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Home  »  Revistas  »  Edição 2170 / 23 de junho de 2010


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Música

O maior figuraço do rock

Sobrevivente de décadas de consumo industrial de drogas,
Ozzy Osbourne lança mais uma vez o disco de sempre,
e narra suas esquisitices em um livro


Sérgio Martins

Fotos John Reardon/Corbis Outline/Latinstock e Dan Macmedian/Contour by Getty Images
FAMÍLIA ENDIABRADA
Ozzy Osbourne em pose de doidão (à esq.) e com a mulher, Sharon,
e os filhos Kelly e Jack, em The Osbournes: apesar de detestar
o reality show da MTV, ele não se importou de exibir a decadência
física e mental. "Consigo fazer as pessoas se divertirem", diz


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Seis anos atrás, o roqueiro inglês Ozzy Osbourne foi a uma clínica em Los Angeles para tratar-se do vício em drogas. Questionado pelo médico, listou os itens que mais consumiu em 34 anos de carreira: maconha, anfetaminas, heroína e montanhas de cocaína. Bebida? Quatro garrafas de conhaque por dia e piscinas de cerveja. Calculou fumar uns trinta charutos diariamente – e perdeu a conta dos cigarros. "Só farei mais uma pergunta", disse o atônito médico. "Como você ainda está vivo?" A fantasia mística poderia atribuir a inexplicável sobrevivência do ex-vocalista do Black Sabbath a um pacto demoníaco, se a recém-lançada autobiografia de Osbourne – Eu Sou Ozzy (Benvirá; tradução de Marcelo Barbão; 384 páginas; 39,90 reais) – não pusesse uma pedra sobre o assunto: a banda nunca foi satanista, embora fizesse letras inspiradas em filmes de terror. Com 61 anos, Osbourne está não somente vivo, mas ativo. Além da autobiografia, acaba de lançar Scream, o 11º CD de estúdio em sua carreira-solo. Trata-se, porém, do mesmo disco que ele faz há anos: melodias simples, letras que investem com revolta pueril contra a religião e a política, e muitos solos de um guitarrista ágil (desta vez, o grego Gus G.). Depois de décadas de bizarrias na vida e nos shows – não, não é lenda: ele realmente mordeu a cabeça de um morcego que um fã atirou no palco, supondo que o bicho fosse de borracha –, Ozzy Osbourne hoje é mais folclore do que música, um desses figuraços que só o rock consegue produzir.

Apesar de algumas notas dramáticas, em especial nas páginas que falam da infância pobre, Eu Sou Ozzy é engraçadíssimo. Documenta, entre outras esquisitices, as desavenças do artista com o reino animal. Além do morcego, Osbourne já decapitou pombos a dentadas. Abateu a tiros toda uma família de gatos que gostava de dormir no capô de seu carro. Atirou também nas galinhas da granja que teve por um breve período, irritado com o cacarejar constante das esfaimadas penosas. E o mais incrível capítulo desse bestiário: Osbourne aspirou uma fileira de formigas que, não se sabe como, confundiu com uma carreira de cocaína.

Musicalmente, o auge de sua carreira foi nos anos 70, com o Black Sabbath, banda que criou com o guitarrista Tony Iommi, seu colega de escola. Embora nunca tenha sido bem-aceito pela crítica, o Sabbath foi um grupo pioneiro: criou o heavy metal. Osbourne foi demitido da banda em 1979, pelo excesso de drogas e álcool. Sua carreira-solo decolou graças à segunda mulher, a empresária Sharon, com quem se casou no início dos anos 80. Foi ela quem criou para Osbourne uma persona mais caricata, próxima de um personagem em quadrinhos (basta ver os dentes de monstro e as fantasias que ele passou a usar ao longo das décadas de 80 e 90). Meses atrás, o casal entrou com uma ação na Justiça contra Iommi, para proibi-lo de usar o nome Black Sabbath. "É coisa da Sharon, não sei nada a respeito", desconversou Osbourne em entrevista a VEJA. Sharon foi também a mentora de The Osbournes, seriado da MTV que mostrava o cotidiano de sua família. Exibido entre 2002 e 2005, o reality show apresentou Ozzy às novas gerações. Os fãs antigos assustaram-se ao ver o cantor sendo tratado a pontapés pelo casal de filhos – aos quais responde com aquela lentidão apatetada própria de um cérebro erodido pelas drogas. "Sei dos meus problemas e de tudo o que aprontei. Mas ainda consigo fazer as pessoas se divertirem", diz Osbourne. Scream e Eu Sou Ozzy oferecem exatamente isso: mais um pouco da mesma velha diversão.


"Vou me doar à ciência"

Em entrevista a VEJA, Ozzy Osbourne diz que não sabe explicar sua sobrevivência – e admite que é sua mulher quem hoje administra sua vida.

O senhor é alcoólatra e já consumiu quase todas as drogas existentes no planeta. Como ainda está vivo?
Um médico já me fez a mesma pergunta. Não sei. Quando eu morrer, vou doar meu corpo ao Museu de História Natural. Aliás, sei como será a minha morte: um pombo vai defecar na minha cabeça e derreterei no asfalto.

Scream é o 11º álbum de sua carreira-solo. Traz alguma novidade?
Para ser sincero, gravo sempre o mesmo disco. As músicas têm o mesmo estilo e as letras tratam dos mesmos assuntos. Mas estou com um guitarrista novo, o grego Gus G.

Um de seus temas recorrentes é o ataque à fé. Por que o senhor é contra a religião?
Na verdade, sou uma pessoa religiosa. Só não aceito os crimes feitos em nome da religião. Tenho também um trauma pessoal. Minha infância foi miserável. Às vezes, não havia o que comer em casa, mas o pessoal da igreja sempre convencia minha mãe de que ela iria para o inferno se não pagasse os dízimos.

É verdade que a família Osbourne vai estrelar outro reality show?
Não sei. Por mim, jamais teria feito The Osbournes. Odeio a MTV e odeio que invadam a minha privacidade. Mas é minha mulher, Sharon, quem decide essas coisas. Aqui em casa, a última palavra é sempre minha: "Pergunte a Sharon – ela é quem manda".

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