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Especial
Sexo
como nossos ancestrais
A
ciência traz à tona indícios de que, na hora
de escolher um parceiro, ainda somos guiados
pela biologia e por preferências estabelecidas
pela espécie há milhões de anos

Isabela Boscov e Marcelo Marthe
Homem
alto, forte, caçador habilidoso e dominador. Mulher jovem,
saudável e com potencial para gerar muitos filhos. Em matéria
de sexo, ele só quer saber de engravidar o maior número
possível de parceiras. Ela é mais seletiva: seu objetivo
é engravidar de um macho capaz de lhe dar a prole mais apta
a sobreviver e encontrar um provedor que a ajude a alimentar e proteger
os filhos. Assim eram, nos tempos das cavernas, os protótipos
daquilo que os biólogos chamam de "macho alfa" e "fêmea
alfa", os reprodutores ideais da espécie. Milhões
de anos se passaram desde então, mas a ciência não
pára de trazer à tona indícios de que o comportamento
sexual humano, tal e qual se conhece hoje, segue fundamentalmente
os mesmos mecanismos psicológicos ancestrais. A herança
evolutiva explica, entre outras coisas, por que sexo e dinheiro
ou melhor, sexo e status sempre estiveram intimamente
ligados. Nem mesmo uma revolução como a conquista
dos direitos da mulher alterou significativamente as velhas táticas
de sedução e os sinais de atração. A
jornalista americana Candace Bushnell, autora do livro que inspirou
a série Sex and the City, que retrata as expectativas
e frustrações amorosas da mulher moderna, dá
seu testemunho a esse respeito em entrevista
nesta edição. "A escassez de machos alfa
está na raiz do fato de que muitas mulheres tendem a ver
suas iguais como inimigas", diz ela. É natural que os ecos
do passado primitivo ainda se imponham. Homens e mulheres, afinal
de contas, passaram apenas 1% de sua trajetória evolutiva
sob os efeitos da civilização. Durante os outros 99%,
estiveram à mercê dos seus instintos que não
têm nada de simples.
Pedro Rubens
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Desde que o naturalista inglês Charles Darwin publicou A
Origem das Espécies, em 1859, a ciência se habituou
a analisar a evolução por meio de uma norma cardeal:
a sobrevivência pertence aos mais aptos, e é para sobreviver
no seu habitat que as espécies mudam e se adaptam. Visto
sob esse prisma da seleção natural, o cérebro
humano seria uma máquina de resolver problemas ligados à
sobrevivência, e o sexo não passaria de uma decorrência
dessa necessidade. Mas agora há uma nova revolução
em curso na ciência. Ela prega que, se estamos aqui, é
porque cada um de nós é fruto de uma seqüência
ininterrupta, que já dura milhões de anos, de relacionamentos
bem-sucedidos entre homens e mulheres. Aqueles que sobreviveram
saudáveis, mas não geraram filhos uma escolha
que o homem, como animal inteligente, está habilitado a fazer
, não estão representados entre nós.
A meta da evolução, então, não é
outra que não a procriação. E, se procriar
é sumamente importante, é de supor que as estratégias
que as espécies desenvolvem para transmitir seus genes têm
de ocupar o lugar central nas disciplinas que analisam a evolução.
É exatamente isso que vem ocorrendo há cerca de duas
décadas. Nunca os cientistas pensaram tanto em sexo
e o que eles estão descobrindo é que, nisso, acabam
de se juntar ao resto da humanidade, e de toda a vida sobre o planeta.
Todos nós só pensamos naquilo e já há
pesquisadores que propõem que o cérebro humano é,
na verdade, uma máquina de cortejar. Mais: ele é o
maior e o melhor ornamento sexual da espécie humana, assim
como a cauda o é para o pavão e os chifres, para o
cervo.
Vejamos:
você se senta ao lado de um belo representante do sexo oposto
no avião e imagina que nada faria aquelas dez horas de vôo
passar mais rápido do que, digamos, uma boa conversa. Aí
já está o primeiro diferencial entre o ser humano
e, por exemplo, o pavão. Simplesmente mostrar a cauda e partir
para o ataque é coisa que costuma resultar em visita à
delegacia e, alguns milhares (ou milhões) de anos
atrás, renderia um sensacional corretivo por parte dos familiares
encarregados de proteger o objeto de desejo. Ou seja, é preciso
se fazer tão atraente quanto o parceiro pretendido, para
que ele concorde em entrar no jogo. Os requisitos são extensos:
assunto, senso de humor, bons modos, charme e percepção,
para não continuar falando como uma matraca quando a pessoa
do assento ao lado dá mostras de que gostaria de tirar uma
soneca reparadora. A boa aparência ajuda, e muito, mas não
é decisiva. De nada adianta um homem ter um maxilar forte
um dos traços mais valorizados pelas mulheres desde
tempos imemoriais se ele mantém seu interior à
vista enquanto se serve do jantar. Homens e mulheres são
guiados em grande parte pelos apelos biológicos. Mas, como
a evolução colocou a espécie na situação
peculiar de incluir a inteligência nessa equação,
os chamados genéticos vêm se misturando, desde tempos
ancestrais, ao que se convencionou chamar de cultura.
