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Arte
Gorduchas
em Veneza
A
megaexposição italiana de Botero, o artista
plástico mais famoso e rico da América Latina

Raul
Juste Lores
O sucesso
popular do pintor e escultor colombiano Fernando Botero, de 71 anos,
é quase inversamente proporcional às opiniões
que a crítica de arte especializada tem de seu trabalho.
Quanto mais ele é chamado de kitsch e repetitivo, mais suas
exposições atraem filas e mais valem seus quadros
em leilões. A obra do pintor das figuras gordinhas e amáveis
retratadas em cenas do cotidiano é facilmente reconhecida
até por quem não costuma freqüentar galerias
de arte. Uma enorme exposição de 22 de suas enormes
esculturas, igualmente com figuras volumosas, ocupa no momento as
margens dos canais de Veneza é raríssimo o
centro histórico da cidade ser tomado por obras de arte tão
grandes de um mesmo artista ao ar livre. As obras partem na próxima
semana para ser exibidas também ao ar livre em Tóquio,
Cingapura e Viena. Em uma pesquisa publicada em maio pela revista
inglesa Art Review, Botero é o único latino-americano
entre os dez artistas plásticos vivos que mais venderam em
leilões nos últimos trinta anos. Ele é o quinto
mais vendido 622 obras foram leiloadas, entre quadros e esculturas,
atingindo um valor de mais de 60 milhões de dólares
e deixando para trás pesos-pesados das artes plásticas
(e queridinhos da crítica) como os britânicos David
Hockney e Lucian Freud. Uma gordinha com a assinatura do pintor
pode alcançar o preço de 2 milhões de dólares.
Nos últimos cinco anos, quase duas dezenas de grandes cidades
do mundo, de Paris e Nova York a São Paulo e Rio de Janeiro,
receberam importantes retrospectivas do trabalho do artista. Há
esculturas de Botero fincadas em avenidas de Londres, Madri, Buenos
Aires e Paris. A revista americana Time escreveu que provavelmente
ele seja o artista vivo mais rico do mundo seu sucesso popular
tem mais de cinco décadas de produção em massa.
Ninguém sabe com certeza o tamanho de sua fortuna. A grandeza
de sua caixa-forte pode ser estimada pela exorbitância de
sua generosidade. Nos últimos dois anos, ele doou à
cidade de Bogotá uma coleção formada por 85
quadros de grandes nomes avaliada em 120 milhões de dólares.
Também doou mais de 200 quadros e esculturas com sua assinatura
para essa mesma coleção de Bogotá e para um
museu de Medellín, sua cidade natal. A única exigência
do doador: que a entrada fosse livre. "Quando pequeno, em Medellín,
só via as obras dos grandes mestres em fotos e livros. Quis
que as crianças da Colômbia não tivessem mais
essa distância", diz.
O artista leva a sério seu papel de mecenas. "Botero financia
estudos no exterior para jovens artistas colombianos", diz Miguel
Silva, o editor da Gatopardo, a mais importante revista colombiana.
"É extremamente generoso com o país, apesar de não
viver aqui há mais de quarenta anos." A guerrilha comunista
tem especial implicância com o artista. Tentou seqüestrá-lo
em 1994. No ano seguinte, explodiu uma de suas esculturas numa praça
de Medellín, matando 27 pessoas. Filho de um pequeno comerciante,
Botero começou a pintar aos 12 anos e vendeu seus primeiros
quadros na fila da bilheteria das touradas da cidade. Aos 19, ganhou
o segundo lugar de um grande prêmio nacional de pintura da
Colômbia e com o dinheiro foi estudar na Europa. Nos anos
80, durante o auge dos grandes cartéis de droga, chefões
do narcotráfico compravam seus quadros como forma de lavar
dinheiro e inflacionaram sua obra. Ele tem três filhos,
todos moram no México, inclusive Fernando, que foi ministro
da Defesa e passou alguns anos na cadeia por ter aceitado dinheiro
do narcotráfico numa campanha eleitoral. Casado com a escultora
grega Sophia Vari, sua terceira mulher, Botero divide seu tempo
entre o espetacular ateliê em Pietrasanta, na Toscana, seus
apartamentos na caríssima Park Avenue, de Nova York, em Paris
e em Madri e um ateliê em Montecarlo, de frente para o mar,
presente do príncipe Rainier. "Tem gente que prefere ter
montanhas de dinheiro nos bancos. Eu prefiro levar uma vida confortável",
diz o artista.
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