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Diogo
Mainardi
O
que eu faria
em São Paulo
"Eu
construiria um muro, igual ao de Berlim, que dividisse a cidade
ao meio: São Paulo
do Leste e São Paulo do Oeste. Quem quisesse
ir de carro de um lado para o outro teria
de pagar pedágio. Uma cidade de 18 milhões é
ingovernável. Duas de 9 milhões, um
pouco menos"
"Declare
seu amor à cidade." É o lema da festa dos 450 anos
de São Paulo. Claro que ninguém ama São Paulo.
Claro que não há o que festejar. São Paulo
envelheceu mal. Em 450 anos, tornou-se inabitável. E continua
a piorar.
O passatempo predileto de Hitler era projetar a transformação
urbana de sua cidade, Linz. O meu passatempo predileto é
projetar a transformação urbana de São Paulo.
Hitler se suicidou em meio às maquetes dos edifícios
que planejava construir em Linz, como um teatro, uma biblioteca
e um museu com as obras de arte que havia pilhado no resto da Europa.
Eu não pretendo me suicidar. E não sugiro construir,
em São Paulo, um teatro, uma biblioteca ou um museu. Se pedissem
minha opinião, eu construiria apenas um muro, igual ao Muro
de Berlim, que dividisse a cidade ao meio: São Paulo do Leste
e São Paulo do Oeste. Em seguida, trataria de consolidar
a separação entre as duas metades, atacando diretamente
o bolso dos moradores. Quem quisesse ir de carro de um lado para
o outro teria de pagar pedágio. Quem quisesse ir de ônibus,
tarifa interurbana. Quem quisesse telefonar, DDD. Os moradores de
um lado não se misturariam com os do outro. Uma cidade de
18 milhões de habitantes é ingovernável. Duas
cidades de 9 milhões, um pouco menos.
ONU e Banco Mundial vivem promovendo congressos sobre megalópoles.
A principal recomendação é investir em transporte
público. Talvez possa funcionar em outras megalópoles
do Terceiro Mundo, como Calcutá, Cairo ou Lagos. Em São
Paulo, não funciona. Por mais que se gaste em metrô
e corredores de ônibus, nunca será o bastante. São
Paulo simplesmente não poderia ter crescido tanto assim.
Ela não comporta essa gente toda. Eu faria o contrário
do que recomendam as instituições internacionais.
Prejudicaria ainda mais a viabilidade, bloqueando ruas e criando
grandes áreas de pedestres em torno de cada bairro, a fim
de impossibilitar o tráfego e ilhar seus habitantes. Depois
de dividir São Paulo ao meio, portanto, eu daria o passo
sucessivo, com sua fragmentação em centenas de bolsões.
O dinheiro público seria investido integralmente nos bolsões
mais pobres, sobretudo em habitação e saneamento.
O problema de São Paulo é o mesmo do Brasil: capital
e emprego estão concentrados num lugar só. O jeito,
então, é desconcentrar na marra. Alguém tem
uma idéia melhor?
Outro passatempo meu, não de Hitler é
conferir licitações e contratos de órgãos
públicos. Gosto de ver para onde está indo meu dinheiro.
Não o dinheiro graúdo. Esse aí podem desperdiçar
à vontade. O que me incomoda é o dinheiro miúdo.
Sou mesquinho. Penso pequeno. O Palácio do Planalto encomendou
110 bandeiras nacionais. É demais. Será que não
bastavam cinqüenta? Os deputados são ainda mais perdulários.
Gastaram 148.512 reais em café
torrado e moído. Eu não concordo. Pago o salário
e a aposentadoria deles. Recuso-me a pagar também o cafezinho.
Em outra licitação, os deputados gastaram 52.500
reais em biscoitos e leite em pó. E mais 40.000
na odontoclínica Diniz Machado. E 12.000
pelos direitos de transmissão do documentário Senta
a Pua. E 5.625.000
em publicidade. Eu faço publicidade negativa. É mais
um dos meus passatempos.
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