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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
A nova geografia
da excelência
"Com o Provão, deixamos de fazer
os vôos
cegos da qualidade acadêmica. Ficamos
surpresos ao ver a geografia da excelência
se esparramar pelo Brasil e os alunos ficam
sabendo onde estão os bons e os maus cursos"
Não faz tanto tempo, estudo de primeira
classe era no Rio ou em São Paulo. Mais adiante, as grandes
capitais conquistaram seu espaço na excelência do ensino.
Algumas exceções havia no interior de São Paulo
ou em lugares como Ouro Preto. Mas no resto do país seria
educação de segunda.
Ao divulgar os dez melhores cursos de cada
uma das 26 áreas examinadas pelo Provão, VEJA (31
de março) ajudou a quebrar alguns tabus. Enterrou-se de vez
o monopólio do eixo RioSão Paulo, que já
não abriga sequer a metade dos melhores cursos (curiosamente,
Minas já ultrapassou o Rio, com 34 contra 32).
De fato, os melhores cursos estão localizados
em treze Estados, incluindo alguns improváveis como Paraíba,
Alagoas e Piauí, que têm os mais baixos níveis
de IDH da União. Ou seja, não apenas se quebrou o
mito dos grandes centros, mas os números mostram que a excelência
está ao alcance de Estados pobres.
Os dados indicam também que as grandes
capitais (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador,
Recife) não detêm o monopólio da excelência.
Fora dessas capitais, há 132 dos melhores cursos já
ultrapassando os 126 das cidades mencionadas acima. Outra manifestação
da dispersão geográfica da excelência é
mostrada pela observação de que há 115 desses
cursos que nem sequer estão em capitais brasileiras (contra
145 nas capitais).
Quem sabe onde fica Cândido Rondon?
E Itatiba? Pois é, lá estão alguns dos melhores
cursos do Brasil. Os turistas que forem visitar a pitoresca feira
de Caruaru poderão aproveitar a oportunidade para consertar
seus dentes, pois lá está uma das melhores escolas
do país.
Ilustração Ale Setti
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Fica também em xeque a decantada indissociabilidade do ensino
e da pesquisa, um totem sagrado do nosso sistema de educação.
Mais de um terço dos melhores cursos não está
naquelas instituições que são produtoras sistemáticas
de pesquisa (definidas pela produção de pelo menos
uma publicação significativa por professor/ano). Quando
examinamos a contagem das instituições e não
dos cursos individuais, a proporção onde não
se faz pesquisa é quase a metade.
Esse é um resultado muito interessante,
pois as universidades de pesquisa são famosas, públicas
e gratuitas, atraindo quase sempre os melhores professores e os
melhores candidatos. Portanto, competir com elas é lutar
contra adversários que têm tudo a seu favor. Mesmo
assim, consegue subir ao pódio dos melhores um terço
dos cursos em universidades com pouca ou nenhuma pesquisa. Note-se
também que 39 nem sequer são universidades, mas apenas
faculdades. Em suma, os cursos oferecidos por universidades de pesquisa
tendem a ser melhores se pela pesquisa ou pelo cabedal de
vantagens oferecidas acima, não sabemos. Mas os resultados
mostram que a excelência no ensino não requer necessariamente
a pesquisa. Isso já sabíamos pela experiência
de países como Estados Unidos e França. Os dados aqui
examinados também demonstram com grande vigor que o melhor
ensino é possível sem pesquisa.
A discussão acima lida com os 260 cursos
campeões correspondendo a apenas 5% do total. Portanto,
poucos conseguirão matrícula neles. E os outros? Se
não for destruído por uma gestão desastrada
do MEC, o Provão continuará sendo a primeira e a melhor
fonte de informações.
É confiável? Um grupo dos melhores
professores do país se reúne várias vezes,
acerta os temas da prova, entrega sua formulação aos
melhores técnicos e a aplicação é feita
por instituições com décadas de experiência.
É inevitável que os resultados sejam mais confiáveis
que qualquer outra prova ou medida. Há limitações
técnicas e metodológicas algumas consertáveis,
outras não. Contudo, deixamos de fazer os vôos cegos
da qualidade acadêmica. Ficamos surpresos ao ver a geografia
da excelência se esparramar pelo Brasil. E, mais prosaicamente,
os alunos ficam sabendo onde estão os bons e os maus cursos.
Aliás, o Provão não é
para agradar aos professores, alunos ou reitores. Ele é uma
resposta do MEC à sociedade, que precisa de informações
para fazer escolhas acertadas.
Claudio de Moura Castro é
economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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