Edição 1812 . 23 de julho de 2003

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Entrevista: Candace Bushnell
Em busca do macho alfa

A americana Candace Bushnell, de 44 anos, é uma referência para as neofeministas que defendem os interesses da mulher, mas não dispensam uma bolsa de grife. Nos anos 90, ela manteve uma coluna de sucesso num jornal de Nova York, em que abordava as aventuras amorosas de quatro mulheres solteiras, bem-sucedidas e liberadas. A coluna Sex and the City deu origem a um livro e à série de TV homônima, transmitida no Brasil pelo canal pago Multishow. Antes de ser conhecida como escritora, Candace, que foi modelo e aspirante a atriz, já era uma figura festejada nas altas-rodas nova-iorquinas, universo em que circulam suas personagens. Em entrevista a VEJA, ela mostra que não está nem aí para o politicamente correto e diz francamente o que boa parte das mulheres pensa dos homens – e do sexo.


Marcelo Marthe


AP
As personagens da série Sex and the City: solteiras, bem-sucedidas e liberadas

Veja – Até que ponto vão as semelhanças entre a Candace Bushnell real e seu alter ego na série Sex and the City, a liberadíssima jornalista Carrie Bradshaw?
Candace –
Quando escrevi Sex and the City estava com 30 e poucos anos e Carrie era a minha perfeita tradução. Hoje, aos 44 anos, estou numa fase mais tranqüila e já não me identifico tanto com ela.

Veja – Alguns críticos ironizam o fato de que, apesar de serem modernas e bem-sucedidas, as personagens de Sex and the City no fundo dependem da aprovação dos homens para manter sua auto-estima. O que a senhora acha dessa leitura?
Candace –
Penso que é equivocada. Se as pessoas prestarem atenção na série, vão perceber que as personagens só procuram a felicidade. Buscam isso ora no trabalho, ora em seus relacionamentos, mas no fim sempre percebem que ter dinheiro ou um homem para chamar de seu não garante, por si só, a felicidade de ninguém.

Veja – Por que homens e mulheres parecem vir de planetas diferentes?
Candace –
Desde sempre os sexos tiveram agendas distintas, e ainda hoje é assim. As mulheres trabalham duro e ainda dão um jeito de cuidar da aparência e se manter atraentes. Em certas horas, tudo o que querem é que esse esforço seja reconhecido pelos homens – por meio de um elogio que seja. Mas eles vêem o mundo de outro jeito. Há muitas mulheres solteiras nos Estados Unidos, e tornou-se fácil e cômodo encontrar parceiras sem se envolver afetivamente. Qualquer homem minimamente atraente ou que tenha uma conta bancária razoável, esteja ele com 18 ou 70 anos, só ficará encalhado se quiser. Nesse cenário extremamente favorável aos homens, as mulheres sentem-se cada vez mais carentes de atenção.

Veja – A senhora já afirmou que as mulheres casadas são as mais infelizes. Por quê?
Candace –
É um fato estatisticamente comprovado. No casamento tradicional, em que o homem tem toda a força, as razões da infelicidade feminina são óbvias. Mas mesmo nos relacionamentos modernos as mulheres continuam sob o peso de problemas parecidos. A responsabilidade de manter a casa em ordem e cuidar dos filhos ainda está, afinal, em suas mãos. Só que, além de dar conta dessas tarefas, a mulher hoje precisa trabalhar. E não pode descuidar da aparência, se quiser manter seu casamento nos trilhos. Ela vive sob intensa pressão e tem cada vez menos tempo para si própria.

Veja – Na luta para conquistar os homens, que tipo de mulher leva vantagem?
Candace –
Vou lhe contar um segredo que aprendi com a experiência: a mulher mais irresistível é aquela que consegue passar a impressão de que não precisa de um homem a seu lado para se afirmar. A autoconfiança deixa os homens malucos. Além disso, os melhores partidos saem em debandada tão logo percebem que uma mulher é do tipo emocionalmente dependente – isso é sinal de enrosco e chateação.

