Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
Um desafio
cotidiano
"A
democratização o avanço rumo
a um regime cada vez mais
inclusivo, mais representativo, mais justo e mais legítimo
não é apenas mais uma demanda dos governantes
ou das elites, mas uma obrigação cívica
de todos nós"
Ilustração Ale Setti
 |
Recentemente me pediram para discutir os desafios políticos
que o Brasil tem pela frente. Minha primeira dúvida foi
se eles seriam diferentes dos de ontem. Os problemas talvez sejam
os mesmos, o país é que mudou e reúne hoje
mais condições para enfrentá-los que no passado.
A síntese de minhas conclusões é que precisamos
prosseguir no processo de democratização do país.
Sou da geração que luta, desde a idade escolar,
pela democracia. Quando tomei consciência de mim, como pessoa
autônoma e como parte da comunidade, estávamos sob
a tutela militar. Sei quanto avançamos. Kant dizia que
a busca do conhecimento não tem fim. A busca da democracia
também não. Na prática, democracia, como
um ponto final que uma vez atingido nos deixa satisfeitos e por
isso decretamos o fim da política, não existe. Existe
é democratização, o avanço rumo a
um regime cada vez mais inclusivo, mais representativo, mais justo
e mais legítimo. E quais as condições objetivas
para tornar sustentável esse movimento de democratização
crescente?
Embora exista forte correlação entre desenvolvimento
e democracia, as condições mais gerais para sua
sustentação vão além dela. O grau
de legitimidade histórica, de mobilidade social, o tipo
de conflitos existentes na sociedade, a capacidade institucional
para incorporar gradualmente as forças emergentes e o desempenho
efetivo dos governos são elementos cruciais na sustentação
da democracia no longo prazo.
Mas a coincidência entre desenvolvimento humano (IDH
índice de desenvolvimento humano, calculado pela ONU) e
democracia é inegável. Um estudo de 152 países
encontrou 77% dos regimes autoritários em sociedades de
baixo desenvolvimento humano. Não encontrou uma única
sociedade com IDH alto e ordem política autoritária.
Inversamente, 71% das democracias liberais estavam em países
de elevado IDH e 21% em países com IDH médio alto.
As democracias pluralistas parcialmente institucionalizadas estão
concentradas nos grupos de países de IDH médio alto,
52%, e médio, 32%.
Nossa democracia emergente não tem legitimidade histórica.
Esse requisito nos falta e só o alcançaremos no
decorrer do processo de aprofundamento da democracia, que também
é de legitimação dela. Por isso, entre nós,
as falhas do regime democrático sempre criam o risco de
uma crise de legitimidade. Para não produzir uma crescente
"fadiga cívica" nos cidadãos, a democracia precisa
de fato estar correlacionada à elevação do
bem-estar.
A vida brasileira ainda é muito pouco democrática.
As agências de socialização, entre as quais
a escola é a mais importante, desprezam a tarefa de promover
e propagar os valores democráticos. Igreja e família
também não os cultivam, nem disseminam. A televisão,
que tem grande importância na formação das
crianças e da juventude, tampouco se mostra comprometida
com a afirmação dos valores da convivência
democrática e com o primado da liberdade em nosso dia-a-dia.
O cotidiano brasileiro tem pouca democracia: nas organizações,
no trabalho, nas relações comunitárias e
de vizinhança, na vida associativa. E não é
mais possível separar o espaço público de
nossa prática privada ou das instituições
em que estudamos ou trabalhamos.
O aprofundamento e enraizamento da democracia dependem da democratização
de nosso cotidiano. Uma parte importante desse processo tem a
ver com as relações rotineiras entre o poder público
e os cidadãos. Qualquer flagrante da rotina desse relacionamento
arrisca capturar cenas explícitas de desrespeito e pequenas
ou grandes tiranias. As regras dessa relação não
estão claras. Não existem mecanismos acessíveis
de reclamação e desagravo. Toda agência pública
deveria ter um ombudsman, um ouvidor-corregedor, trabalhando internamente
a favor do cidadão.
Mas as relações entre marido e mulher, entre pais
e filhos, entre professores e alunos, entre patrões e empregados
também são pouco democráticas.
Olhando assim, a democratização deixa de ser apenas
mais uma demanda dos governantes ou das elites e passa a ser uma
obrigação cívica de todos nós.