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André Chaco/Fotoarena/AE![]() |
| SOLDADOS
DE DUNGA Os jogadores no seu campo de batalha, antes de enfrentar a Coreia do Norte. "Manda quem pode, obedece quem tem juízo", diz o goleiro Júlio César |
Eles parecem uma tropa. Vestem reluzentes uniformes, cada um ocupa sua posição determinada na unidade de infantaria, cumprem com rigor as ordens do comandante em chefe e quase não falam. Protegidos em seu QG ou entrincheirados, comportam-se como se estivessem em campanha não futebolística, na disputa de um campeonato mundial, mas numa operação militar. Além de enfrentarem os adversários encarados como inimigos primeiro a Coreia do Norte, batida na estreia de terça-feira passada pelo magro e preocupante placar de 2 a 1, neste domingo a Costa do Marfim e na próxima sexta Portugal , eles foram longamente instruídos sobre como defrontar o que seu superior hierárquico considera outro tipo de obstáculo: a imprensa.
Nada de ficar dando entrevistas ou aparecer na TV. Só podem abrir a boca, sem nenhuma crítica ao batalhão, dentro de um código rígido. A cada dia, como num rodízio de sentinelas, dois deles são designados para a missão de participar de uma coletiva de imprensa, em que cerca de 200 jornalistas, mantidos a distância em suas cadeiras, disputam o direito de formular perguntas durante meia hora. Na véspera e depois das partidas, cumprindo uma determinação da Fifa, todos passam por uma espécie de corredor polonês em zigue-zague, entre o vestiário e o ônibus, a chamada zona mista, e os que concordarem param diante dos repórteres que se acotovelam. Alguns seguem marchando, como fez o lateral Maicon após a estreia, com a justificativa de que estivera na coletiva anterior. O atacante Robinho "ouve" a primeira indagação sem tirar do ouvido o fone do iPod. O comandante, esse, atravessa o corredor de nariz erguido, passos cadenciados, um, dois, feijão com arroz. Suas únicas aparições são nas tais coletivas obrigatórias, quando dá espetadas com sua baioneta e afirma que essa "é uma forma nova de trabalhar". Na hora dos treinamentos, ninguém chega perto da soldadesca nem da intendência roupeiro, massagista, auxiliares, igualmente proibidos de se pronunciar. Com frequência, são manobras secretas. Ou, ainda na definição do comandante, privadas. "Manda quem pode, obedece quem tem juízo", comentou o goleiro Júlio César na coletiva de sexta passada.
É assim que vem sendo a vida dos pentacampeões mundiais em seu teatro de operações na África do Sul. Aqui o que menos importa são as dificuldades de trabalho dos jornalistas. A questão é que, ao trancar os jogadores, impedir o acesso aos treinamentos e limitar ao máximo as entrevistas, o comandante Dunga, radicalizando seu maquiavelismo, transmite a seguinte mensagem: assistam aos nossos jogos, torçam pela nossa vitória, mas por favor não nos importunem com críticas e pedidos. Faz com isso uma inversão de papéis, pois não são os jornalistas que ele afasta, mas todos os brasileiros que acompanham apaixonadamente a seleção a distância e ficam privados de informações. Entre uma Copa e outra, o futebol é alvo de interesse exclusivo dos torcedores de clube. Durante os trinta dias do Mundial, porém, é a nação de 193 milhões de habitantes que veste a camisa amarela.
Jamais ocorreu nada semelhante na história dos canarinhos. "Na Copa de 70, três vezes por semana, dois jornalistas almoçavam com a delegação e falavam com quem queriam", lembra o ex-lateral Carlos Alberto Torres. "É preciso manter essa boa relação, porque o país inteiro está interessado em acompanhar o que acontece com nossa seleção." Em competições passadas, o técnico e os jogadores davam entrevistas diariamente, antes e depois dos treinos. Havia exagero, é claro, com a publicação de uma avalanche de notícias e uma batelada de irrelevâncias, embora nesse período leitores, telespectadores, ouvintes e internautas fiquem curiosos para saber se a dor nas costas de Júlio César poderia impedi-lo de atuar, se o meia Kaká comentou com a mulher sua falta de ritmo de jogo ou se o atacante Luis Fabiano estaria preparando uma nova coreografia para comemorar os gols. Durante a semana passada, foi impossível apurar coisas banais como essas. No período mais duro do regime militar, com a vigência da censura e do AI-5, os ditadores não davam entrevista. Dentro da seleção brasileira, chefiada na Copa de 70 por um brigadeiro e presidida em 1978 por um almirante, chegaram a trabalhar na comissão técnica o capitão Cláudio Coutinho, que seria o treinador "campeão moral" na Argentina, o major Raul Carlesso e mais três militares. "Mesmo assim, em plena ditadura, a liberdade era maior do que hoje", compara o experiente comentarista esportivo Orlando Duarte. "Os jornalistas passeavam pelo hotel da seleção à vontade e entrevistavam quem bem entendiam. Nas catorze Copas que cobri, nunca vi nada parecido com o que acontece agora."
Com reportagem de Kalleo Coura