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EM
FOCO: Gustavo Franco
O
oficial e o paralelo
"As
contas CC5 foram a chave para a
redução do paralelo à insignificância
em que se encontra, restrito ao ilegal,
e de onde não deve sair"
Ilustração Ale Setti
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Durante
muitos anos coexistiram, tal qual duas faces da mesma moeda, o dólar
oficial e o paralelo. Caixa um e caixa dois, a casa e a rua, para
usar a metáfora consagrada do antropólogo Roberto
da Matta.
Era uma época em que a "divisa" era escassa e estratégica,
de tal sorte que os gastos cambiais permitidos eram apenas aqueles
de "interesse nacional", o que parecia estar fora do alcance do
cidadão comum, pois nenhuma de suas demandas parecia enquadrar-se
nesse protocolo.
Como tudo era proibido, o dólar oficial, de tão reprimido
e irreal, tornava o paralelo uma parte obrigatória da paisagem,
como o então considerado inofensivo jogo do bicho. Éramos
um país muito fechado, mas mesmo assim, com freqüência,
o cidadão honesto, pai de família, e em dia com suas
obrigações tributárias, via-se compelido a
solicitar os serviços de um doleiro a fim de suprir-se das
preciosas divisas que lhe permitiam entregar-se à luxúria
supérflua de levar a família à Disneylândia.
Nesse quadro de monástica rigidez, o doleiro se tornava parte
da "casa", pois era o "jeitinho", a ferramenta para que pudessem
ser atendidas necessidades legítimas, que as leis e os regulamentos
ignoravam. E assim, uma vez na "sala de visitas", o doleiro ganhava
liberdade para conduzir suas outras atividades sem que ninguém
o incomodasse.
O ágio do paralelo com relação ao oficial era
uma espécie de medida da nossa hipocrisia, uma indicação
de quanto o Brasil oficial era menor que o informal, o verdadeiro,
o da rua. Ao final da década de 80, o ágio chegou
a 150%, e nessas condições é certo que nenhuma
transação cambial cursada no câmbio "oficial"
era "o que estava escrito". O "jeitinho" havia se tornado a regra.
Note-se que a cotação do "paralelo" era considerada
a "verdadeira", de maneira que a obrigatoriedade de transacionar
pelo oficial se apresentava para o exportador, por exemplo, como
um imposto. Por que ele estava obrigado a vender as divisas que
produzia ao Banco Central "pela metade do preço"? Por que
não subfaturar e receber "lá fora"? E o importador,
para o qual o "ágio" era indicativo de subsídio? Por
que não importar muito e superfaturar suas compras, que seriam
pagas com um dólar artificialmente baixo?
Isso tinha de ser transformado; e o sentido da mudança foi
claro. De um lado, mais realismo na formação da taxa
de câmbio, mediante o concurso obrigatório da lei da
oferta e da procura, e, de outro, menos proibições
e embaraços ao funcionamento da referida lei. A desregulamentação
trouxe mais e mais transações legítimas, antes
proibidas, para a luz do dia. E de tal sorte que nenhum cidadão
bem-intencionado precisasse mais dos serviços de um doleiro;
bastava ir ao banco e se identificar.
O cidadão comum pode, sim, remeter dinheiro para o exterior,
pois esse "fato cambial" em si nada significa se o indivíduo
está em dia com o Fisco. Não é crime de lesa-pátria,
mas conversibilidade, uma realidade da qual é difícil
escapar num mundo globalizado. É neste contexto que a ênfase
das autoridades se desloca do terreno cambial para o tributário,
o que representa uma pequena revolução cultural ainda
não inteiramente assimilada.
No plano técnico, a liberalização que se inicia
em 1988 e avança paulatinamente desde então teve como
um de seus pilares principais as chamadas contas CC5, contas bancárias
de não residentes, veículos genéricos nos quais
o princípio básico é a liberdade com perfeita
identificação. As CC5 foram a chave para a redução
do paralelo à insignificância em que se encontra, restrito
ao ilegal, e de onde não deve sair.
Esse princípio e as CC5 são sempre questionados quando
se descobre que a liberdade foi abusada, ou a identificação
fraudada. É disso, entre outras coisas, que trata a CPI do
Banestado. Graças ao fato de que tudo que transita pelas
CC5 é visto pelo BC, foi do próprio BC que partiram
as denúncias que trouxeram à luz o "Esquema Foz".
Se não tivéssemos CC5, tudo se teria passado nos subterrâneos
onde se movem os doleiros, onde tudo é sombra, e não
teríamos ficado sabendo de nada.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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