Alguns
estudiosos da linha de frente da psicologia evolutiva, como o americano
Geoffrey Miller, acham que é aí mesmo, aliás,
que está a razão de tudo aquilo que os teóricos
da evolução nunca conseguiram justificar, como a arte,
a música, o refinamento da linguagem, a moral ou a política.
Nenhuma dessas atividades serve para melhor sobreviver à
seleção natural. Até há pouco, elas
eram explicadas como subprodutos de um cérebro que tivera
de se desenvolver extraordinariamente para se adaptar ao ambiente.
Mas se essas habilidades humanas existem, e perduram, e ficam cada
vez mais elaboradas, é porque elas têm alguma função
biológica direta ou a evolução já
teria cuidado de se livrar desse excesso de bagagem. Mas qual função?
Resposta: elas são táticas de seleção
sexual e conquista. Ou seja: se somos o que somos, diz Miller, é
para melhor nos acasalarmos. Para homens e mulheres, isso significa
combinar seus genes ao que houver de melhor à disposição
no mercado. Para as mulheres, mais do que para os homens, significa
também que é preciso achar um modo de que a prole
sobreviva até o ponto de passar essa combinação
privilegiada adiante. Para ambos, esses impulsos mesclam biologia,
comportamentos e sentimentos num tal grau que é quase impossível
distinguir onde uma coisa termina e a outra começa.
Para
se ter uma idéia da complexidade do ser humano, um dos grandes
estudiosos da área, o canadense Steven Pinker, elucida um
ponto. Na maioria das espécies, o desejo sexual é
uma estratégia para propagar os genes. Entre homens e mulheres,
não. Entre nós, o desejo sexual é uma estratégia
para obter prazer sexual e esse prazer é que é
a estratégia dos genes para se autopropagar. O prazer é
tão decisivo para a espécie humana que hoje se credita
a ele o fato de os homens terem, proporcionalmente, o maior pênis
entre os primatas. Se o objetivo fosse simplesmente introduzir o
máximo de sêmen na fêmea, como acontece entre
os nossos parentes mais próximos, o importante seria ter
grande volume testicular, e um órgão sexual apenas
funcional. Mas as mulheres parecem ter, desde sempre, apreciado
o estímulo tátil que um órgão maior
é capaz de proporcionar (ainda que a cartilha do politicamente
correto hoje mande dizer que tamanho não tem nada a ver com
documento). E, como são as mulheres que estão ao volante
da seleção sexual porque elas precisam ser
seletivas , os homens acabaram por adquirir a aparência
que têm, sem maior função biológica além
de cativar as emoções de suas parceiras. Pode ser
essa também a implacável seleção
sexual exercida pelas mulheres a razão para o que
alguns estudos vêm revelando: que os homens considerados bonitos
costumam ter sêmen mais saudável do que o de seus colegas
esteticamente menos favorecidos.
Isso
quer dizer que uma questão tão polêmica nos
dias atuais a da ditadura da beleza tem origens bem
anteriores à indústria da moda. Ainda que os padrões
de beleza variem conforme a cultura e a época, eles obedecem
a algumas constantes. Primeiro, os sinais de diferenciação
sexual. Os homens apreciam nas mulheres os lábios mais cheios,
a cintura fina e os seios, enquanto as mulheres valorizam a voz
grossa, o queixo forte, a musculatura. Outra constante é
a simetria, que hoje se sabe ser um sinal clássico de saúde
genética, reconhecido como tal pela maioria das espécies.
O ser humano está tão programado para captar esses
sinais que simplesmente observar um rosto belo desencadeia reações
intensas de prazer. A área cerebral ativada é, curiosamente,
a mesma que dá aos viciados em drogas ou em apostas aquele
frisson no momento em que eles se entregam ao seu hábito.
E ela calha de ser também uma das áreas mais antigas
do cérebro, formada em tempos que precedem em muito o surgimento
da linguagem. Os feios e as feias, assim, que perdoem a evolução:
a beleza é mesmo um vício humano, cultivado durante
milhões de anos.
