Edição 1859 . 23 de junho de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Arrastão na Suíça

Uma história exemplar de como
o Brasil vai atrás mesmo
quando
se finge nada ter com ele

Brasileiro ama neve. Não há povo mais entusiasmado quando os flocos gelados começam a cair-lhe na cabeça. "Nevou em São Joaquim!" é uma notícia anunciada entre sorrisos de júbilo, na televisão. Os apresentadores de TV têm instruções de abrir largos sorrisos diante de dois assuntos: futebol e neve. O(a) leitor(a) já terá reparado como as notícias do futebol são sempre antecedidas por sorrisos de felicidade. A notícia da neve requer mais felicidade ainda. Nesta época do ano, São Joaquim se transforma na capital de um país imaginário, o país que o Brasil gostaria de ser. Ou, pelo menos, que boa parte dos brasileiros gostaria que fosse, um país abençoado pela neve e, em conseqüência, pelas práticas civilizadas que usamos atribuir aos lugares onde ela costuma cair com menos economia.

Registre-se, para deixar claro que ninguém está implicando com ninguém, que o gosto do brasileiro pela neve é para lá de compreensível. Os suecos não amam o sol? Dá para imaginar, ainda que nunca se tenha visto o noticiário da TV sueca, a satisfação com que os apresentadores de lá registram o solitário dia do ano em que o sol lhes dá o ar de sua graça. Ama-se sempre o que é raro. Os suecos também têm um país imaginário na cabeça, e esse país não é outro senão... sim, senhor, sem falsa modéstia... este nosso mesmo. Para quem não sabe, comemora-se o Carnaval na Suécia. E um Carnaval à brasileira, para o qual até escola de samba fundaram por lá. Não há mulatas e a bateria não há de ser igual à da Mangueira, mas é um simulacro, ainda que modesto, de Carnaval brasileiro, e isso trai o desejo de, uma vez ao ano, pelo menos na fantasia, desencalhar o país das ingratas vizinhanças do Pólo Norte e rebocá-lo até a quentura dos trópicos, que supõem prenhes de delícias.

No Brasil faz-se trajeto inverso. Uma vez por ano, arranca-se o país da condenação inclemente do sol e trata-se de empurrá-lo na trilha de delícias do frio, do tempo fechado, do cinza na paisagem. Em Campos do Jordão não chega a nevar, como em São Joaquim, mas é onde tal transmutação se dá com mais ênfase. Campos do Jordão, situada na Serra da Mantiqueira, a 1.600 metros de altitude, é uma imitação da Suíça. As pessoas vão lá para embrulhar-se em agasalhos como esquimós, fazer as bochechas arder do calor das lareiras, quando em ambientes fechados, e, quando na rua, exalar, com a alegria infantil de quem produz bolhas de sabão, um bafo magicamente visível. É de rigor torcer para que a temperatura fique cada vez mais baixa. Três, dois, um... zero! O zero é para ser anunciado na TV com um sorriso tão escancarado quanto o que se aplica a um jogo que é decisão de campeonato.

Em Campos do Jordão tudo é preparado para fingir que não é Brasil. A arquitetura é de padrão alpino, e o ambiente de estação de esqui, sem esqui. É um lugar chique, com hotéis e restaurantes caros, e onde se caprichou no principal: não há pobres. Pelo menos, eles não são visíveis. No núcleo duro de Campos do Jordão, que é o centrinho onde ficam as lojas, os bares e os restaurantes, os pobres escasseiam como numa rua de Zurique. Diga-se de passagem que na temporada esse núcleo duro fica apinhado de gente. Os carros, para ali chegar, enfrentam colossais congestionamentos. Seguem-se filas igualmente colossais para conseguir mesa nos restaurantes. Considera-se isso diversão.

E é mesmo. A época é de férias, conseguiu-se uma folga do Brasil – que pode haver de melhor? Bem, sempre tem gente que enxerga de outro jeito e foi assim que uma jovem amiga do escrevinhador destas linhas, moradora do Recife, ao visitar Campos do Jordão pela primeira vez, viu coisas que os mais afeitos à terra não vêem. Camille, esse é o seu nome, achou quase perfeito o esforço de descolamento do Brasil que se empreende em Campos. "Até loja com nome de Matterhorn tem lá", comentou. Mas ficou no "quase", porque, nas suas palavras, "uma coisinha de Brasil escapou": o trabalho de menores. Camille estava acompanhada de uma amiga espanhola. Difícil, diz ela, foi explicar à outra que o trabalho do menor é proibido, mas, sabe?, isso não quer dizer que seja assim proibiiiido, a ponto de não poder mesmo, porque, sabe?, no Brasil proibem-se certas coisas, mas isso não quer dizer que fique muito proibiiido... Deu para entender?

No feriado de Corpus Christi, a fila maior não era na porta dos restaurantes. Era na delegacia. Eis a tenebrosa notícia: num show de música popular presenciado por 6.000 pessoas, ladrões fizeram a festa. Operando com a rapidez e a flexibilidade de um esquadrão bem treinado, aliviaram a platéia de carteiras, celulares, relógios e máquinas fotográficas. Pelo menos 100 pessoas foram furtadas – as 100 que passaram pela delegacia. Elas ali compareciam para buscar os documentos que, segundo foram informadas, estariam com a polícia, depois de jogados fora pelos ladrões. A moral desta história é que, por mais perfeição que se consiga na descolagem do Brasil, o Brasil vai atrás. No caso, foi atrás de Campos do Jordão na modalidade inglória do "arrastão".

 
 
 
 
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