Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Tales Alvarenga
As aparências
não enganam

"O governo Lula só tem dois negros entre
35 ministros, mas chegou a inventar um
ministério só para cuidar da questão racial.
Vamos chamá-lo, por enquanto, de Ministério
da Demagogia Racial"

Lula deveria excluir trajes caipiras do seu armário. Fica bem demais nesse tipo de fantasia.

Numa única reunião com políticos na semana passada, o ex-prefeito Paulo Salim Maluf repetiu doze vezes que não tem dólares no exterior. Bastaria que Paulo Maluf exigisse, judicialmente, um atestado dos países e bancos apontados como receptores, informando que ele nunca colocou um centavo em suas mãos. Isso pouparia Maluf do vexame de continuar explicando o inexplicável.

O governo Lula podia ser mais modesto. Fala muito em mudar a geografia do comércio mundial. Deveria se concentrar primeiro num objetivo mais urgente: mudar a geografia do comércio de drogas nas favelas do Rio de Janeiro. Resolvido esse desafio, aceitaremos que continue se gabando de que é capaz de reformar o planeta.

Em sua campanha para disputar a prefeitura de São Paulo, o ex-ministro José Serra está fazendo o tipo popular-humilde. Almoça em bandejões zurrapas, posa para fotos de bandeja na mão e sai falando bem da comida para os repórteres. Provavelmente faz isso para se apresentar ao eleitorado como contraponto ao estilo emperiquitado e auto-suficiente da prefeita Marta Suplicy, com quem irá à luta nas urnas. A febre popular de Serra é passageira. Depois das eleições, voltará para o circuito gastronômico três-estrelas que sempre freqüentou.

A prefeita Marta Suplicy ficou três anos sem mostrar serviço. De repente, neste ano em que tenta a reeleição, espalhou canteiros de obras pela capital paulista. Está torrando uma fortuna, o trânsito virou um caos e os paulistanos estão por aqui com a prefeita. Ela diz que não são obras eleitoreiras. Será fácil saber. Se retirar os canteiros de obras antes de setembro ou depois de novembro, nenhuma razão haverá para duvidar de suas boas intenções. Caso contrário...

José Dirceu, chefe da Casa Civil de Lula, faria bem se tirasse o corpo fora das intrigas que explodem no governo. Senão, Lula vai tirar o corpo do ministro para fora de seu gabinete no Planalto.

Os astros da TV ganhariam em recato se parassem de trocar de par entre si a cada três meses. A multiplicação dos romances endogâmicos pode acabar produzindo filhos com problemas. O distinto público também já começa a desconfiar que boa parte dos namoros são apenas peça de marketing para manter seus personagens na mídia.

O governo está instituindo cotas raciais nas universidades federais. Metade das vagas será reservada para quem estudou na escola pública e para negros e pardos. O governo Lula está longe de seguir essa proporção na composição do ministério, que tem dois negros entre 35 ministros. É uma surpresa verificar essa dissonância num governo que chegou a inventar um ministério só para cuidar da questão racial. Vamos chamá-lo por enquanto de Ministério da Demagogia Racial.


(Este colunista estará em férias pelas próximas quatro semanas)

 
 
 
 
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