Ainda
que muitas das preferências ditadas pela seleção
sexual já não tenham razão de ser hoje em dia,
quando a vida é muito menos brutal do que no tempo das cavernas,
elas estão tão arraigadas no cérebro humano
que continuam a ditar comportamentos. Veja-se, por exemplo, o caso
da altura. É um fato estatisticamente comprovado que as mulheres
preferem homens mais altos do que elas. Nos primórdios da
humanidade, os motivos para tal eram claros: se um homem podia investir
tanta energia nutricional na sua altura, ele tinha saúde
para dar e vender e seus genes, portanto, eram desejáveis.
A altura seria, assim, não só uma vantagem em termos
de força física, mas também um adorno sexual.
Esse raciocínio parece ir frontalmente contra o caso típico,
nos dias de hoje, do empresário poderoso, e não muito
alto, que se cerca de mulheres com vários palmos de vantagem
sobre ele. Para alguns estudiosos, não há aí
nenhuma contradição, e sim uma resposta direta aos
ditames da biologia. Com sua escolha de parceiras, esse homem estaria
propagandeando que o que lhe falta em altura lhe sobra em capacidade
como provedor e, portanto, como difusor de seus genes.
As
feministas costumam se arrepiar com essa idéia, mas, pelo
menos do ponto de vista da evolução, a igualdade é
uma quimera, e não só por causa do descompasso entre
o relógio biológico do homem e o da mulher. Hoje os
pesquisadores sabem que também os cérebros masculino
e feminino não funcionam de modo idêntico. Desde o
berço, os meninos tendem, grosso modo, a ser "sistematizadores",
enquanto as meninas são, em geral, "comunicadoras": eles
resolvem problemas com mais eficiência, elas avançam
mais na linguagem. Mesmo na vida adulta, quando a educação,
a cultura e a vida em sociedade já cuidaram de igualar a
maioria das habilidades entre os sexos, certas diferenças
continuam marcantes. Qualquer casal já passou algum dia por
uma discussão em que ela remói como ele a magoou naquele
dia de outubro de 1991, e ele jura não ter a menor recordação
do episódio. Vários estudos indicam que nenhum dos
dois está mentindo. Imagens feitas em ressonância magnética
do cérebro de homens e mulheres no momento em que eles estão
sendo submetidos a uma mesma experiência emocional intensa
mostram um cenário contrastante: enquanto apenas certas áreas
do cérebro masculino se acendem, o delas vira uma árvore
de Natal. A quantidade, e o tipo, dos circuitos ativados pela emoção
é o que explica o fato de eles não tardarem a esquecer
os sentimentos provocados pela experiência, enquanto os delas
permanecem nitidamente impressos na memória e prontos
a causar muitas desavenças conjugais pelas décadas
vindouras.
Outro
traço que as mulheres têm de forma muito mais acentuada
que qualquer outro primata é a ovulação oculta
os homens, e quase sempre as próprias mulheres, não
sabem quando elas estão férteis. Trata-se de um truque
que ofereceu a elas, e à espécie em geral, uma série
de vantagens evolutivas. O intrigante é que essas vantagens
foram mudando de figura no decorrer do tempo. Os machos de muitas
espécies matam os filhotes gerados por outros machos para
tirar a fêmea da lactação, fecundá-la
de novo e garantir que os seus genes, e não os do concorrente,
passem adiante. Especula-se que, nos primórdios da humanidade,
não tenha sido diferente. Mas, se a fêmea é
capaz de ocultar sua ovulação, fica difícil
dizer quem é o verdadeiro pai da criança e
eliminar a cria deixa de ser uma opção. À medida
que o homem foi se tornando um animal social e politicamente organizado,
entretanto, a ovulação oculta começou a atender
a outro propósito: o de manter o parceiro interessado. Já
que ele não sabe se seu chute foi a gol, é preciso
insistir no treino.
Como,
no ser humano, biologia e cultura sempre andam juntas, começam
a surgir evidências de que hoje as mulheres tiram dessa característica
outra vantagem ainda: a de pular a cerca sem dar na vista. Desde
que as peculiaridades do ciclo menstrual foram destrinchadas, no
século XX, elas podem saber quando estão ovulando
mas não precisam contar a ninguém. E há
mesmo provas de que elas olham muito mais para os lados durante
o período fértil e que os homens reagem mostrando-se
muito mais atenciosos nessa fase do mês do que em qualquer
outra. Pesquisadores da Universidade do Novo México, nos
Estados Unidos, se deram ao trabalho de medir a incidência
com que os maridos dão buquês de flores, fazem telefonemas
inesperados e convidam para jantares românticos, e descobriram
que esses mimos coincidem maciçamente com o período
fértil das esposas. Ou seja, ambos estão atendendo
a desejos ancestrais: elas, o de procurar sempre os melhores genes
para combinar aos seus, e eles, o de vigiar a sua fêmea
mas com táticas que empregam todos os benefícios da
civilização.