Veja – Mulheres casadas e solteiras são seres da mesma espécie ou estão fadadas a viver em guerra?
Candace –
Já estive dos dois lados e não posso negar que há ressentimentos. Muitas mulheres solteiras ficam aborrecidas porque acham que suas amigas casadas não as levam a sério. Estas últimas sentem-se ameaçadas pela concorrência das solteiras. Elas se apavoram com a idéia de que as disponíveis possam roubar seus homens – e com razão, pois elas roubam mesmo. Existe um grupo pequeno, mas traiçoeiro, de mulheres que são obcecadas pela idéia de ficar com um homem casado. Elas raciocinam de um jeito simples: se alguém quis casar com ele, é um produto já testado e aprovado. Nunca passei por nenhuma experiência parecida, até porque estou casada há apenas um ano. Mas, se um dia alguma garota atrevida desse em cima de meu marido, eu faria aquilo que toda mulher digna deveria fazer: interpelaria a fulana e deixaria claro que aquele sujeito que ela está paquerando já tem boa companhia.

Veja – Em seu livro Quatro Louras, a senhora diz que os homens preferem as burras. Isso é verdade?
Candace –
Infelizmente, muitos acham que é melhor conviver com um bibelô não-pensante do que dividir a cama com alguém que tenha um mínimo de visão crítica. Os homens evoluíram um bocado nos últimos cinqüenta anos, mas ainda sucumbem à comodidade de se relacionar com mulheres que não questionem sua autoridade. Há também aqueles que têm a necessidade infantil de se sentir as estrelas do universo. Esses preferem garotas estúpidas porque não suportariam competir com uma mulher altiva e emancipada.

Veja – O sexo sem compromisso é comum nos dias de hoje. Esse tipo de relação preenche de alguma forma as necessidades emocionais das mulheres?
Candace –
O sexo casual tornou-se conveniente, eu diria, especialmente para as mulheres mais velhas, que aprenderam a olhar para o mundo sem ingenuidade. Em geral, as mulheres na faixa dos 35 aos 40 e tantos anos encaram sua sexualidade de forma mais tranqüila que as jovens. E para elas às vezes é mais conveniente conhecer um homem numa festa e fazer sexo durante uma noite apenas do que se envolver numa relação séria. Por outro lado, aquelas que estão pensando seriamente em se casar precisam separar bem as coisas para não se machucarem emocionalmente. Enquanto o sexo é sem comprometimento, os homens estão sempre disponíveis. Mas muitos deles correm à menor menção da palavra "compromisso".

Veja – Depois que a mulher passa dos 30 anos, o relógio biológico a deixa ansiosa por casar e ter filhos. É possível contornar essa dificuldade?
Candace –
É da natureza feminina começar a se questionar sobre essas coisas à medida que se fica mais velha, pois a mulher tem um limite além do qual não poderá mais ter filhos. Eu mesma passei por turbulências. Chegava a acordar no meio da madrugada, ruminando as maiores besteiras: será que serei a única dentre todas as minhas amigas a não ter filhos? Só sobrarei eu de solteira em Nova York? Por sorte, soube superar essas angústias.

Veja – A senhora já afirmou que, não raro, as pessoas fazem sexo para conquistar amigos e cultivar contatos proveitosos, e não por amor. Realmente acredita nisso?
Candace –
Perdoem-me os mais sensíveis, mas não fui a primeira nem serei a última a escrever isso. No passado, muitos escritores já haviam notado que, por trás das aparências, o que movia as relações era o interesse – pelo dinheiro, por uma melhor posição ou, simplesmente, para se auto-afirmar por meio das conquistas amorosas. Bom ou ruim, isso faz parte da natureza humana.

Veja – Então sexo e dinheiro sempre andam juntos?
Candace –
Trata-se de uma lei da espécie, e quem não enxerga isso está cego. As mulheres ouvem desde pequenas seus pais dizerem que, na hora de se casar, devem escolher alguém que lhes dê segurança – ou seja, não importa se o pretendente é feio ou bonito, mas é bom que seja rico. E, em qualquer lugar do mundo, as mulheres e os homens de maior beleza é que acabam se casando com pessoas abastadas. No interior, as garotas bonitas são as que têm maiores chances de se mudar para a cidade grande e se dar bem – a cantora Britney Spears é um exemplo disso. Com uma carinha bonita e algum tipo de talento, todas as portas se abrem. Não estou falando, veja bem, de uma tendência atual: isso vem ocorrendo desde os tempos das cavernas, quando os machos mais fortes e as fêmeas mais belas levavam a melhor sobre os concorrentes.

Veja – Quando jovem, a senhora era modelo e aspirante a atriz. A beleza lhe abriu muitas portas em Nova York?
Candace –
Basicamente, eu era convidada para todas as festas. Também não posso negar que graças ao fato de ter sido modelo fui a jantares chiques e usufruí de fins de semana em iates e outras bocas-livres. A verdade é que os bem-sucedidos e endinheirados gostam de viver rodeados por pessoas jovens e bonitas. Como estas últimas quase sempre são duras, é normal que se estabeleça uma relação de troca.

