Edição 1812 . 23 de julho de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Tanta violência, mas tanta ternura

A senadora Heloísa Helena é capaz
de mostrar-se cativante, mas não
dá vontade de viver no país

que ela tem em mente

O governo Lula produziu dois campeões, nestes primeiros seis meses. Um é o próprio Lula, como não poderia deixar de ser. Outro é a senadora Heloísa Helena. Com exceção do presidente, ninguém tem causado tanta comoção. Tampouco alguém percorreu com tanta celeridade a distância que consagra uma celebridade nacional. Eis um efeito positivo do revezamento no poder: apresenta-nos a novas caras e confronta-nos com nova linguagem, o que no mínimo contribui para afastar o tédio. Heloísa Helena é hoje uma superestrela não só no Congresso e nas ruas, onde se apresenta em estado permanente de comício, como é também figura requisitada em programas de televisão, e não só os programas políticos. Uma hora está no Marília Gabriela, outra no Saia Justa. Sua mais recente apresentação foi no Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo. Confirmou-se uma vez mais que a senadora de Alagoas, além de uma estrela, que seduz e intriga pela palavra fluente, pela emoção, pela calça jeans e pelo rabo-de-cavalo, é um enigma.

Ninguém no mundo político exibe tanta raiva quanto ela. "Vigarice", "mentira" e "estelionato" são palavras que lhe brotam dos lábios com a facilidade com que de outros brotam "bom dia" e "obrigado". Não há hipótese de ela se referir ao Banco Mundial sem dizer "os parasitas do Banco Mundial". O fervor de cruzada que lhe embala a pregação embute a perigosa sugestão de que só ela é honesta, só sua verdade conta. A raiva a faz parecer tão religiosamente ideológica quanto um radical islâmico ou, para ir ao outro extremo do espectro, e recorrer a comparação que certamente lhe desagrada mais ainda, quanto o núcleo duro do governo W. Bush. E no entanto...

No entanto, Heloísa Helena é também um poço de afeto. Seu sorriso é aberto, em certos momentos ela faz uma carinha de criança. As lágrimas lhe vêm fácil. Na crise que enfrenta com a direção do PT, chorou mais de uma vez. Numa recente sessão do Senado, lembrou que, no Saia Justa, Rita Lee sugerira que namorasse o senador Eduardo Suplicy. "Para V. Exas. verem como nos amamos", emendou, dirigindo-se aos pares, e apregoando o sentimento que a une ao senador paulista. E depois, dirigindo-se a Suplicy, com bom humor: "Como sei que seu coração já está devidamente ocupado, é evidente que não vou disputar esse latifúndio. Ocupo terras, sim, improdutivas, para viabilizar a reforma agrária, mas respeito quem legitimamente, de forma bela, maravilhosa, ocupou o coração desse homem maravilhoso que é o meu querido senador Suplicy". Eis a tribuna do Senado tomada por assunto de amores e namoros. "Tanta violência, mas tanta ternura", diz um verso do poeta Mário Faustino. Só Heloísa Helena, naquela casa, é capaz de alternar tanta raiva com tanta doçura.

Heloísa Helena apresenta-se como campeã da justiça e da decência. E no entanto... No entanto, quando confrontada, como ocorreu no Roda Viva, com as punições impostas pelo regime de Cuba aos dissidentes, embaraçou-se, afligiu-se, quase esvoaçou da cadeira – e não teve palavra clara, ela que prima pela fluência, a oferecer sobre o assunto. "Essa questão é difícil", balbuciou. Quando voltaram à carga, externou seu amor por Cuba, "aquela pequena ilha, resistindo ao império"... Uma terceira investida arrancou dela que gostaria de ver um pouco mais de democracia no regime cubano. O que fica claro dessa salada de sentimentos é acima de tudo o amor pela ilha de Fidel Castro. Quanto a condená-lo, a ele que notoriamente persegue, prende e mata, a senadora não chega a tanto. Não consegue. Não está preparada para tanto. E com isso espalha a desconfiança de que, em seu regime, o regime de seus sonhos, aquele que vai distribuir a justiça e a democracia tal qual as concebe, não está de todo afastada a possibilidade de ter de matar e prender – talvez seja necessário. Tanta ternura e tanta violência!

Heloísa Helena é uma senadora, eleita pelo voto popular e detentora de mandato garantido pelas instituições do país. E no entanto... No entanto, no Roda Viva, chamou a Constituição de "burguesa". Deu a entender que não acredita no sistema que a elegeu e lhe dá voz, nem investiria grande coisa em sua sobrevivência, caso ela se visse ameaçada. Também se choca com a desprezível característica "burguesa" da Constituição o fato de a senadora ser capaz de invocá-la, quando lhe interessa. No Senado, dias atrás, ao defender a reforma agrária, referiu-se à "incompetência da elite política e econômica em cumprir o que manda a Constituição". Sobretudo, o apelido depreciativo de "Constituição burguesa" repete o descaso pelo estado de direito que está na raiz da doença que levou os regimes socialistas, ao redor do mundo, à repulsa da parte de suas próprias populações e daí à decadência e à morte. Tanta violência e tanta ternura, reunidas numa só senadora! Heloísa Helena é muito simpática quando não está com raiva e às vezes até quando está. Com certeza é excelente amiga de seus amigos. Mas não dá vontade de viver no país que ela tem em mente.

 
 
 
 
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