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O poder invencível
das dinastias
O critério monárquico da sucessão
pelos laços de sangue sobrevive num
mundo republicano e cientificista
Até quando durará o fascínio da monarquia? Transcorridos 223 anos da
Revolução Americana, que derrotou um rei, e 210 da Francesa, que degolou
outro, a idéia da monarquia revela força, ainda, e não só na Inglaterra
e Suécia, Dinamarca e Holanda. É forte mesmo nas repúblicas. Tome-se o
caso da Indonésia. Nas eleições ali realizadas, ganhou o partido de Megawati
Sukarnoputri, cuja principal virtude é ser filha do líder da luta pela
independência e primeiro presidente do país, Ahmad Sukarno. Vale dizer:
prevaleceu, no processo político, a idéia, inerente à monarquia, de que
atributos de estadista se transmitem pelo sangue.
E esse está longe, bem longe, de ser caso isolado. Na Índia, vislumbra-se
a salvação da pátria na candidatura a primeira-ministra de Sonia Gandhi,
cuja força vem de ser viúva do ex-primeiro-ministro Rajiv Gandhi, que
por sua vez era filho da ex-primeira-ministra Indira Gandhi, filha do
ex-primeiro-ministro Jawaharlal Nehru. No total, a família Nehru/Gandhi
deteve o poder durante 37 dos 52 anos de vida independente da Índia. Não
seria mais cômodo proclamar de vez a monarquia, eliminando-se a trabalheira
de fazer eleições? E note-se que Sonia, nascida na Itália, é uma estrangeira.
É como as rainhas de outrora. Como Catarina e Maria de Médicis, italianas
como ela, que reinaram na França.
Continuemos pelas vizinhanças. O Paquistão teve como primeira-ministra
Benazir Bhutto, filha do ex-presidente Zulfikar Ali Bhutto. Em Taiwan,
Chiang Kai-chek foi sucedido pelo filho Chiang Ching-Kuo, e ambos, como
os reis, governaram até morrer. Quem pensa que isso só acontece em países
capitalistas considere o caso da Coréia do Norte, onde depois de Kim Il
Sung veio Kim Jong Il, seu filho. E quem pensa que o fenômeno é privativo
da Ásia tenha em mente o caso do Chile, aqui perto, cujo presidente, Eduardo
Frei, é filho de outro Eduardo Frei, presidente na década de 60. Em Cuba,
Fidel Castro tem como herdeiro presuntivo o irmão, Raúl Castro, um caso,
como o da Coréia do Norte, de monarquia comunista. E na Nicarágua, até
há pouco, a presidente era Violeta Chamorro, viúva de Joaquín Chamorro,
destacado líder da oposição à ditadura de outra família, a Somoza. No
caso de Violeta Chamorro, a herança se transmitiu não pelo sangue, mas
por laços conjugais. É o que ocorreu também, para voltar à Ásia, com Corazón
Aquino, ex-presidente das Filipinas, viúva do líder oposicionista Benigno
Aquino, e também com a já citada Sonia Gandhi. Não importa. Também se
trata de mecanismo com origem na monarquia.
O leitor a esta altura estará quase convencido, mas se indaga: "Isso
não será coisa de Terceiro Mundo? Não será atributo de pobres e atrasados?"
Se é assim, subamos ao mundo encantado do Atlântico Norte. E desconsideremos
de saída o caso de Charles de Gaulle, rapaz eleito na semana passada deputado
europeu, na França, pela (vergonha!) extrema direita, impulsionado pelo
nome idêntico ao do avô. Afinal, o novo De Gaulle ainda não é nada. Fixemo-nos
nos Estados Unidos. Dois Roosevelt, tio e sobrinho, ali já ocuparam a
Presidência. O mais forte candidato nas próximas eleições é um segundo
George Bush, filho do primeiro. E, sobretudo, os Estados Unidos são o
berço dos Kennedy. A revista Time, ao fazer a seleção dos "heróis
do século", incluiu entre eles a "família Kennedy", tratada
assim mesmo, no coletivo – como dinastia.
Bem contados, os anos em que a família ocupou a Presidência não chegaram
a três, o tempo de John Kennedy mal chegar e ser assassinado, mas, no
imaginário americano, reina desde então.
Dos exemplos citados extrai-se uma tipologia da ascensão de filhos e
cônjuges. A do tipo 1 objetiva garantir a continuidade de um regime duro,
casos da Coréia e Taiwan. A do tipo 2, vingar um líder deposto, ou, pior,
assassinado: Bhutto, Joaquín Chamorro e Benigno Aquino foram assassinados,
e Sukarno deposto. A do tipo 3 decorre de puro e simples prestígio, tanto
do filho quanto do pai, o do filho naturalmente ajudado pelo do pai, casos
de Frei, no Chile, e Bush, nos Estados Unidos. Na Índia, a ascensão de
Indira Gandhi pode ser enquadrada no tipo 3, "prestígio", mas
a de Rajiv Gandhi é do tipo 2, "vingança" –
Indira fora assassinada –, algo que se repete
com Sonia – Rajiv teve a mesma sorte. O caso
dos Kennedy balança entre os tipos 3, "prestígio", e 2, "vingança"
(ou ao menos compensação), pelo assassinato –
não só de John, mas de Robert, o irmão que tentava repor o clã na Presidência.
O que os diversos tipos têm em comum é a magia do nome, a mística da dinastia,
características da monarquia que, mesmo num mundo republicano, racional
e cientificista, se recusam a morrer.
E o Brasil? Haveria aqui algo parecido? Na Presidência não tivemos senão
a presença de um par sobrinho-tio (Hermes e Deodoro da Fonseca). Nos Estados,
municípios e legislativos abundam os pais e filhos, tios e avôs, maridos
e mulheres, mas o nome disso é aquele que o leitor sabe. Nepotismo. Ou
então, como se dizia nos tempos do Império, "filhotismo".

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