O ENIGMA LEONARDO

Exibicionista, fabulador e maníaco, o professor
é agora o suspeito número 1 da bomba da TAM

Sérgio Ruiz Luz e Valéria França

O professor desempregado Leonardo Teodoro de Castro, 58 anos, está preso a uma cama na UTI do Hospital São Paulo, na capital paulista, desde que foi atropelado por um ônibus, no dia 12. Inconsciente, correndo sério risco de vida, ele respira apenas com a ajuda de aparelhos. Com um pulmão perfurado e traumatismos craniano e torácico, Leonardo não apresentou nenhuma melhora desde que foi internado. Por causa dele, o hospital vem sendo submetido a uma rotina inusitada. Pelos corredores, além dos médicos e enfermeiras metidos em seus jalecos brancos, circulam homens parrudos vestindo os coletes negros que identificam os agentes da Polícia Federal. Armados, falando incessantemente em seus walkie-talkies, eles estão ali porque, desde a semana passada, Leonardo é o principal suspeito da explosão que abriu um rombo de 4 metros quadrados na fuselagem do Fokker 100 da TAM que voava de São José dos Campos para São Paulo e arremessou para a morte o engenheiro Fernando de Moura.

Os passageiros após a explosão no vôo 283
Foto: Rogelio Silva  

Leonardo não é o único suspeito. Desde o início das apurações a Polícia Federal pediu à Justiça três mandados de busca e apreensão, para procurar pistas sobre a causa da explosão. Mesmo funcionários da manutenção da TAM estão sendo investigados. Sobre Leonardo, os policiais já levantaram uma série de indícios. Alguns deles, perturbadores. Em apenas uma semana, o professor ficou gravemente ferido e quase morreu duas vezes. A primeira no avião da TAM. A segunda no sábado seguinte, quando foi atropelado por um ônibus em circunstâncias estranhíssimas. Coincidentemente, a polícia descobriu que o desastrado professor possuía treze apólices de seguro de vida. VEJA teve acesso a uma delas, feita pela Caixa Econômica Federal em dezembro de 1996, que tinha validade de apenas um ano e previa pagamento de 10.000 reais por morte ou invalidez em caso de acidente.

O depoimento que Leonardo havia dado à Polícia Federal no dia seguinte ao acidente da TAM, ainda na condição de simples testemunha, não ajudou. Confuso, atrapalhado, o professor inventou uma história fantasiosa para responder à corriqueira pergunta "o que você tinha ido fazer em São José dos Campos?" Leonardo disse que havia viajado para entregar um currículo na Embraer, onde pleiteava um emprego. Segundo sua versão, teria pernoitado na cidade, mas na manhã seguinte se deu conta de que faltavam alguns dados na papelada. Teria, então, tomado o avião para buscar a documentação completa e entregá-la na empresa. O problema é que Leonardo não lembrava o nome do hotel onde ficou hospedado. E na Embraer, ninguém o viu. Depois do depoimento, em conversa informal com o delegado Pedro Sarzi, contou uma história ainda menos plausível -- teria feito a viagem no mesmo dia, indo de ônibus e voltando de avião. Só que seu embarque no vôo da TAM aconteceu às 7h30 da manhã, e antes disso poucas empresas além de padarias e bancas de jornal costumam abrir suas portas.

