Edição 1812 . 23 de julho de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
VEJA on-line
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Diogo Mainardi
O que eu faria
em São Paulo

"Eu construiria um muro, igual ao de Berlim, que dividisse a cidade ao meio: São Paulo
do Leste e São Paulo do Oeste. Quem quisesse
ir de carro de um lado para o outro teria
de pagar pedágio. Uma cidade de 18 milhões é
ingovernável. Duas de 9 milhões,
um pouco menos"

"Declare seu amor à cidade." É o lema da festa dos 450 anos de São Paulo. Claro que ninguém ama São Paulo. Claro que não há o que festejar. São Paulo envelheceu mal. Em 450 anos, tornou-se inabitável. E continua a piorar.

O passatempo predileto de Hitler era projetar a transformação urbana de sua cidade, Linz. O meu passatempo predileto é projetar a transformação urbana de São Paulo. Hitler se suicidou em meio às maquetes dos edifícios que planejava construir em Linz, como um teatro, uma biblioteca e um museu com as obras de arte que havia pilhado no resto da Europa. Eu não pretendo me suicidar. E não sugiro construir, em São Paulo, um teatro, uma biblioteca ou um museu. Se pedissem minha opinião, eu construiria apenas um muro, igual ao Muro de Berlim, que dividisse a cidade ao meio: São Paulo do Leste e São Paulo do Oeste. Em seguida, trataria de consolidar a separação entre as duas metades, atacando diretamente o bolso dos moradores. Quem quisesse ir de carro de um lado para o outro teria de pagar pedágio. Quem quisesse ir de ônibus, tarifa interurbana. Quem quisesse telefonar, DDD. Os moradores de um lado não se misturariam com os do outro. Uma cidade de 18 milhões de habitantes é ingovernável. Duas cidades de 9 milhões, um pouco menos.

ONU e Banco Mundial vivem promovendo congressos sobre megalópoles. A principal recomendação é investir em transporte público. Talvez possa funcionar em outras megalópoles do Terceiro Mundo, como Calcutá, Cairo ou Lagos. Em São Paulo, não funciona. Por mais que se gaste em metrô e corredores de ônibus, nunca será o bastante. São Paulo simplesmente não poderia ter crescido tanto assim. Ela não comporta essa gente toda. Eu faria o contrário do que recomendam as instituições internacionais. Prejudicaria ainda mais a viabilidade, bloqueando ruas e criando grandes áreas de pedestres em torno de cada bairro, a fim de impossibilitar o tráfego e ilhar seus habitantes. Depois de dividir São Paulo ao meio, portanto, eu daria o passo sucessivo, com sua fragmentação em centenas de bolsões. O dinheiro público seria investido integralmente nos bolsões mais pobres, sobretudo em habitação e saneamento. O problema de São Paulo é o mesmo do Brasil: capital e emprego estão concentrados num lugar só. O jeito, então, é desconcentrar na marra. Alguém tem uma idéia melhor?

Outro passatempo – meu, não de Hitler – é conferir licitações e contratos de órgãos públicos. Gosto de ver para onde está indo meu dinheiro. Não o dinheiro graúdo. Esse aí podem desperdiçar à vontade. O que me incomoda é o dinheiro miúdo. Sou mesquinho. Penso pequeno. O Palácio do Planalto encomendou 110 bandeiras nacionais. É demais. Será que não bastavam cinqüenta? Os deputados são ainda mais perdulários. Gastaram 148.512 reais em café torrado e moído. Eu não concordo. Pago o salário e a aposentadoria deles. Recuso-me a pagar também o cafezinho. Em outra licitação, os deputados gastaram 52.500 reais em biscoitos e leite em pó. E mais 40.000 na odontoclínica Diniz Machado. E 12.000 pelos direitos de transmissão do documentário Senta a Pua. E 5.625.000 em publicidade. Eu faço publicidade negativa. É mais um dos meus passatempos.

 
 
 
 
topo voltar