Em
sua busca ancestral pelo melhor material genético, as mulheres
não raro pulam a cerca de fato. Estudos feitos nos Estados
Unidos indicam que em média 10% das crianças não
são filhos biológicos dos maridos de suas mães,
e sim fruto de escapulidas conjugais. Em outra pesquisa recente,
realizada por dois cientistas americanos com um universo de 349
pessoas casadas de ambos os sexos, nada menos que 34% das entrevistadas
tinham fantasias sexuais freqüentes com outros homens. Sejam
casadas ou solteiras, no entanto, as mulheres não chegam
nem perto da performance dos homens quando o assunto é variação
de parceiros. Embora elas costumem ser evasivas sobre o assunto
mesmo em pesquisas, as estatísticas sugerem que os homens
têm pelo menos três vezes mais relações
fortuitas o tal sexo casual. Garotas liberadas como as da
série Sex and the City podem até existir em
maior número do que antigamente, mas ainda são uma
exceção à regra. "As mulheres que praticam
sexo casual sempre foram minoria e, mesmo com a liberação
feminina, continuam a ser um fenômeno restrito aos grandes
centros urbanos, onde podem ter relações anônimas
sem ferir sua reputação", disse a VEJA o evolucionista
David Buss, autor de um estudo fundamental sobre a psicologia do
sexo, intitulado A Evolução do Desejo.
A voracidade
sexual masculina é reflexo da velha meta biológica
de fecundar o maior número possível de parceiras.
No meio científico, ganhou o nome de efeito Coolidge, em
referência ao ex-presidente americano Calvin Coolidge (1872-1933).
Certa vez, ele e sua mulher visitaram, separadamente, uma fazenda.
Ao saber que um galo copulava dúzias de vezes ao dia, a primeira-dama
se impressionou. "Contem isso ao presidente", pediu ela aos assessores.
Mais tarde, ao ser informado, Coolidge também ficou curioso
mas a respeito das parceiras do galo. Descobriu que eram
sempre frangas diferentes. "Contem isso para minha mulher", devolveu
ele. Os machos de muitas espécies não medem esforços
ou riscos em seu apetite por novas conquistas amorosas. Num certo
tipo de sapo, os indivíduos são tão rápidos
no gatilho que às vezes, por engano, investem sobre rivais
do mesmo sexo que emitem um ruído de alarme para avisar
sobre o equívoco. O homem da idade da pedra também
era insaciável: há evidências arqueológicas
de que era comum que ele tivesse até dez mulheres.
Para
os cientistas, o fato de os machos humanos serem 15% maiores que
as fêmeas é um indicativo de que havia competição
violenta entre eles pela posse delas. Enquanto os vencedores conseguiam
propagar seus genes à vontade, aos perdedores restava se
aproveitar dos vacilos dos rivais quando estes partiam para
uma longa caçada, por exemplo , para ter acesso às
mulheres. Uma estratégia adotada pelos machos de algumas
espécies de animais permanece até hoje em voga entre
os homens: se ele não é o líder do pedaço,
pode tirar bom proveito da amizade com o maioral. Veja-se, por exemplo,
o que pesquisadores descobriram sobre uma espécie australiana
de pássaro. Os machos menos vistosos não desgrudam
daqueles que são mais coloridos e apreciados pelas fêmeas.
Ficam sempre por perto, cooperam com o casal e, quando o
titular menos espera, fecundam a fêmea. Entre os homens, os
amigos também podem ser rivais traiçoeiros. Segundo
David Buss, os companheiros mais íntimos de um homem são
aqueles que têm mais condições de vir a traí-lo
sob o manto da fraternidade, podem acalentar desejos inconfessáveis
pela namorada alheia e, com sorte, até concretizá-los.
A evolução forneceu aos machos humanos, ainda, uma
característica psicológica que as mulheres detestam:
eles são capazes de se apaixonar loucamente e fazer as maiores
juras de amor para logo se desinteressarem da parceira. E
ambos os sexos aprenderam que uma boa intriga pode ser uma arma
valiosa para desancar eventuais concorrentes. Pesquisadores da Universidade
do Texas fizeram um estudo para saber até que ponto as pessoas
são capazes de se valer da maledicência para fisgar
um parceiro alheio. Nada menos que 60% dos homens e 53% das mulheres
responderam que já haviam tentado sabotar alguma relação
e disseram-se bem-sucedidos em um terço dessas tentativas.
