Edição 1812 . 23 de julho de 2003

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Arte
Gorduchas em Veneza

A megaexposição italiana de Botero, o artista
plástico mais famoso e rico da América Latina


Raul Juste Lores

Galeria de imagens

O sucesso popular do pintor e escultor colombiano Fernando Botero, de 71 anos, é quase inversamente proporcional às opiniões que a crítica de arte especializada tem de seu trabalho. Quanto mais ele é chamado de kitsch e repetitivo, mais suas exposições atraem filas e mais valem seus quadros em leilões. A obra do pintor das figuras gordinhas e amáveis retratadas em cenas do cotidiano é facilmente reconhecida até por quem não costuma freqüentar galerias de arte. Uma enorme exposição de 22 de suas enormes esculturas, igualmente com figuras volumosas, ocupa no momento as margens dos canais de Veneza – é raríssimo o centro histórico da cidade ser tomado por obras de arte tão grandes de um mesmo artista ao ar livre. As obras partem na próxima semana para ser exibidas também ao ar livre em Tóquio, Cingapura e Viena. Em uma pesquisa publicada em maio pela revista inglesa Art Review, Botero é o único latino-americano entre os dez artistas plásticos vivos que mais venderam em leilões nos últimos trinta anos. Ele é o quinto mais vendido – 622 obras foram leiloadas, entre quadros e esculturas, atingindo um valor de mais de 60 milhões de dólares e deixando para trás pesos-pesados das artes plásticas (e queridinhos da crítica) como os britânicos David Hockney e Lucian Freud. Uma gordinha com a assinatura do pintor pode alcançar o preço de 2 milhões de dólares.

Nos últimos cinco anos, quase duas dezenas de grandes cidades do mundo, de Paris e Nova York a São Paulo e Rio de Janeiro, receberam importantes retrospectivas do trabalho do artista. Há esculturas de Botero fincadas em avenidas de Londres, Madri, Buenos Aires e Paris. A revista americana Time escreveu que provavelmente ele seja o artista vivo mais rico do mundo – seu sucesso popular tem mais de cinco décadas de produção em massa. Ninguém sabe com certeza o tamanho de sua fortuna. A grandeza de sua caixa-forte pode ser estimada pela exorbitância de sua generosidade. Nos últimos dois anos, ele doou à cidade de Bogotá uma coleção formada por 85 quadros de grandes nomes avaliada em 120 milhões de dólares. Também doou mais de 200 quadros e esculturas com sua assinatura para essa mesma coleção de Bogotá e para um museu de Medellín, sua cidade natal. A única exigência do doador: que a entrada fosse livre. "Quando pequeno, em Medellín, só via as obras dos grandes mestres em fotos e livros. Quis que as crianças da Colômbia não tivessem mais essa distância", diz.

O artista leva a sério seu papel de mecenas. "Botero financia estudos no exterior para jovens artistas colombianos", diz Miguel Silva, o editor da Gatopardo, a mais importante revista colombiana. "É extremamente generoso com o país, apesar de não viver aqui há mais de quarenta anos." A guerrilha comunista tem especial implicância com o artista. Tentou seqüestrá-lo em 1994. No ano seguinte, explodiu uma de suas esculturas numa praça de Medellín, matando 27 pessoas. Filho de um pequeno comerciante, Botero começou a pintar aos 12 anos e vendeu seus primeiros quadros na fila da bilheteria das touradas da cidade. Aos 19, ganhou o segundo lugar de um grande prêmio nacional de pintura da Colômbia e com o dinheiro foi estudar na Europa. Nos anos 80, durante o auge dos grandes cartéis de droga, chefões do narcotráfico compravam seus quadros como forma de lavar dinheiro – e inflacionaram sua obra. Ele tem três filhos, todos moram no México, inclusive Fernando, que foi ministro da Defesa e passou alguns anos na cadeia por ter aceitado dinheiro do narcotráfico numa campanha eleitoral. Casado com a escultora grega Sophia Vari, sua terceira mulher, Botero divide seu tempo entre o espetacular ateliê em Pietrasanta, na Toscana, seus apartamentos na caríssima Park Avenue, de Nova York, em Paris e em Madri e um ateliê em Montecarlo, de frente para o mar, presente do príncipe Rainier. "Tem gente que prefere ter montanhas de dinheiro nos bancos. Eu prefiro levar uma vida confortável", diz o artista.

 
 
 
 
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