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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Arrastão na Suíça
Uma história exemplar
de como
o Brasil vai atrás mesmo quando
se finge nada ter com ele
Brasileiro ama neve. Não há
povo mais entusiasmado quando os flocos gelados começam a
cair-lhe na cabeça. "Nevou em São Joaquim!" é
uma notícia anunciada entre sorrisos de júbilo, na
televisão. Os apresentadores de TV têm instruções
de abrir largos sorrisos diante de dois assuntos: futebol e neve.
O(a) leitor(a) já terá reparado como as notícias
do futebol são sempre antecedidas por sorrisos de felicidade.
A notícia da neve requer mais felicidade ainda. Nesta época
do ano, São Joaquim se transforma na capital de um país
imaginário, o país que o Brasil gostaria de ser. Ou,
pelo menos, que boa parte dos brasileiros gostaria que fosse, um
país abençoado pela neve e, em conseqüência,
pelas práticas civilizadas que usamos atribuir aos lugares
onde ela costuma cair com menos economia.
Registre-se, para deixar claro que ninguém
está implicando com ninguém, que o gosto do brasileiro
pela neve é para lá de compreensível. Os suecos
não amam o sol? Dá para imaginar, ainda que nunca
se tenha visto o noticiário da TV sueca, a satisfação
com que os apresentadores de lá registram o solitário
dia do ano em que o sol lhes dá o ar de sua graça.
Ama-se sempre o que é raro. Os suecos também têm
um país imaginário na cabeça, e esse país
não é outro senão... sim, senhor, sem falsa
modéstia... este nosso mesmo. Para quem não sabe,
comemora-se o Carnaval na Suécia. E um Carnaval à
brasileira, para o qual até escola de samba fundaram por
lá. Não há mulatas e a bateria não há
de ser igual à da Mangueira, mas é um simulacro, ainda
que modesto, de Carnaval brasileiro, e isso trai o desejo de, uma
vez ao ano, pelo menos na fantasia, desencalhar o país das
ingratas vizinhanças do Pólo Norte e rebocá-lo
até a quentura dos trópicos, que supõem prenhes
de delícias.
No Brasil faz-se trajeto inverso. Uma vez
por ano, arranca-se o país da condenação inclemente
do sol e trata-se de empurrá-lo na trilha de delícias
do frio, do tempo fechado, do cinza na paisagem. Em Campos do Jordão
não chega a nevar, como em São Joaquim, mas é
onde tal transmutação se dá com mais ênfase.
Campos do Jordão, situada na Serra da Mantiqueira, a 1.600
metros de altitude, é uma imitação da Suíça.
As pessoas vão lá para embrulhar-se em agasalhos como
esquimós, fazer as bochechas arder do calor das lareiras,
quando em ambientes fechados, e, quando na rua, exalar, com a alegria
infantil de quem produz bolhas de sabão, um bafo magicamente
visível. É de rigor torcer para que a temperatura
fique cada vez mais baixa. Três, dois, um... zero! O zero
é para ser anunciado na TV com um sorriso tão escancarado
quanto o que se aplica a um jogo que é decisão de
campeonato.
Em Campos do Jordão tudo é preparado
para fingir que não é Brasil. A arquitetura é
de padrão alpino, e o ambiente de estação de
esqui, sem esqui. É um lugar chique, com hotéis e
restaurantes caros, e onde se caprichou no principal: não
há pobres. Pelo menos, eles não são visíveis.
No núcleo duro de Campos do Jordão, que é o
centrinho onde ficam as lojas, os bares e os restaurantes, os pobres
escasseiam como numa rua de Zurique. Diga-se de passagem que na
temporada esse núcleo duro fica apinhado de gente. Os carros,
para ali chegar, enfrentam colossais congestionamentos. Seguem-se
filas igualmente colossais para conseguir mesa nos restaurantes.
Considera-se isso diversão.
E é mesmo. A época é
de férias, conseguiu-se uma folga do Brasil que pode
haver de melhor? Bem, sempre tem gente que enxerga de outro jeito
e foi assim que uma jovem amiga do escrevinhador destas linhas,
moradora do Recife, ao visitar Campos do Jordão pela primeira
vez, viu coisas que os mais afeitos à terra não vêem.
Camille, esse é o seu nome, achou quase perfeito o esforço
de descolamento do Brasil que se empreende em Campos. "Até
loja com nome de Matterhorn tem lá", comentou. Mas ficou
no "quase", porque, nas suas palavras, "uma coisinha de Brasil escapou":
o trabalho de menores. Camille estava acompanhada de uma amiga espanhola.
Difícil, diz ela, foi explicar à outra que o trabalho
do menor é proibido, mas, sabe?, isso não quer dizer
que seja assim proibiiiido, a ponto de não poder mesmo, porque,
sabe?, no Brasil proibem-se certas coisas, mas isso não quer
dizer que fique muito proibiiido... Deu para entender?
No feriado de Corpus Christi, a fila maior
não era na porta dos restaurantes. Era na delegacia. Eis
a tenebrosa notícia: num show de música popular presenciado
por 6.000 pessoas, ladrões fizeram
a festa. Operando com a rapidez e a flexibilidade de um esquadrão
bem treinado, aliviaram a platéia de carteiras, celulares,
relógios e máquinas fotográficas. Pelo menos
100 pessoas foram furtadas as 100 que passaram pela delegacia.
Elas ali compareciam para buscar os documentos que, segundo foram
informadas, estariam com a polícia, depois de jogados fora
pelos ladrões. A moral desta história é que,
por mais perfeição que se consiga na descolagem do
Brasil, o Brasil vai atrás. No caso, foi atrás de
Campos do Jordão na modalidade inglória do "arrastão".
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