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A julgar pelas primeiras semanas de exibição nos Estados Unidos, A Ameaça Fantasma deve repetir o êxito de seus antecessores. Em seu primeiro fim de semana em cartaz, em meados de maio, o filme arrecadou 65 milhões de dólares, batendo o recorde anterior de Titanic. No final da semana passada, a arrecadação bateu nos 300 milhões de dólares. Com menos de um mês nas telas, a fita já faturou três vezes mais do que Shakespeare Apaixonado, por exemplo, um dos filmes recentes de maior sucesso. Antes mesmo da estréia do novo Star Wars, as inúmeras confrarias de fãs da série naquele país protagonizaram cenas de fanatismo explícito. Há sete meses, quando o trailer passou a ser mostrado, muitos espectadores pagavam ingresso apenas para entrar no cinema e assisti-lo, deixando a sala quando o filme em cartaz começava. Venda antecipada – Em cidades como Nova York e Los Angeles, as filas nas portas dos cinemas se formaram quatro dias antes da data de estréia – os fãs acampavam na rua para garantir seus ingressos. Para suprir tamanha demanda, diversas salas exibiam o filme ininterruptamente, inclusive madrugada adentro. No Brasil, A Ameaça Fantasma também vem despertando uma tremenda expectativa e os cinemas se preparam para atendê-la. Numa manobra inédita no país, 29 salas de São Paulo e 21 do Rio de Janeiro colocaram ingressos à venda com antecipação. Normalmente, os bilhetes são válidos apenas para o dia em que foram comprados. Em muitas dessas salas a sessão de estréia será à 0h01 de quinta-feira. Quatro cinemas paulistanos farão sessões contínuas da manhã de quinta-feira à noite de domingo. Para quem está curioso em saber se todo esse frenesi é justificado, é bom avisar: a grande atração do novo Star Wars são os efeitos especiais. Eles são espetaculares. A Ameaça Fantasma pertence a uma nova geração de filmes que se beneficiam de um grande salto dado pela tecnologia aplicada ao cinema nos últimos cinco anos. Em 1993, Parque dos Dinossauros, de Steven Spielberg, foi saudado como um prodígio porque os bichões mostrados na tela eram os primeiros "seres vivos" criados inteiramente por computador. Hoje, fitas como A Múmia e Matrix, ambas em exibição no Brasil, e A Ameaça Fantasma usam esse recurso de forma bem mais elaborada. Personagens virtuais são mostrados com uma riqueza de detalhes e de movimentos que os dinossauros de Spielberg não podiam exibir. Essas fitas são a prova de que, atualmente, é possível materializar na tela, por via digital, qualquer cenário, personagem ou seqüência imaginados pelo cineasta. A tecnologia disponível permite também mudar cenas que já foram filmadas, ainda que elas incluam gente de carne e osso. Por exemplo: o diretor filma várias vezes uma cena com dois atores e junta as versões em que cada um dos intérpretes se saiu melhor. Nesse processo, dá até mesmo para alterar os gestos e as expressões dos protagonistas. A Ameaça Fantasma, realizado com um orçamento de 150 milhões de dólares, é um verdadeiro show-room de todas essas inovações tecnológicas. Para se ter uma idéia, apenas 5% das cenas não passam por algum tipo de intervenção digital. Hoje em dia, uma produção típica de Hollywood conta em média com 250 efeitos especiais. Titanic tem 500 e A Ameaça Fantasma, 1950. O filme foi rodado em dois meses, mas foram necessários dois anos, antes e depois das filmagens, para que a equipe da Industrial Light & Magic, o estúdio de George Lucas vencedor de catorze Oscar, executasse todos os truques adicionais. Ao final, eles haviam criado digitalmente três planetas, 65 cenários e 140 monstros. "Comparo meu trabalho ao de um pintor, que volta várias vezes ao mesmo quadro para melhorá-lo", disse Lucas nas entrevistas de lançamento da fita nos Estados Unidos.
A Ameaça Fantasma é o quarto Guerra nas Estrelas, mas, na cronologia da saga, é o primeiro episódio da série. Passa-se trinta anos antes de Uma Nova Esperança e mostra a origem de alguns dos personagens da trilogia original. Em lugar do herói Luke Skywalker, quem está em ação é seu pai, Anakin Skywalker, então com 10 anos de idade. Dois jedis (heróis iniciados nos mistérios da força universal), Qui-Gon (Liam Neeson) e seu aprendiz Obi-Wan (Ewan McGregor), conhecem Anakin por acaso e constatam que ele tem a Força, a entidade mítica que move os principais personagens de Guerra nas Estrelas. Qui-Gon decide treinar o garoto para ser um dos seus. Mais tarde, Anakin irá transformar-se no terrível vilão Darth Vader, que luta com o próprio filho ao final de O Império Contra-Ataca. O motivo pelo qual ele se bandeia para a turma do mal permanece um mistério, a ser revelado nos dois próximos episódios que Lucas pretende realizar. No mais, A Ameaça Fantasma confronta seus heróis com os malvados da federação de comércio da república, que acabam de bloquear as remessas de mercadorias para o planeta Naboo, comandado pela elegantíssima rainha Amidala (Natalie Portman). No caminho dos heróis está o arquivilão Darth Maul (Ray Park), com sua espada de luz de duas lâminas.