A
psicologia evolutiva mostra que o modo de pensar dos homens muda
radicalmente quando eles estão à procura de uma parceira
fixa. Quando isso acontece, eles revelam-se tão seletivos
quanto as mulheres, pois estão fazendo aquilo que os cientistas
chamam de "alto investimento parental" numa futura prole
quer dizer, abdicam da estratégia de propagar seus genes
com o maior número de fêmeas possível e passam
a apostar suas fichas numa eleita. Nessa hora, eles podem até
enumerar inteligência, simpatia e companheirismo como atributos
desejáveis numa mulher. Mas a herança ancestral faz
com que procurem, acima de tudo, outras qualidades: beleza e juventude.
Eis um exemplo brasileiro: na agência de relacionamentos virtual
Comovai, que possui um cadastro de mais de 350.000
clientes, a maioria dos candidatos ao altar é composta de
quarentões à procura de mulheres na faixa dos 20 aos
30 anos. "Os homens não querem mesmo saber das feias e das
mais velhas. É muito triste", diz a psicóloga Marly
Kotujansky, sócia da agência.
A
ciência vem demonstrando que, ao embarcar num casamento, os
homens sofrem uma notável alteração biológica.
No ano passado, pesquisadores da Universidade Harvard compararam
os níveis de testosterona de solteirões e de maridos
que dedicam boa parte de seu tempo à família. É
esse hormônio que regula, entre outras coisas, o apetite sexual
e a agressividade dos homens. Verificou-se que a quantidade de testosterona
no organismo dos casados tende a ser menor do que naqueles indivíduos
que estão livres, leves e soltos no mercado da azaração.
Ou seja: não é à toa que muitos se tornam mais
pacatos depois do casamento, transferindo a energia que gastariam
na corte às fêmeas para tarefas como levar as crianças
ao shopping e passear com o poodle da família.
Qualquer
homem ou mulher à procura de um parceiro sabe, por experiência
e intuição, que o tipo de social-darwinismo descrito
por Candace Bushnell continua vivo e operante no território
romântico. O biólogo Kevin J. McGraw, da Universidade
Cornell, nos Estados Unidos, achou que seria possível traduzir
a competição em números. McGraw examinou milhares
de classificados pessoais publicados por mulheres em jornais de
23 cidades americanas, e chegou a conclusões no mínimo
curiosas. Nas cidades maiores, onde há grande disputa pelos
"recursos naturais" emprego, residência, dinheiro ,
os requisitos mais comuns são que o candidato seja "financeiramente
estável", ou "profissional e inteligente". Nas menores, onde
os confortos do dia-a-dia são mais acessíveis, as
mulheres tendem a enfatizar, em seus anúncios, as qualidades
morais e sentimentais da alma gêmea que gostariam de encontrar.
O mais
intrigante na espécie humana é que a quantidade de
semelhanças entre os sexos supera em muito a quantidade de
diferenças. Nas outras espécies não é
assim. Pavões machos têm cauda longa, colorida e ornamentada,
enquanto suas fêmeas são arrematadas por umas poucas
peninhas sem graça. Cervos machos ostentam galhadas impressionantes,
mas, na maioria das espécies, suas fêmeas não
têm chifres. Já homens e mulheres compartilham todos
os seus "adornos sexuais" seu gosto pelo esporte, pela arte,
pela linguagem e pelo poder. Isso nos torna realmente uma espécie
única. A pavoa não precisa ter uma cauda bela para
apreciar a dos machos à sua volta. Mas uma mulher tem de
dominar os refinamentos da linguagem para entender que um homem
que usa melhor as palavras lhe está fazendo uma corte mais
elaborada que a do pretendente que não sabe juntar o sujeito
ao predicado. Um homem tem de ter algum senso estético para,
naquela visita à galeria de arte com a namorada, não
dizer que a pintura que ela tanto apreciou parece ter sido feita
por uma criança de 5 anos. Quando homens e mulheres produzem
e assimilam cultura, pode-se dizer que estão refinando suas
estratégias de sedução, ainda que nem lhes
ocorra que é isso que estão fazendo, e que os benefícios
são muito mais amplos do que o sucesso com o sexo oposto.
Em suma: homens e mulheres têm de se aprimorar sempre, e no
mesmo passo, para serem capazes de julgar os méritos uns
dos outros e atribuir-lhes o devido valor. A seleção
sexual pode ser o mais antigo e primitivo de nossos instintos. Mas
é ela que nos faz civilizados.
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