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Diplomacia
O
clube dos esfarrapados
Lula
fascinou os europeus por sua biografia
e espontaneidade, mas seu giro será lembrado
pela proposta ingênua de criar um bloco
dos países emergentes
Ed Ferreira/AE
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Lula
com Blair, em
Londres: o inglês mostrou camaradagem, mas ficou constrangido
com as críticas
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O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria mais cuidado se
soubesse a velocidade com que na Europa se transforma em mera curiosidade
o fascínio exercido por líderes muito originais do
Terceiro Mundo. A história mostra que esses salamaleques
raramente evoluem para o estabelecimento de laços diplomáticos
ou comerciais mais vantajosos para os ilustres representantes da
faixa pobre do planeta. "A Europa nunca perde. Os países
europeus são muito mais duros e intransigentes na defesa
de seus interesses comerciais que os Estados Unidos", diz o francês
Philippe Roger, professor da Escola de Altos Estudos em Ciências
Sociais de Paris, autor do livro O Inimigo Americano, que
explica as raízes históricas da má vontade
dos franceses com relação à América
do Norte.
Pelo que se viu na semana passada, começaram a despontar
os primeiros sinais de uma certa reserva a respeito de Lula entre
os setores mais conservadores da Europa. O jornal inglês The
Times, um dos termômetros dessa faixa da opinião
pública, considerou "populista" a proposta de Lula de recriar
a polarização Norte-Sul, que nos anos 70 foi um grande
mobilizador do sentimento antiamericano. A avaliação
de Lula sobre a atual situação de injustiça
no mundo foi precisa e colocada em uma linguagem que os europeus
entendem. O presidente brasileiro disse que existe um apartheid
comercial em que os países ricos erguem barreiras intransponíveis
para os produtos das economias pobres. Certo. Lula disse ainda que
essas barreiras condenam à miséria centenas de milhões
de pessoas no Terceiro Mundo. Certo, outra vez. A terapia sugerida
pelo brasileiro, no entanto, é ingênua. Além
de apelar para a imagem desconcertante de um "grande abraço
mundial" contra a pobreza, Lula insistiu em uma tese que é
quase uma obsessão sua. Ele sugeriu a organização
de um bloco que reunisse China, Índia e os países
pobres e emergentes para se contrapor ao bloco dos países
ricos nas negociações comerciais.
Não passa um mês sem que Lula queira criar um fórum,
um congresso, um organismo qualquer. Desde que se trate de algum
lugar onde as pessoas possam fazer vibrar sua retórica por
um mundo melhor, Lula acha que vale a pena. Quando a ONU discutia
a intervenção americana no Iraque, ele propôs
a criação de um fórum internacional paralelo
com propósitos semelhantes também discutir
a intervenção americana no Iraque. Com um pouco de
pesquisa sobre o que ocorre no mundo, a assessoria de Lula poderia
alertar o presidente para o arcaísmo dessas idéias.
Já existiu um Movimento dos Países Não-Alinhados
nos anos 70. Ele reunia nações como Argélia,
Cuba, Iugoslávia, Índia e Líbia. Os não-alinhados
mal disfarçavam o fato de serem um instrumento da política
da União Soviética. O movimento projetou mundialmente
ditadores vitalícios carismáticos, como o coronel
Muamar Kadafi, da Líbia, e o argelino Houari Boumedienne.
Ao reviver vagamente essa idéia aplicada não mais
à política e sim ao comércio mundial, o presidente
brasileiro parece achar pequenas as dificuldades de implantar a
coisa na prática. Como fica claro nas demandas na Organização
Mundial do Comércio (OMC), tanto os países ricos quanto
os pobres têm interesses tão particulares e antagônicos
que dinamitariam qualquer bloco no nascedouro. Para começo
de raciocínio, ele não contaria com a China, que quer
se tornar a primeira potência econômica mundial dentro
de duas ou três décadas, e não o líder
de um bloco de esfarrapados.
Lula leva uma grande vantagem em suas aparições internacionais.
Ele é simpático, espontâneo e carrega uma biografia
que encanta os potentados dos países ricos, hipnotizados
pela história do operário que virou presidente num
país que, imaginam os europeus, é uma caixa de concreto
em relação à mobilidade social de seus habitantes.
O presidente brasileiro, sempre muito à vontade e sorridente,
arrancou gargalhadas da platéia quando criticou os Estados
Unidos ao falar de improviso no seminário da Governança
Progressista, em Londres. "Uma coisa que admiro nos americanos é
o fato de eles pensarem primeiro neles, em segundo lugar neles e,
em terceiro, neles também. E, se houver tempo, pensarão
neles ainda."
Os americanos são exatamente assim, como também são
assim os alemães, os curdos e os habitantes da Ilha da Madeira.