Desconfiando de tanta confusão, a PF vasculhou o apartamento de Leonardo e saiu de lá com uma caixa cheia de objetos apreendidos. "Encontramos algumas substâncias químicas, mas ainda não somos capazes de dizer do que se trata", diz um delegado da Polícia Federal. Entre os pertences, encontrou-se um bilhete que especificava a quem deveriam ser entregues alguns dos objetos pessoais do professor, no caso "da minha falta", conforme está escrito. Desde o desastre do vôo 283, a equipe de investigação recolheu centenas de quilos de destroços do avião, analisou dezenas de amostras retiradas do local da explosão, tomou depoimentos e pesquisou a vida pregressa de passageiros. De todo esse trabalho, para os peritos, surgiu uma certeza: o estrondo que sacudiu o avião da TAM não foi causado por uma falha estrutural no avião ou pela explosão de uma bateria de telefone celular, um absurdo que se chegou a divulgar. O que aconteceu ali, em cima da poltrona 18-D, foi uma explosão causada pela detonação de uma bomba. Mais exatamente, uma bomba feita com nitrato de amônia, uma substância que é usada como explosivo em pedreiras, mas que também pode ser comprada livremente até em lojas de ferragens. Quem poderia ter levado para dentro do avião um pacote cheio de material explosivo, e por quê? No início da investigação a suspeita havia caído sobre a única vítima do acidente, o engenheiro Fernando Caldeira de Moura, simplesmente porque estava sentado na poltrona vizinha àquela que foi pelos ares. Nos dias seguintes, porém, as histórias estranhas de Leonardo fizeram com que os olhos da polícia se dirigissem para ele. A entrada de Leonardo no caso TAM contribuiu para que esse acidente se tornasse ainda mais bizarro do que já parecia. O desastre ocorreu com uma empresa envolvida na queda de um Fokker 100, oito meses antes, com a morte de 99 pessoas. Isso já seria incomum. No último acidente, um rombo de 4 metros quadrados na fuselagem foi incapaz de derrubar o avião -- mas conseguiu sugar para fora um único passageiro, que, seria descoberto depois, era sócio de uma pedreira onde se usavam explosivos. Agora, entra em cena a figura misteriosa de Leonardo, com sua história absurda e uma vida cheia de detalhes inacreditáveis, que só na semana passada começaram a ser conhecidos. Até ser internado, Leonardo morava num apartamento de dois quartos no Condomínio Ouro Velho, de propriedade da família, em Vila Olímpia, um bairro de classe média de São Paulo.

Depois que foi apontado como suspeito número 1 da Polícia Federal, a vizinhança não teve dificuldade em lembrar uma lista de histórias estranhas a respeito do morador do apartamento 94. "Ele é um sujeito esquisito, ansioso, sai andando sem terminar a conversa e fica dias fechado dentro de casa", lembra o vizinho do andar de cima, o empreiteiro Dagoberto Jurverson. Leonardo, que morava no prédio havia cerca de três anos, ficou conhecido por atitudes ranzinzas, como cutucar com uma vassoura o teto do apartamento para que os três filhos de Dagoberto parassem de fazer barulho às 7 da noite. "Quando ele ligava pelo interfone para falar sobre uma infiltração de água no teto, apresentava-se como um sobrinho ou outro parente qualquer do Leonardo, mas todo mundo sabia que era ele", conta Dagoberto.

"O que há de mais anormal são as cerca de trinta caixas de papelão que dividem a sala do apartamento dele", lembra o encanador José Carlos Sinigalia, que atende os 72 apartamentos do edifício de dezoito andares. As tais caixas, que estão lá há mais de um ano, desde que ele morava com uma irmã, de nome Aurora, formam uma divisória de 2 metros de altura e servem de base para a televisão da sala. "O velho estabeleceu que cada um teria um espaço determinado para circular pela casa", conta. "E se a irmã passasse pelo lado reservado para ele, o Leonardo brigava", lembra Sinigalia, que acompanhou a rotina dos irmãos durante alguns dias.

Condomínio Ouro Velho, onde mora Leonardo: apartamento sem mobília e vassouradas no teto para reclamar das crianças do vizinho
  Foto: Egberto Nogueira

O Leonardo calado e reservado do prédio da Zona Sul quase não tem semelhança com o Leonardo descrito por vizinhos seus na Zona Oeste de São Paulo, onde morou na sobreloja de um bar, por sete anos. Na época, trabalhava como professor no Serviço Nacional da Indústria. Era comum que aparecesse no terraço de sua casa, de frente para a rua ou no quintal que dava fundos para um prédio, vestido apenas com um camisão. "Quando passava uma mulher por perto, ele dava um gritinho, levantava o camisão e se via que estava nu", lembra a dona de casa Ivete Kobayashi, de 43 anos. Leonardo arrumou muita confusão no bairro. Deixou mães zelosas e maridos ciumentos em estado de fúria. Num dos episódios, levou uma surra por ter mostrado o órgão sexual a uma menina de apenas 10 anos que passava na frente da sua casa. "Bati nele, mas isso não resolveu o problema. Ele continuou perturbando a vizinhança", diz outra dona de casa. Por isso, ela o atacou uma segunda vez. Os dois rolaram no chão e foram parar na delegacia. "Mas o delegado não acreditou que ele era tarado", conta a ex-vizinha.