Veja – Em Sex and the City, a senhora fala da tribo dos "modelomaníacos" – homens mais velhos e abastados cuja fixação é sair com modelos.
Candace –
O Rio de Janeiro é o lugar onde isso foi inventado. O típico modelomaníaco é um sujeito cheio de dinheiro mas não muito atraente que tem a obsessão de ser visto com belas garotas em seu carrão, para afirmar sua masculinidade. Ele leva a modelo para jantar num restaurante caro, depois os dois vão para a boate e dançam até as 6 da manhã, mas nem sempre acabam dormindo juntos. Isso é comum em Nova York. Mas creio que o paraíso para homens desse tipo é mesmo o Rio de Janeiro, onde eles não encontram dificuldades para conseguir a companhia de mulheres vistosas – sei disso até porque já visitei a cidade, há alguns anos. Certas garotas se viciam nesse tipo de relação. Criei uma personagem, chamada Janey Wilcox, em homenagem a elas. Janey é uma modelo que fica com um milionário diferente a cada verão. Ela escolhe os parceiros de acordo com a casa de veraneio que eles possuem. Se fosse uma figura da vida real, eu adoraria dar uns safanões nela.

Veja – Sobre que temas giram as conversas nos banheiros femininos?
Candace –
Elas falam sobre a carreira ou sobre a família, mas o assunto principal são mesmo os homens e o sexo. É nessa hora que as mulheres abrem o coração para reclamar dos parceiros que têm medo de encarar um namoro sério. Também aproveitam para comentar como os homens podem ser egoístas na cama. As solteiras se divertem, sobretudo, falando sobre a anatomia íntima de seus parceiros. Para elas, esse tipo de troca de informação é até questão de sobrevivência. Na condição de descompromissadas, umas alertam as outras sobre quem são os homens que valem a pena no pedaço e quais os que devem ser evitados. Já as casadas sabem que se vangloriar do marido instiga a concorrência.

Veja – Todos já estão informados sobre a importância da camisinha na prevenção de doenças como a Aids. Mas qual seria, digamos, a contribuição cultural da camisinha?
Candace –
Com a difusão do uso da camisinha, as mulheres começaram a se sentir mais confortáveis para ter relações casuais. Passaram a entender que, se não há contato de fato entre os órgãos sexuais, elas não podem ser consideradas promíscuas ao adotar uma postura mais liberal. Se o advento da pílula anticoncepcional foi decisivo para a liberação sexual da mulher, a camisinha só veio aperfeiçoar esse processo.

Veja – Por que algumas mulheres têm grande atração por aquele tipo de homem que fica com todas as moças com que topa pela frente?
Candace –
Trata-se de um fenômeno instintivo. Se um sujeito dorme com muitas mulheres, deve ter alguma coisa a mais que os outros, diz o inconsciente feminino. Há um componente de desafio em seduzir esse tipo de homem: será que serei eu quem vai endireitá-lo?, pensam elas. Na verdade, isso está ligado à atração ancestral das mulheres pela figura do macho alfa.

Veja – Macho alfa, sei...
Candace –
É, aquele homem especial, talhado pela evolução para ser o líder do grupo. As mulheres não conseguem evitar a atração por ele, mas o problema é que infelizmente não há muitos disponíveis para um relacionamento sério. A escassez de machos alfa está na raiz do fato de que muitas mulheres tendem a ver suas iguais como inimigas.

Veja – Que tipo de homem as mulheres preferem evitar?
Candace –
Um homem que passa dos 45 anos ainda solteirão é um tipo a ser evitado. Se isso ocorre, é sinal de que algo está errado em sua cabeça, ele é um ser tão infantilizado que se tornou incapaz de estabelecer laços de afeto com outra pessoa. As mulheres costumam desconfiar desses quarentões tão disponíveis.

Veja – Se as mulheres casadas são mais infelizes, por que a senhora se casou no ano passado?
Candace –
Critiquei e continuo criticando o casamento tradicional, que é feito para o homem impor sua vontade. A minha união conjugal é totalmente diferente. Eu e Charles, meu marido, nos apaixonamos tão logo nos conhecemos e fazemos questão de repetir um para o outro, todos os dias, que nos amamos. Talvez por ser bailarino, ele tem muita sensibilidade e não posso me queixar de carências afetivas. Estamos até pensando em ter um filho.

 
 
 
 
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