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Home  »  Revistas  »  Edição 2170 / 23 de junho de 2010


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Cinema

Educação amorosa

Em Brilho de uma Paixão, um poeta e uma moça se desafiam
na arte da conversa – e assim aprendem a entender um ao outro


Isabela Boscov

Everett Collection/Grupo Keystone
QUESTÃO DE ESTILO
Abbie e Whishaw, como Fanny, a aficionada da moda, e o poeta inglês John Keats:
duas pessoas criativas, interessadas na beleza e desejosas de ser compreendidas
 

De uma maneira ou de outra, todos os filmes da cineasta neozelandesa Jane Campion tratam de um mesmo tema: a dificuldade de uma personagem em se fazer compreendida. Em sua surpreendente estreia na direção, Um Anjo em Minha Mesa, ela investigava o caso real da escritora Janet Frame, que durante boa parte da vida foi submetida a excruciantes internações psiquiátricas por ter sua timidez e tendência à depressão confundidas com esquizofrenia; em seu trabalho mais famoso, O Piano, de 1993 (que fez dela a única mulher a levar a Palma de Ouro em Cannes), a protagonista havia já desistido de tentar se comunicar: simplesmente emudecera. De lá para cá, Jane não conseguira repetir os êxitos desse início de carreira. Foi, por exemplo, injustamente atacada por Retrato de uma Mulher – e merecidamente criticada pelo em tudo errado Em Carne Viva. Não obstante esses reveses, manteve-se leal ao seu tema e evoluiu de maneira admirável no tratamento dele, como atesta Brilho de uma Paixão (Bright Star, Inglaterra/Austrália/França, 2009), que estreia no país na sexta-feira.

Talvez não seja coincidência esse ser o melhor filme da diretora desde Um Anjo em Minha Mesa: como naquele primeiro trabalho, ela aqui parte da recriação biográfica fiel de personagens verídicos – e, de novo, a palavra tem função essencial. John Keats (Ben Whishaw, de Perfume), um dos mais arrebatadores poetas românticos ingleses, tem 22 anos, em 1818, quando conhece Fanny Brawne (Abbie Cornish). Ele é pobre, frágil e luta com um talento que ainda não se definiu nem é reconhecido por completo. Ela é a filha mais velha de uma viúva, respeitável mas sem fortuna, e é vista como uma moça fútil em razão de sua paixão por roupas intrincadas, que ela própria desenha e costura. Keats e Fanny não compartilham interesses – exceto pela arte da conversa e um pelo outro. Tratam, assim, de estabelecer um território comum por meio da linguagem: ele sabe exprimir sentimentos, ela tem o dom de ser espirituosa; e, à medida que ensinam um ao outro essas novas habilidades, eles expandem seu universo e aprofundam sua ligação. Seria supérfluo dizer que Keats e Fanny se apaixonam. A diretora, assim, mostra algo mais interessante – como eles decidem se apaixonar, ao reconhecerem um no outro uma rara disposição de acolher singularidades.

Brilho de uma Paixão é suntuosamente fotografado e muito embevecido com a beleza de suas casas, jardins e figurinos (sem falar na beleza limpa e fresca de sua atriz, uma espécie de versão alimentada a leite integral da também australiana Nicole Kidman). Para o espectador distraído, pode assim passar como mais uma história "de mulherzinha" sobre uma paixão impossível e de fim trágico. Quando Keats morreu de tuberculose longe dela, na Itália, aos 25 anos, Fanny se entregou a paroxismos de sofrimento, o que poderia ser visto como confirmação dessa hipótese. Mas, prestando-se atenção ao desenvolvimento perspicaz que Jane Campion dá ao romance, entende-se o que Fanny de fato perdeu: não só seu primeiro amor, como a possibilidade de uma conexão verdadeira e sem reservas. O que não é só muito – é quase tudo.

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