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Rio
de Janeiro
O
milagre da gasolina
Juíza
faz de cidade que não tem petróleo nem
refinaria pólo de distribuição de combustível

Marcelo
Carneiro
Reginaldo Teixeira
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A sede da Sul
Petróleo, transferida para Nova Friburgo: pátio
vazio
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Dez
anos atrás, o mercado brasileiro de combustíveis era
dominado por dez grandes companhias. Com a desregulamentação
do setor, quase 250 distribuidoras entraram em uma guerra que movimenta
anualmente 100 bilhões de reais. Nos últimos tempos,
essa disputa ganhou os tribunais. Hoje, 30% das distribuidoras sobrevivem
à base de liminares recurso que tem garantido vários
benefícios, dos quais o principal é a isenção
de recolhimento de impostos na compra de combustíveis. Para
as empresas, é uma formidável vantagem diante da concorrência.
Para o governo, que neste ano já perdeu 800 milhões
de reais em impostos não pagos, uma tragédia. A liminar
é um instrumento legítimo, mas os despachos de alguns
magistrados têm causado polêmica e das grandes.
Um desses casos é o da juíza federal Cláudia
Valéria Bastos, do Rio de Janeiro. Suas liminares transformaram
Nova Friburgo, uma cidade do interior fluminense, numa espécie
de capital brasileira do petróleo. Cláudia Valéria
tornou-se juíza da cidade em dezembro de 2001. A partir de
sua chegada, seis distribuidoras instalaram-se em Nova Friburgo,
município cuja produção petrolífera
é tão grande quanto a do planeta Vênus. De lá
para cá, graças às liminares concedidas pela
juíza, 150 milhões de reais deixaram de entrar nos
cofres públicos.
Essas
empresas jamais se transferiram de fato para Nova Friburgo. Apenas
formalizaram na Junta Comercial uma alteração de sede
ou filial, garantindo o direito de ingressar com ações
na cidade. Algumas distribuidoras se limitaram a alugar salas de
menos de 30 metros quadrados e apenas duas obtiveram alvará
de funcionamento junto à prefeitura. Mesmo assim, conquistaram
liminares na vara comandada pela juíza. Já tinha sido
assim em Angra dos Reis, outra cidade fluminense sem nenhuma tradição
petrolífera em que a juíza havia trabalhado, em 2001.
Lá, dezesseis empresas foram beneficiadas em duas ações,
e catorze não tinham sequer domicílio na cidade. Nesses
processos, chama a atenção o nome de Jorge Bloise,
que defende as distribuidoras. Bloise é também advogado
da juíza em ações que tramitam na Justiça
do Rio. Ou seja, Cláudia Valéria deu ganho a causas
defendidas por um advogado de quem ela é cliente. "Já
se sabia que certas distribuidoras corriam atrás de uma decisão
favorável da doutora Cláudia, onde ela estivesse.
Agora, descobre-se que um advogado que presta serviços a
ela defende as empresas. Essa mistura de interesses deve ser analisada
com rigor", diz Alísio Vaz, diretor do Sindicom, que reúne
doze das maiores distribuidoras de combustível do país.
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Oscar Cabral
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A
juíza Cláudia Valéria e
o prédio onde comprou um
apartamento de frente para
o mar do Rio
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A partir
de 2002, quando Cláudia Valéria já se encontrava
em Nova Friburgo, continuando a conceder despachos favoráveis
às distribuidoras, registrou-se também um aumento
considerável em seu patrimônio. Aos 39 anos e com três
filhos, a magistrada tem um salário bruto de 11.000
reais, e cerca de 20% desse rendimento é consumido pelo pagamento
das prestações de um imóvel na Barra da Tijuca,
comprado em junho de 2000, no valor de 225.000
reais. Isso não impediu que, em outubro do ano passado, adquirisse
um novo apartamento. Aliás, um apartamentaço, pelo
qual pagou 1,3 milhão de reais, comprometendo-se com prestações
de 24.000 reais, o dobro de seu salário.
O imóvel, que tem 260 metros quadrados, quatro quartos e
varandão debruçado sobre o mar da Barra, foi comprado
em conjunto com Allyrio de Mello, com quem a juíza se casou
recentemente. Até então, Allyrio um músico
desconhecido era proprietário apenas de um modesto
apartamento na Zona Norte da cidade. A juíza e seu marido
também organizaram, em maio deste ano, uma festa de casamento.
A recepção, na Villa Riso, uma das principais casas
do gênero no Rio, ficou a cargo dos mais requisitados profissionais
do ramo. VEJA estimou com dois conhecidos festeiros da cidade o
custo do rega-bofe: cerca de 100.000
reais. Nas últimas semanas, VEJA tentou várias vezes
entrar em contato com a juíza. Em duas delas, Cláudia
Valéria chegou a marcar entrevista, desistindo em seguida.
"A doutora disse que não quer se pronunciar", informou Carmem
Varella, supervisora da seção de imprensa da Justiça
Federal.
Dezenas
de distribuidoras em todo o país têm obtido liminares
dadas por juízes. O que chama a atenção, no
caso de Nova Friburgo, é que, mesmo alertada sobre a fraude
praticada pelas empresas, ao simular domicílio na cidade,
Cláudia Valéria insistiu em manter a maioria de suas
decisões. A juíza já sofreu duas representações
na corregedoria do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.
Em uma delas, o procurador regional da Fazenda Nacional, Carlos
Roberto Stuart, pede a instauração de correição
para constatar "a prática de erros, omissões ou abusos"
na concessão das liminares, baseado no fato de que as empresas
não tinham capacidade para atuar como distribuidoras. Em
um ofício de resposta, Cláudia Valéria disse
que "não compete ao juízo fiscalizar o domicílio
da parte nem a atividade que desempenha". No mês passado,
no entanto, após uma reportagem do jornal O Dia mostrando
que uma das distribuidoras, a Sul Petróleo, mantinha apenas
um depósito vazio na cidade, a juíza pediu que um
oficial de Justiça constatasse o funcionamento da empresa.
Através da assessoria de imprensa da Justiça Federal,
a doutora Cláudia Valéria disse que a organização
está funcionando e tem inscrição na Secretaria
Estadual de Fazenda. VEJA apurou, porém, que a Sul Petróleo
não possui alvará de funcionamento junto à
prefeitura de Nova Friburgo.
Liminares
desse tipo têm vida curta, sendo cassadas por tribunais superiores.
Durante a vigência, porém, dão às companhias
o direito de comprar milhões de litros de combustível
sem pagar imposto. Um dos despachos dados pela juíza beneficiou,
por onze dias, em março deste ano, a empresa Scorpion. Nesse
período, a distribuidora retirou, na refinaria de Paulínia,
33,5 milhões de litros de gasolina, ficando isenta do pagamento
de 18 milhões de reais em tributos. No mesmo mês, a
BR Distribuidora, maior empresa do setor, retirou 22,3 milhões
de litros, bem menos que a então desconhecida Scorpion.
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