A tese do Leonardo mentalmente desequilibrado foi reforçada pelo incidente ocorrido na manhã do sábado 12 no cruzamento de duas avenidas movimentadas na Zona Sul de São Paulo. Ao atravessar a rua, Leonardo foi atingido por um ônibus dirigido pelo motorista Albino Gonçalves das Graças. Foi abalroado pelo canto esquerdo do ônibus, exatamente no lugar onde fica o motorista, e arremessado a uma distância de 4 metros, batendo a cabeça e as costas no canteiro central da avenida. "Ele surgiu do nada, de repente", diz o motorista. A polícia não descarta a hipótese de que o professor teria tentado se matar, mas até agora não há elementos para concluir o que aconteceu exatamente.

Foi só depois de ter concluído que havia esquisitices em excesso nas histórias e na vida de Leonardo que a polícia tentou recapitular com mais detalhes seu comportamento no avião. Um detalhe prejudicou esse levantamento: pouca gente se deu conta do professor até o momento da explosão. Ele fez o check-in às 7h30 da manhã, em São José dos Campos, portando apenas bagagem de mão. Recebeu um cartão de embarque que marcava lugar na poltrona 3C, mas preferiu sentar-se no fundo da aeronave. Depois do estrondo, os outros passageiros repararam naquele homem franzino, de cabelos grisalhos, que jazia caído no chão do avião. Além do engenheiro Fernando de Moura, que foi arremessado para fora do Fokker 100, Leonardo foi a única pessoa encontrada fora de sua poltrona logo após a explosão. Os peritos agora investigam a possibilidade de que ele tenha ido ao fundo do avião apenas para plantar a bomba.

A partir da análise dos pedaços do Fokker 100, os peritos do Instituto de Criminalística da Polícia Civil de São Paulo já concluíram que o explosivo usado para abrir um rombo na lataria do avião da TAM foi uma mistura de dois sais, o nitrato de amônia e o estifnato de chumbo. O resultado está num relatório que contém oitenta páginas e sessenta fotografias. Os peritos chegaram a essa conclusão após a análise dos resíduos químicos encontrados na roupa do engenheiro morto no acidente, nas poltronas do avião e em pedaços de metal da aeronave. Colhidas as amostras e comparadas com um banco de dados de substâncias, foram realizados sessenta testes com seis tipos diferentes de explosivo. As explosões eram feitas em portas metálicas de armários, posteriormente comparadas com os resíduos do avião. Por esse método, a polícia conseguiu reduzir gradualmente o espectro de explosivos, até que a prova definitiva surgiu através de uma observação visual. Num microscópio, os peritos identificaram num fragmento do avião microcristais de nitrato de amônia, o mesmo tipo de explosivo carregado pelo carro-bomba que matou 166 pessoas no atentado de Oklahoma, nos Estados Unidos, em 1995.

O nitrato de amônia é um sal facilmente encontrado no comércio, até mesmo em alguns supermercados. É um pó branco semelhante à farinha e tem duas utilidades. A primeira, descoberta há dois séculos na Europa, é adubar a terra, razão pela qual é vendido livremente. Diluído em água, é usado em plantações de hortaliças. Outra propriedade do nitrato de amônia é a explosiva. Sozinho não é inflamável, nem mesmo se for aquecido numa panela. "Mas, misturado a algumas outras substâncias, ele pega fogo. Pode, inclusive, servir como uma bomba de baixa eficiência", explica o professor José Atílio Vanin, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. É o que se chama de explosivo secundário, aquele que age sob a ação de outro produto químico. Esse é o estifnato de chumbo, um sal de coloração azul, sintetizado em laboratório, que só serve como explosivo. Sua venda é controlada pelo Ministério do Exército. Para acionar essa bomba, basta uma faísca. Como se vê, com algum conhecimento de química, cuidado no trato de material explosivo e acesso aos produtos certos, um leigo pode transformar o adubo numa bomba.

