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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Tanta
violência, mas tanta ternura
A
senadora Heloísa Helena é capaz
de mostrar-se cativante, mas não
dá vontade de viver no país
que ela tem em mente
O governo
Lula produziu dois campeões, nestes primeiros seis meses.
Um é o próprio Lula, como não poderia deixar
de ser. Outro é a senadora Heloísa Helena. Com exceção
do presidente, ninguém tem causado tanta comoção.
Tampouco alguém percorreu com tanta celeridade a distância
que consagra uma celebridade nacional. Eis um efeito positivo do
revezamento no poder: apresenta-nos a novas caras e confronta-nos
com nova linguagem, o que no mínimo contribui para afastar
o tédio. Heloísa Helena é hoje uma superestrela
não só no Congresso e nas ruas, onde se apresenta
em estado permanente de comício, como é também
figura requisitada em programas de televisão, e não
só os programas políticos. Uma hora está no
Marília Gabriela, outra no Saia Justa. Sua
mais recente apresentação foi no Roda Viva,
da TV Cultura de São Paulo. Confirmou-se uma vez mais que
a senadora de Alagoas, além de uma estrela, que seduz e intriga
pela palavra fluente, pela emoção, pela calça
jeans e pelo rabo-de-cavalo, é um enigma.
Ninguém
no mundo político exibe tanta raiva quanto ela. "Vigarice",
"mentira" e "estelionato" são palavras que lhe brotam dos
lábios com a facilidade com que de outros brotam "bom dia"
e "obrigado". Não há hipótese de ela se referir
ao Banco Mundial sem dizer "os parasitas do Banco Mundial". O fervor
de cruzada que lhe embala a pregação embute a perigosa
sugestão de que só ela é honesta, só
sua verdade conta. A raiva a faz parecer tão religiosamente
ideológica quanto um radical islâmico ou, para ir ao
outro extremo do espectro, e recorrer a comparação
que certamente lhe desagrada mais ainda, quanto o núcleo
duro do governo W. Bush. E no entanto...
No
entanto, Heloísa Helena é também um poço
de afeto. Seu sorriso é aberto, em certos momentos ela faz
uma carinha de criança. As lágrimas lhe vêm
fácil. Na crise que enfrenta com a direção
do PT, chorou mais de uma vez. Numa recente sessão do Senado,
lembrou que, no Saia Justa, Rita Lee sugerira que namorasse
o senador Eduardo Suplicy. "Para V. Exas. verem como nos amamos",
emendou, dirigindo-se aos pares, e apregoando o sentimento que a
une ao senador paulista. E depois, dirigindo-se a Suplicy, com bom
humor: "Como sei que seu coração já está
devidamente ocupado, é evidente que não vou disputar
esse latifúndio. Ocupo terras, sim, improdutivas, para viabilizar
a reforma agrária, mas respeito quem legitimamente, de forma
bela, maravilhosa, ocupou o coração desse homem maravilhoso
que é o meu querido senador Suplicy". Eis a tribuna do Senado
tomada por assunto de amores e namoros. "Tanta violência,
mas tanta ternura", diz um verso do poeta Mário Faustino.
Só Heloísa Helena, naquela casa, é capaz de
alternar tanta raiva com tanta doçura.
Heloísa
Helena apresenta-se como campeã da justiça e da decência.
E no entanto... No entanto, quando confrontada, como ocorreu no
Roda Viva, com as punições impostas pelo regime
de Cuba aos dissidentes, embaraçou-se, afligiu-se, quase
esvoaçou da cadeira e não teve palavra clara, ela
que prima pela fluência, a oferecer sobre o assunto. "Essa
questão é difícil", balbuciou. Quando voltaram
à carga, externou seu amor por Cuba, "aquela pequena ilha,
resistindo ao império"... Uma terceira investida arrancou
dela que gostaria de ver um pouco mais de democracia no regime cubano.
O que fica claro dessa salada de sentimentos é acima de tudo
o amor pela ilha de Fidel Castro. Quanto a condená-lo, a
ele que notoriamente persegue, prende e mata, a senadora não
chega a tanto. Não consegue. Não está preparada
para tanto. E com isso espalha a desconfiança de que, em
seu regime, o regime de seus sonhos, aquele que vai distribuir a
justiça e a democracia tal qual as concebe, não está
de todo afastada a possibilidade de ter de matar e prender talvez
seja necessário. Tanta ternura e tanta violência!
Heloísa
Helena é uma senadora, eleita pelo voto popular e detentora
de mandato garantido pelas instituições do país.
E no entanto... No entanto, no Roda Viva, chamou a Constituição
de "burguesa". Deu a entender que não acredita no sistema
que a elegeu e lhe dá voz, nem investiria grande coisa em
sua sobrevivência, caso ela se visse ameaçada. Também
se choca com a desprezível característica "burguesa"
da Constituição o fato de a senadora ser capaz de
invocá-la, quando lhe interessa. No Senado, dias atrás,
ao defender a reforma agrária, referiu-se à "incompetência
da elite política e econômica em cumprir o que manda
a Constituição". Sobretudo, o apelido depreciativo
de "Constituição burguesa" repete o descaso pelo estado
de direito que está na raiz da doença que levou os
regimes socialistas, ao redor do mundo, à repulsa da parte
de suas próprias populações e daí à
decadência e à morte. Tanta violência e tanta
ternura, reunidas numa só senadora! Heloísa Helena
é muito simpática quando não está com
raiva e às vezes até quando está. Com certeza
é excelente amiga de seus amigos. Mas não dá
vontade de viver no país que ela tem em mente.
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