O diretor Breno Silveira, de 2
Filhos de Francisco, tem um caso de amor com os clichês.
E, antes que a observação soe maldosa, é
preciso dizer que ele os usa como uma espécie de proposta
artística, e quase sempre os usa muito bem. Basta lembrar
da cena em que os garotos que viriam a se tornar Zezé
Di Camargo e Luciano cantam numa rodoviária para ganhar
uns trocados uma cena inevitável em qualquer biografia
musical, e nem por isso feita de forma menos tocante. É
dessa mesma matriz, a das coisas que todos já viram mas
que ainda guardam sua força, que Silveira tira Era
uma Vez... (Brasil, 2008), que estréia nesta
sexta-feira no país. Projeto anterior a 2 Filhos,
e que o diretor diz só ter conseguido tirar da gaveta
em razão do sucesso do mesmo, o filme acompanha Dé
(Thiago Martins), um rapaz da favela do Morro do Cantagalo,
em Ipanema. Em menino, o caçula Dé vê o
irmão do meio ser abatido a tiros pelo tráfico
por causa de uma disputa numa pelada; sua tentativa de proteger
o irmão mais velho, Carlão (Rocco Pitanga), redunda
em tragédia. Dé cresce então colado à
mãe e bem longe do "movimento". Empregado de
um quiosque do calçadão, faz cachorros-quentes,
varre o chão e sonha com a garota loira e delicada que
vê pela janela de um apartamento à sua frente,
na Vieira Souto. Ato contínuo, Dé e Nina (Vitória
Frate) vão se apaixonar, enfrentar a resistência
compreensível da mãe dele (que não quer
confusão por causa de uma patricinha) e do pai dela (que
não quer ver a filha subindo o morro), e segue-se
mais tragédia.
A seu favor, Silveira
tem a intimidade com a tensão carioca entre avenida e
morro, que capta com destreza e sem pesar a mão. Tem
também o encanto de Thiago Martins, ele próprio
crescido na favela e integrante do grupo de teatro Nós
do Morro: embora ainda titubeie nas cenas mais introspectivas,
Martins sabe ser cativante e parecer protetor, mas não
possessivo um elemento fundamental para que o romance
ganhe credibilidade. Contra si, o diretor tem a inclinação
para abusar de seu dom. A maneira como o irmão mais velho
volta à cena e os acontecimentos que ele desencadeia
carregam bem além da conta nas tintas. Por muito menos,
um drama como aquele em que Dé e Nina se envolvem já
seria plausível.
Depois dos estrondosos
5,3 milhões de espectadores de 2 Filhos, a barreira
maior no caminho de Silveira é o seu próprio sucesso.
Era uma Vez... não conta com o apelo de uma marca
poderosa como a de Zezé e Luciano, e seu elenco é
ainda menos conhecido que o do filme anterior. Agora, portanto,
o diretor vai atravessar a prova de fogo que é se impor
num nicho sofrido da bilheteria, cada vez mais acossado pelo
DVD: aquele espaço imenso que fica entre os filmes "alternativos",
que os cinéfilos fazem questão de ver na tela
grande, e os filmes-evento, que todo mundo corre para ver sob
pena de ficar sem assunto. Diretores como Silveira têm
brigado para que esse espaço não vire um vazio.
Fazem-se votos, então, de que a briga não seja
perdida por nocaute.