A bomba de nitrato de amônia e estifnato de chumbo é normalmente usada por pedreiras, construtoras e empresas de detonação. Os peritos do Instituto de Criminalística acreditam que a explosão abriu primeiro um rombo com apenas 30 centímetros de diâmetro na fuselagem. Segundos depois, o buraco expandiu-se pela força da descompressão e dos ventos, até chegar aos 4 metros quadrados. Por causa do deslocamento de um cinzeiro, que foi parar na parede oposta, os técnicos acreditam que a bomba poderia estar debaixo do braço ou sobre a poltrona. Para os peritos, continua sendo um mistério a forma como a bomba foi detonada. O composto pode ter explodido por controle remoto, por um sistema de detonação manual ou ainda por um mecanismo de tempo, uma espécie de bomba-relógio. O caso da explosão no jato da TAM ainda está cercado de dúvidas. Não está explicado, por exemplo, como Leonardo (ou outra pessoa) conseguiu colocar o artefato explosivo ao lado do engenheiro Fernando de Moura sem despertar suspeitas. Resta também aos investigadores determinar se Leonardo é o mentor da explosão ou apenas um Jorge Mirândola, o cidadão desequilibrado que foi equivocadamente acusado de um atentado ao Itamaraty em 1995. Meses depois de ter sido acusado, descobriu-se que o verdadeiro responsável era outro.

O mistério do vôo 800 da TWA

Há um ano, um Jumbo da companhia americana TWA explodiu no ar minutos depois de decolar do Aeroporto JFK, em Nova York, matando as 230 pessoas a bordo. Desde então, o FBI e a NTSB, a agência federal americana responsável pela segurança dos transportes, vêm conduzindo a mais ampla e a mais cara investigação de acidente aéreo nos Estados Unidos. Tirado do fundo do mar pedaço por pedaço, o Boeing 747 foi quase todo reconstituído. O FBI chegou a empregar até 700 agentes nas investigações, que no total consumirão cerca de 50 milhões de dólares. Até agora, contudo, ninguém sabe qual a causa da explosão que interrompeu tragicamente o vôo 800 da TWA com destino a Paris. A hipótese de atentado terrorista -- a bomba ou com um míssil terra-ar -- está praticamente descartada. Por via das dúvidas, um último teste será feito nestes dias com uma réplica do tanque de combustível do 747, numa base militar ao norte de Londres. O FBI detonará o tanque com explosivos idênticos aos usados por terroristas internacionais e em seguida comparará as ferragens com os pedaços do Jumbo. É improvável que haja semelhanças.

Depois disso, o FBI sairá de cena e o trabalho de apurar a causa da tragédia ficará apenas com a NTSB. Dirigida por Bernard Loeb, que desvendou a causa de quase todos os grandes desastres aéreos americanos dos últimos quinze anos, a NTSB aposta em quatro possibilidades, todas mecânicas, para o acidente. A preferida de Loeb, e quase um consenso entre muitos investigadores, é que a explosão foi causada por vapores de combustível acumulados no interior do tanque central do Boeing (localizado entre as duas asas) e detonados por uma faísca. A NTSB está tão segura dessa hipótese que já advertiu as autoridades americanas sobre a necessidade de modificar imediatamente os tanques de combustível de todos os 747 e de milhares de aeronaves similares -- sob pena de haver outras tragédias como a do vôo 800. O problema é que a outra agência federal americana incumbida da segurança dos vôos, a FAA (equivalente, no Brasil, ao Departamento de Aviação Civil), não está convencida da tese. Por isso, reluta em ordenar mudanças que acarretariam custos astronômicos para a indústria aeronáutica mundial.

A aviação comercial transportou, nas últimas três décadas e meia, 20 bilhões de passageiros em todo o mundo. As incertezas sobre as causas do acidente com o Jumbo da TWA trouxeram à baila uma questão inquietante: quais são os critérios de avaliação de segurança de vôo adotados pelas agências governamentais? A FAA, segundo denúncia de uma ex-diretora do Ministério dos Transportes, estipula o custo de uma vida humana em 2,7 milhões de dólares quando se trata de decidir, num cálculo de custo-benefício, se vale ou não a pena exigir modificações na estrutura dos aviões em operação no mundo. Tornar o tanque do 747 mais seguro, segundo essa conta cruel, superaria aquele valor. Maluquices desse gênero pintam com cores ainda mais sombrias o mistério do vôo 800. Para os parentes das vítimas, isso significa uma dose adicional de agonia. Para as pessoas que utilizam o avião como meio de transporte, significa ter de conviver com o temor de que, qualquer que tenha sido a causa da explosão do Jumbo, poderá acontecer de novo.

Com reportagem de Ana Pessoa, Daniel Nunes Gonçalves, Ferdinando
Casagrande, Glenda Mezarobba e Karina Pastore, de São Paulo,
e
Marcos Gusmão, de Belo Horizonte

Copyright © 1997, Abril S.A.