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Livros Porque nenhuma vida
deixou de ser revirada pelas tragédias
Há umas duas décadas, os chineses começaram a reaprender a escrever. Como todas as outras formas de expressão, a literatura chinesa havia sido reduzida a pó pelo maoísmo virara um serviço de notícias (só as boas, verdadeiras ou não) e de doutrinação. Nos anos 80, porém, quando o país decidiu desviar parte de sua energia colossal da vigilância ideológica para o enriquecimento, abriu-se uma brecha. Fato inédito desde a Revolução de 1949, os leitores mais engenhosos conseguiram travar contato clandestino, claro com obras tão diversas quanto as de Franz Kafka, John Updike e Gabriel García Márquez (por razões óbvias, o realismo fantástico pareceu aos chineses um estilo particularmente destro). Veio um período "modernista", em que todos brincaram com a forma. E, enfim, os escritores chineses voltaram a encontrar seu próprio estilo e sua voz. Hoje, formam um conjunto de peso na cena literária mundial. Em alguns casos, trazem a ela uma voz magnífica, como demonstram Viver, de Yu Hua (tradução de Márcia Schmaltz; Companhia das Letras; 216 páginas; 38 reais), e Refugo de Guerra, de Ha Jin (tradução de Luiz Antônio de Araújo; Companhia das Letras; 464 páginas; 62 reais), parte de uma leva de obras chinesas que acaba de chegar às livrarias. Em outros casos, a voz é incisiva, como a de Ting-Xing Ye, de Meu Nome É Número 4 (tradução de Alexandre Martins; Casa da Palavra; 224 páginas; 35 reais) ou elegante, como a de Diane Wei Liang em O Olho de Jade (tradução de Marcelo Mendes; Record; 304 páginas; 39 reais), um mistério em que a busca por um artefato antigo conduz, claro, a segredos sujos do regime. Isso é o que 99 em cada 100 autores chineses têm em comum: todos escrevem sobre a Revolução. Até quando não estão escrevendo sobre a Revolução. Veja-se o caso de Gao Xingjian, ganhador do Prêmio Nobel de 2000 (cujo único livro disponível aqui é A Montanha da Alma, lançado pela Alfaguara). Um dos mestres da concisão chinesa, em que o texto deve ser tão controlado quanto a caligrafia a pincel, Gao fala de pequenas e transformadoras experiências pessoais. No conto O Templo, o narrador se lembra de um dia de felicidade intoxicante em sua lua-de-mel embora mal o mencione, esse é um dia em que está livre. Em A Cãibra, um homem quase se afoga e, ao voltar à praia, percebe que ninguém nem se deu conta de sua ausência, que por pouco não foi definitiva uma maneira íntima e trágica de comentar a sensação de não existir de todo. A Revolução está sempre nas entrelinhas também dos romances históricos, nos quais a opressão e o exercício do poder na China imperial não soam tão diferentes assim do que o são na China comunista. Na maioria dos casos, porém, a Revolução costuma estar bem mais próxima da superfície na literatura chinesa ou diretamente sob seu foco. No espaço de apenas um século, a China atravessou mais abalos do que muitas nações em toda a sua história. Saiu diretamente do feudalismo para um regime nacionalista, enfrentou a ocupação japonesa, uma guerra civil, e foi então lançada por Mao Tsé-tung na revolução. Ou em uma miríade de revoluções, conforme as convulsões internas do todo-poderoso Partido Comunista alteravam a face e o rumo do regime. Houve penúria com o "Grande Salto à Frente" da virada dos anos 50 para os 60, em que todo o país parou de plantar para fundir ferro-velho em aço. Mergulhou-se na histeria com a Revolução Cultural (1966-1976), em que todo o país novamente parou de plantar e de estudar, e de produzir enquanto os Guardas Vermelhos perseguiam como cachorros loucos milhões de supostos "reacionários". Houve um breve respiro quando Mao morreu, em 1976 e então um endurecimento redobrado, que culminou no massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989. E hoje, depois de uma nova distensão, há uma superpotência na qual milhões, a cada ano, são transferidos da pobreza para o conforto mas na qual todo o 1,3 bilhão de chineses continua a viver em fluxo, deslocados física ou psicologicamente para um projeto futurista, e sempre totalitário, de nação. Não existe, enfim, a possibilidade de que um chinês tenha escapado de ter a vida revirada por algumas dessas ondas, ou por todas elas. Daí que falar de qualquer coisa, para um chinês, implica falar do regime. De todas as ondas lançadas pelos caprichos do comunismo chinês, nenhuma foi mais violenta do que a Revolução Cultural. Durante toda uma década, qualquer um podia ir dormir devidamente "vermelho" e acordar "contra-revolucionário", sujeito a exílio, tortura e execução, por nenhuma razão em particular. Os que cresceram sob tal pavor ou delataram os próprios pais como "burgueses", ou lincharam "desviantes capitalistas" formam uma geração traumatizada, porém ágil: se a autoridade é imprevisível, drible-se a autoridade. Por ironia, então, a Revolução Cultural se tornou a mãe da literatura chinesa contemporânea. A maioria dos nomes mais prestigiados hoje cresceu sob sua sombra, e com ela aprendeu a ler o que não se podia ler, a achar leitores mesmo quando se está censurado (parte da rotina), a criticar abertamente ou de contrabando, a aproveitar oportunidades. Por exemplo, de se exilar (é grande o número de autores que fugiram para o Ocidente), ou de esperar. Uma modalidade comum entre os escritores que permanecem na China é o livro "de gaveta": aquele que fica pronto para ser publicado quando o vento soprar a seu favor. Ou o livro feito para ser banido, e lido na internet ou no exterior como a sátira A Serviço do Povo, de Yan Lianke (tradução de André Telles; Record; 176 páginas, 29 reais), em que o autor se diverte pintando um adultério escandaloso entre um soldado exemplar e a mulher de um oficial, que quebram estátuas de Mao a título de preliminar. A maior ousadia dessa geração, contudo, foi colocar o vetado e perseguido "eu" na literatura chinesa. O pronome domina Meu Nome É Número 4, em que Ting-Xing Ye, mandada aos 14 anos para uma prisão agrícola, desce aos detalhes do que significa ser tratada como bicho. Ele constitui também a beleza de Viver, de Yu Hua (filmado por Zhang Yimou como Tempo de Viver), no qual um herdeiro decadente e sua família furam onda após onda, do nacionalismo ao fim da Revolução Cultural, sempre perdendo um pouco mais de si pelo caminho. E o "eu", falando por "nós", é o que conduz o arrebatador Refugo de Guerra, de Ha Jin (do belíssimo A Espera, já editado no Brasil pela Companhia das Letras), em que um oficial treinado em uma academia nacionalista adere no primeiro instante ao Exército Vermelho. Mas então, capturado durante a Guerra da Coréia, percebe que vai ser sempre "ele", o "outro" e que, em um regime do qual nada escapa, todos vão ter seu dia de "outro" também, mais cedo ou mais tarde.
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