História tola – Caso se julgue A Ameaça Fantasma pelos critérios usuais com que se avalia um filme qualquer, pode-se chegar à conclusão de que ele é uma bomba. A história é tola, os personagens não têm consistência, os acontecimentos às vezes são confusos. Esse, porém, é um olhar mal-humorado sobre o filme. A pretensão de George Lucas é envolver o espectador numa seqüência alucinante de cenas de ação e efeitos especiais, levá-lo a mundos de fantasia jamais vistos na tela e apresentá-lo a seres extraterrestres curiosíssimos. O universo onde a fita se move é o do videogame e das histórias em quadrinhos, não o da ficção científica tradicional. A cena que melhor exemplifica a proposta de A Ameaça Fantasma é uma longa corrida de bólidos movidos a turbinas, versões futuristas das bigas romanas que aparecem no clássico Ben Hur. Durante treze minutos, o público acompanha a competição – cheia de obstáculos ameaçadores – de dentro do veículo pilotado por Anakin Skywalker. É uma experiência eletrizante, de dar frio na barriga.
Mais que os três primeiros episódios de Guerra nas Estrelas, A Ameaça Fantasma é deliberadamente dirigido para o público infanto-juvenil. É o primeiro filme da série em que aparecem crianças, sendo uma delas no papel de protagonista. Como os pequenos adoram enxergar a si próprios na tela do cinema ou na TV, pode-se apostar que a garotada sonhará em viver aventuras semelhantes às de Anakin Skywalker – e pedirá aos pais para assistir ao filme repetidas vezes. O monstrinho encarregado das melhores piadas do filme é também um evidente chamariz para o público de calças curtas. Em O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, a criatura engraçada era o orelhudo Yoda, que trocava a ordem das palavras nas frases, mas era contido em sua atitude de monge zen-budista. No novo filme, embora também esteja presente, ele cede a ribalta ao impagável Jar Jar Binks, uma espécie de sapão desengonçado que vive se metendo em confusões. Mal o filme estreou nos Estados Unidos, Jar Jar rendeu críticas a George Lucas, acusado de racismo pela turma do politicamente correto. Como o personagem tem a pele escura, fala com sotaque jamaicano, anda com ginga de malandro e tem culpa no cartório de seu reino, foi apontado como uma caricatura preconceituosa dos negros. Polêmicas desse tipo, naturalmente, servem apenas para atrair ainda mais espectadores. Dinheirama – A estréia de A Ameaça Fantasma abre espaço para que a indústria de produtos licenciados fature alto. Foi justamente o primeiro Guerra nas Estrelas que inaugurou a mania hoje comum de transformar personagens de filmes em bonecos, estampas de camisetas, lancheiras e centenas de outros objetos. Antes do início das filmagens de Uma Nova Esperança, em 1976, George Lucas firmou um contrato histórico com a Fox. Como o estúdio desconfiasse do sucesso do projeto, ele abriu mão de metade de seu cachê como diretor em troca dos direitos sobre os outros episódios previstos e sobre os produtos licenciados. Foi como acertar na loteria. Os três primeiros filmes faturaram nas bilheterias cerca de 1,5 bilhão de dólares. Os brinquedos, camisetas e videogames inspirados neles renderam três vezes mais.
George Lucas, 55 anos, não gastou um centavo para promover seu novo filme. Mas levantou uma dinheirama para que outros o fizessem. Antes mesmo de a fita estrear, o diretor já havia obtido para sua produtora mais de 3 bilhões de dólares com o licenciamento de bugigangas. Só a Pepsi-Cola gastará 2,5 bilhões, até 2005, para estampar os personagens em suas latas de bebidas, nos pacotes de salgadinhos que fabrica e nas cadeias internacionais de fast food sob seu controle. Já as indústrias de brinquedos vão pagar a Lucas 550 milhões de dólares para fabricar os novos artefatos Star Wars. Ao diretor coube apenas encomendar os cartazes do filme e as páginas da internet com informações sobre ele. No entanto, mesmo essas peças promocionais contam com patrocinadores. Para fazer mais barulho, Lucas determinou que A Ameaça Fantasma estreasse nos Estados Unidos em apenas 3.000 salas de projeção – contra 7.000 de Godzilla, por exemplo. Dessa forma, o público é obrigado a fazer fila na porta do cinema, o que funciona como um poderoso instrumento de marketing. Noutra demonstração de seu aguçado tino comercial, o diretor proibiu que, desta vez, o título Star Wars seja traduzido para outras línguas. Trata-se de uma forma de garantir que o público o identifique em todos os produtos licenciados ao redor do globo. Eis por que, nos cinemas brasileiros, o novo filme não virá precedido do título Guerra nas Estrelas. Lucas é um cineasta de poucos títulos, e a única fita de sucesso que dirigiu, além das da série, foi American Graffiti, de 1973. Mas ele já deixou sua marca na história de Hollywood. As aventuras intergalácticas que cria atraem multidões e mostram como a tecnologia de ponta pode tornar o cinema mais divertido. Não há como negar: para o bem ou para o mal, George Lucas é o cavaleiro jedi do entretenimento.
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