Edição 1812 . 23 de julho de 2003

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Previdência
A discussão das migalhas

Depois de enorme celeuma, define-se a
reforma da Previdência, mas esquece-se
que o déficit permanecerá monumental


Maurício Lima

Em profundidade: Reforma da Previdência

No território dos números, a mais recente mudança na reforma da Previdência, que deixou tanta gente em polvorosa por dez dias, é uma discussão de migalhas. O gráfico abaixo mostra a razão. Se o Palácio do Planalto insistisse em sua proposta original, levada ao Congresso há mais de dois meses, o déficit da Previdência dos servidores públicos seria de 550 bilhões de reais ao fim de vinte anos. Agora, com a mudança acertada na semana passada, devolvendo aos servidores o direito à aposentadoria integral, o déficit será um pouco maior: 552 bilhões de reais. Não se sabe ao certo se os números, apresentados pelo Ministério da Previdência, são fiéis à realidade, e talvez o déficit, num período de duas décadas, aumente mais que meros 2 bilhões de reais – mas o fato é que o rombo da Previdência dos servidores é tão monumental que 1 bilhão a mais ou a menos não muda o quadro geral. A questão central, infelizmente, é a seguinte: a Previdência dos servidores está longe de se tornar um sistema auto-sustentável e permanecerá como principal elemento do rombo nas contas públicas. Essa questão não foi enfrentada na chamada reforma da Previdência. A estrutura da Previdência permanece a mesma. Mesmo reformado, o sistema não levará em conta que os servidores públicos deveriam se aposentar com aquilo que restar de suas contribuições ao longo da vida útil, somando-se aí as do governo, para que a Previdência possa continuar existindo e esteja em condições de garantir aposentadorias no futuro.

Roberto Castro/AE

Governadores, em reunião no Palácio: eles voltaram a se sentir respeitados pelo governo

A versão renegociada na semana passada trouxe boas novidades para o funcionalismo público. Os atuais servidores, que na proposta original passariam a receber o máximo de 2.400 reais de aposentadoria, o mesmo que o pessoal da iniciativa privada, voltaram a ter direito à aposentadoria integral. Para tanto, precisam atender, simultaneamente, a quatro condições: ter vinte anos de serviço, dez anos de carreira, 35 anos de contribuição (ou trinta, para as mulheres) e 60 anos de idade (ou 55, no caso das mulheres). A renegociação também garantiu a chamada paridade, que dará aos inativos os mesmos reajustes salariais que os ativos venham a receber. Para não desfigurar por completo o projeto, os aposentados do serviço público passarão a pagar 11% de contribuição previdenciária na parcela que exceder 1 058 reais, e os futuros servidores não terão aposentadoria integral. Receberão, no máximo, 2.400 reais e, se quiserem mais que isso, deverão recorrer a um plano de previdência privada, como acontece com os mortais comuns da iniciativa privada.

"Foi uma solução possível e viável", diz Ricardo Berzoini, ministro da Previdência. Com as concessões de última hora, já incluídas no relatório do deputado José Pimentel (PT-CE) que passará a ser analisado pelo Congresso, estabeleceu-se um clima de concórdia. As entidades dos servidores públicos ficaram um pouquinho mais mansas, os parlamentares governistas ficaram satisfeitos por achar que a nova proposta é menos agressiva com a base eleitoral dos servidores, e os governadores de Estado, que andavam irritados com a flexibilidade do governo Lula em fazer concessões à menor pressão, voltaram a se sentir respeitados pelo Palácio do Planalto. Mas, apesar das concessões, há quem ainda esteja reclamando: o Poder Judiciário. Duas semanas atrás, tinha-se a impressão de que o lobby do Judiciário mudaria por completo a reforma e arrancaria grandes benefícios perpétuos para os homens da toga.

Não foi bem assim. Na semana passada, assim que os novos termos da proposta foram divulgados, as entidades que representam juízes e procuradores lançaram uma carta temendo pelo destino da carreira já que, sem aposentadoria integral, os futuros formados em direito tenderiam a procurar os grandes escritórios de advocacia, solapando a qualidade do Judiciário. Alguém precisa dizer a eles que nenhum futuro juiz ou procurador precisa viver com 2.400 reais na aposentadoria. Basta recorrer à previdência privada, pagar quanto quiser e, no fim da carreira, receber quanto quiser – como acontece com os mortais do INSS que querem uma aposentadoria maior. O ministro Maurício Corrêa, chefe do Supremo Tribunal Federal, a maior corte do país, também reclamou. Achou que a criação dos "subtetos", que definem uma escala decrescente de salários para os três poderes, é aberrante.

Os subtetos que irritaram Corrêa estabelecem que um ministro do Supremo receberá o mais alto salário do Judiciário, 17.000 reais. Os juízes estaduais embolsarão 75% disso, ou 12.750 reais. E assim por diante. É uma forma de racionalizar a remuneração dos membros de um mesmo poder e evitar a gandaia salarial, em que um juiz de um Estado qualquer, por meio de dezenas de artifícios, ainda que legais, pode vir a ganhar mais que um ministro do Supremo. No Executivo, o subteto impede que um prefeito receba mais que o presidente da República. E, no Legislativo, que um vereador tenha uma remuneração superior à de um senador. Os juízes acham que essa escala salarial, no seu caso, cria uma distinção incorreta entre eles. Pela escala, por exemplo, um juiz federal, por ser federal, ganhará mais que um desembargador, que, apesar de ocupar o mais alto cargo da magistratura nos Estados, receberá menos porque atua no plano estadual – e não no federal. "É inexplicável", protestou Corrêa. Vem barulho aí.

Os personagens envolvidos na reforma da Previdência resistem à compreensão do fenômeno maior. A Previdência dos funcionários públicos tem um déficit de 3,5% do PIB brasileiro, embora atenda 3,2 milhões de pessoas. Já o INSS tem déficit bem inferior, de 1,5% do PIB, mas atende 17,5 milhões de brasileiros. Trata-se, pois, de um sistema injusto. De todo o dinheiro que a Previdência brasileira gasta, 65% atendem 20% dos aposentados do serviço público. A parcela restante, de 35% dos recursos, é dividida pela grande massa, 80% dos aposentados do INSS, segundo cálculos do economista José Márcio Camargo. É um sistema altamente concentrador de renda, portanto. Mas quem não se interessa por justiça social precisa ao menos levar em conta que, além disso, o déficit previdenciário é de uma grandeza insustentável a longo prazo. Emperra o desenvolvimento do país e, mais cedo ou mais tarde, destruirá o próprio sistema previdenciário. Esse é o ponto.

 

Montagem sobre foto de Valdemir Cunha


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