unidos para que
a economia se levantasse, não por razões humanitárias,
mas para evitar uma onda migratória para os Estados Unidos.
Veja
Como o senhor analisa a nova onda de autoritarismo na
América do Sul?
Montaner Vejo com preocupação que esses
novos ditadores como Alberto Fujimori, no Peru, e Hugo Chávez,
na Venezuela, estejam buscando nos mecanismos democráticos
uma justificativa para a ditadura e para desmontar o estado de
direito. Tudo isso serve para prostituir a democracia e passar
uma idéia de que ela não funciona na América
Latina. As pessoas não acreditam nas instituições
porque elas nunca funcionaram adequadamente. Quando ocorre um
desgaste do sistema recorre-se sempre a um homem forte que ajeite
as coisas, um caudilho.
Veja
Fujimori não foi uma boa solução
para o Peru?
Montaner Fujimori terminou com as guerrilhas e
acabou com a desordem econômica que reinava em governos
anteriores. No aspecto macroeconômico, o Peru está
muito melhor que há dez anos. Mas Fujimori acabou com os
partidos políticos, destruiu as instituições
sobre as quais se sustentam o estado de direito, destruiu o poder
policial, corrompeu o Poder Legislativo e transformou a Presidência
no único órgão de governo com certa respeitabilidade.
Atualmente acho que entre prós e contras os contras são
mais graves.
Veja
A América Latina tem saída?
Montaner Tem de crescer. Continuar com essa política
distributiva sem crescimento econômico não adianta
nada. Com o crescimento do PIB se começa a eliminar a pobreza.