Isso não significa que Lula deva dizê-lo oficialmente
num fórum internacional, semanas depois de um encontro com
George W. Bush na Casa Branca, em que ambos os lados ressaltaram
a empatia pessoal entre os dois presidentes. A disposição
do brasileiro em relação aos EUA pareceu tão
favorável nesse encontro que o presidente argentino chegou
a criticar Lula pelo que considerou um excesso de amabilidade. Com
oscilações assim, fica-se sem saber, afinal, para
que lado está se inclinando a diplomacia brasileira. Ela
aponta para a criação do bloco de comércio
das Américas, junto com os Estados Unidos e todos os outros
países do continente, exceto Cuba, ou, ao contrário,
quer confrontar o poder comercial dos americanos, junto com os companheiros
do Terceiro Mundo? Ou ainda, como a biruta dos aeroportos, se estica
a cada momento para um ponto cardeal diferente?
Recentemente, o embaixador brasileiro em Cuba, Tilden Santiago,
que foi deputado federal pelo PT de Minas Gerais e não pertence
aos quadros do Itamaraty, defendeu as execuções sumárias
de dissidentes feitas recentemente pelo regime de Fidel Castro,
um ato que recebeu o repúdio do mundo inteiro. A embaixadora
americana no Brasil, Donna Hrinak, está provavelmente desnorteada
por manifestações tão contraditórias.
E o governo Lula, em matéria de política internacional,
dá toda a sensação de também estar.
| DÁ
ATÉ PENA! |
Diomocio
Gomes/ O Popular/ AE
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Fila em busca de emprego: taxa
nas alturas
|
Na
semana passada, o PSDB fez a estréia documentada
no papel de oposição ao governo petista.
A cúpula tucana lançou um balanço
de onze páginas da atual gestão, sob o
título "Seis meses do jeito petista de governar".
O documento usa uma retórica ferina e resume
a avaliação do governo em apenas quatro
palavras, devidamente grifadas na versão original:
"incoerência, confusão, fisiologismo e
incompetência". Uma parte do balanço tucano
traz críticas sérias e consistentes. Baixa
o sarrafo no aumento da taxa de desemprego, que cresce
à razão de 100 000 desocupados por mês.
Critica o crescimento de apenas 1,5% do PIB previsto
para este ano. Fala da apatia do governo diante da balbúrdia
promovida pelo Movimento dos Sem-Terra. Censura a intromissão
nas agências reguladoras, particularmente na área
de telecomunicações, e lembra que a atuação
do governo no setor de energia elétrica foi tão
temerária que chegou a provocar o cancelamento
de 5,2 bilhões de reais de investimentos privados.
Nisso, o documento é sólido e coerente.
Mas, quando substitui a avaliação técnica
pela análise política, o documento dos
tucanos derrapa feio e, no afã de produzir críticas,
chega a ser cômico. Em síntese, o PSDB
acusa o PT de ser neoliberal. Censura o governo por
estar jogando "suas fichas numa política ortodoxa
de austeridade fiscal"! Em seguida, critica a aproximação
dos petistas com o chamado Consenso de Washington! Acusa
o governo de só querer agradar "o mundo financeiro",
causando desalento aos "trabalhadores"! E encerra seu
raciocínio com o seguinte: "O governo parece
apostar tudo na recuperação da confiança
do mercado financeiro pela aplicação ultra-ortodoxa
do receituário neoliberal"! O diagnóstico
da turma do PSDB não está equivocado,
mas a crítica fica estranhíssima no bico
dos tucanos. Afinal, o que o documento quer dizer? Que
a política econômica de Lula fiel
à política de Pedro Malan, pelo menos
até aqui está equivocada? Que,
se e quando o governo atual der uma guinada na política
econômica, o PSDB aplaudirá? Que o PSDB
não gosta da política adotada no governo
do PSDB?
Seria até razoável se, com tais críticas,
os tucanos estivessem querendo mostrar que o PT deu
uma guinada ideológica, migrou para o centro
do espectro político, esqueceu sua trajetória
histórica e, finalmente, rendeu-se à
verdade que os tucanos tanto repisaram nos últimos
anos. Mas não. O documento critica o efeito,
o resultado da mudança ideológica e seu
corolário em termos de política econômica.
Chega a acusar o governo de adotar "orientação
marcadamente neoliberal" e de montar uma equipe ministerial
com "empresários sem ligação com
o PT" em detrimento dos "muitos intelectuais petistas
históricos". Nesses trechos, o leitor sai com
a impressão de que os tucanos viraram guardiães
da trajetória histórica do PT. O balanço
produzido pelo PSDB, no fundo, revela a dificuldade
dos tucanos de encontrar um discurso de oposição,
tendo, diante de si, um governo que, em aspectos centrais,
segue a mesma política do próprio PSDB.
Intelectualmente, o documento não faz jus à
figura mais expressiva do partido.
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